“Foi doloroso ouvir o meu filho dizer que íamos morrer aqui. Pensámos mesmo que íamos morrer”

“Foi doloroso ouvir o meu filho dizer que íamos morrer aqui. Pensámos mesmo que íamos morrer”

Texto Maria João Caetano

Fotografia Miguel Mateus

Da porta de casa de Inês Ferreira ao eucaliptal queimado são meia dúzia de passos, não mais. É sair de casa, atravessar a estrada e “foi aqui, foi aqui que o fogo parou”. Tivesse o fogo atravessado a rua e não estávamos agora aqui a falar. Tivesse o fogo dado mais dois passos e sabe-se lá. Inês Ferreira baixa os olhos. “Foi muito assustador.”

Começou tudo na terça-feira por volta do meio-dia e meia. “Começou a atear ali daquele lado, via-se um fumo escuro, ainda longe.” Inês assomou à porta, preocupada. Mas o marido, que chegou a essa hora para almoçar, descansou-a: “Já está a acalmar”, disse-lhe. Sentaram-se à mesa, junto à janela com vista para os eucaliptos, estava um calor abrasador, nem dava para abrir os vidros. Deixaram-se ficar naquela moleza até que já eram duas horas e ele teve que voltar ao trabalho, “até logo”, meteu-se no carro e foi. O fumo parecia mais perto, mas nada de preocupante. Inês tinha que se despachar para daí a pouco pegar na moto e também ela ir trabalhar. O seu turno no lar da terceira idade de Santa Eufémia começava às 15:30. Mas já não chegou a ir. Uns minutos depois, nem sabe como, tudo tão de repente, e o fogo estava ali mesmo perto, a vir em direção à casa. A quantos passos? “Fiquei logo encurralada, ele já não conseguiu voltar e eu já não consegui sair, fiquei aqui com os meninos.”

Os meninos já são crescidos. O Vítor tem 19 anos e o Ricardo tem 17. E de um momento para o outro parece que ficaram ainda mais crescidos e fortes, pegaram em baldes de água e desataram a molhar o terreno, as paredes, as janelas. Queriam enfrentar o fogo, meter-se pelos eucaliptos. O Vítor é jovem, talvez não tenha tanta noção do perigo. “Vi a cara do demónio no fogo”, diz ele. Mas são meninos ainda. Tiveram medo. “Foi doloroso ouvir o meu filho dizer que íamos morrer aqui. Pensámos mesmo que íamos morrer. Foi um autêntico inferno.”

Vale d'Água, freguesia da Boa Vista, Leiria, é um lugar com poucas casas. Algumas estão abandonadas, duas pertencem a emigrantes, as outras não tinham ninguém àquela hora, “as pessoas andavam na sua vida, a trabalhar. Só estávamos nós na aldeia”, conta Inês. Eles os três, a cadela Lady e o cão Marley. Os bichos ainda mais atarantados do que os humanos. Estavam Inês, Vítor e Ricardo de um lado para o outro, a fazer o que podiam para afastar o fogo, parecia que tinham passado uns minutos e já tinha passado uma hora e meia, quando apareceu a GNR. Vítor gritou-lhes a pedir ajuda: “Estamos aqui”. Não há tempo a perder. É preciso ir. Inês não quer mas tem de ir, por causa dos filhos. Depressa, depressa. Não levaram nada. “Só levei os meus filhos, os cães e a roupa que tinha no corpo.” O carro a passar por entre as chamas. Uma aflição enorme. Só descansaram quando chegaram a casa dos familiares. Ao telemóvel chegavam-lhes imagens aterradoras. “Pensei: eu já perdi tudo. Achei que quando voltasse já não ia ter casa, não ia ter nada. Uma vida toda perdida.”

“Já viu? A casa não ficou nada queimada, nada. Foi como se ficasse dentro de uma bolha, ardeu tudo à volta", conta Inês Ferreira. Foto: Miguel Mateus/CNN

Foi preciso esperar por quarta-feira à noite para terem autorização para regressar a casa. Ela não sabia o que esperar. “Já viu? A casa não ficou nada queimada, nada. Foi como se ficasse dentro de uma bolha, ardeu tudo à volta, o fogo passou ao lado.” “Foi um milagre”, diz Ricardo. “Foi um milagre”, concorda Vítor. “Foi um milagre de deus”, conclui Inês. “E foi já a segunda a vez.” Há dois anos escapou de um cancro, agora de um incêndio. Quando isto tudo passar há de ir a Fátima, acender uma vela e agradecer as bênçãos. “Tenho muita fé, e tenho razões para isso.”

Infelizmente a fé não lhe cura o medo, uma inquietação estranha, como se a casa, a sua casa, onde sempre foi feliz, já não fosse um lugar seguro. “Já vi vários fogos, mas como este nunca. Em 35 anos nunca tinha visto uma coisa assim. E agora, depois de ter visto o fogo aqui tão perto, muito sinceramente, tenho medo. Eu sei que já não vai atear mais nada mas é muito difícil. Tento esquecer mas, quando deitamos a cabeça na cama, a imagem que nos vem é a do fogo à frente da casa.”

“Foi por pouco. Se estivéssemos à espera dos bombeiros estávamos bem governados”

Agostinho Romeiro para o carro na berma da estrada e sai a correr com uma pá na mão em direção ao fogo. Não vai dar, sozinho não vai conseguir. Tira o telemóvel do bolso da camisa e liga para os bombeiros, para o filho, para o vizinho. “Traz água. Está a começar a arder na estrada da Serrada, a seguir à santa. Tem que se atacar antes que se espalhe. Vem já.” Dado o alerta, fica ali, a olhar para o fogo, impotente. “Já viu isto?” 

São 11:30 da manhã de quinta-feira na freguesia de Caranguejeira. O incêndio que lavrou desde terça-feira pelos montes e vales, praticamente descontrolado, deixando quilómetros e quilómetros de paisagem cinzenta à sua passagem, já está em fase de rescaldo, mas Agostinho sabe que o perigo ainda não passou.

Tem 71 anos e morou toda a vida ali, conhece bem os perigos dos fogos de verão. “Desde pequeno que estou habituado a andar na frente, já assisti a muito.” A 4 de agosto de 2005 – sabe a data de cor, nunca a irá esquecer – viu o fogo a passar-lhe por cima. Literalmente. “Estava dentro da vacaria com mais quatro homens. Não fugi dali porque sempre me senti à vontade, era um espaço grande. Mas a verdade é que o fogo passou-nos por cima. Já tinha visto isso nos filmes e a gente acha que só acontece nos filmes, mas não, acontece mesmo. Ardeu tudo à volta. Foi uma coisa impressionante.”

Agostinho Romeiro fica ali a olhar para o fogo, impotente. “Já viu isto?” Foto: Miguel Mateus/CNN

Depois de 2005, o pior incêndio que viu foi este. “Parecia uma coisa de nada." De repente, tornou-se uma coisa grande. Sem bombeiros nas redondezas, homens e mulheres juntaram-se para defender as terras, com tanques de água e mangueiras, tratores, pás, ramos e o que mais tivessem à mão, tentando controlar o fogo para que não chegasse às casas. “Começámos às duas da tarde e andámos aí até às três da manhã, se não fosse o pessoal isto tinha sido muito pior, tinha galgado por aí acima e depois ninguém dava conta”, sentencia Agostinho.

Há duas noites, ninguém dormiu na Caranguejeira. “Mandaram-nos para casa mas quem é que conseguia? A gente defende o que é nosso. Pode não ser meu, mas é de alguém.” Mesmo depois dos bombeiros dizerem que já tinha acabado, os homens continuaram de vigia.  “Tem que se fazer o rescaldo em condições, e não fizeram.” Foi por isso que Agostinho Romeiro decidiu vir por este caminho. Tinha acordado cedo para ir à médica ver da tensão que tem andado alta, vinha no carro em vez de trazer o trator com o tanque, vinha de camisa em vez de ter a roupa de trabalho, mas ainda assim decidiu dar uma volta maior porque o fogo tinha sido apagado mas, por entre a paisagem desoladora, com árvores queimadas e chão de cinzas, os cepos ainda ardem, há lumaréu por todo o lado, basta um vento mais forte e pode haver reacendimentos. Até parecia que adivinhava. Ao passar a Santa, saindo da rota dos peregrinos para a estrada da Serrana, encontrou as labaredas.

Até que enfim que chega Arlindo com o seu trator, um tanque de 330 litros e uma mangueira de cem metros. Agostinho roda rapidamente a manivela para desenrolar a mangueira, Arlindo aponta a água para as chamas. Os dois homens trabalham em conjunto. Agora aqui, depois ali, é preciso apagar mais aquele cepo, é melhor pôr mais água que isto ainda não está bom. “Se estivéssemos à espera dos bombeiros estávamos bem governados. No Lavradio já se está a levantar o fogo outra vez. Aqui foi por pouco”, diz, esbaforido.

Foram três dias a arder. O fogo deflagrou pelas 12:06 de terça-feira, na freguesia da Caranguejeira, Leiria, e estendeu-se depois à freguesia da Boa Vista, obrigando ao corte da A1 entre Pombal e Leiria, e Fátima e Leiria. Pelas 15:00, também o IC2 foi cortado em ambos os sentidos. As autoridades aconselharam os moradores de Machados a abandonar as suas casas, por precaução. As populações em risco foram retiradas para locais seguros. As casas na Boa Vista ficaram sem abastecimento de água. A situação iria piorar ao longo da noite e prolongar-se durante todo o dia de quarta-feira. O incêndio só foi dado como extinto já na madrugada de quinta-feira, e mesmo assim, depois disso, houve reacendimentos. Continua em estado de “resolução” na manhã de sexta-feira, com 210 operacionais auxiliados por 74 viaturas.

  • Ao passar a Santa, saindo da rota dos peregrinos para a estrada da Serrana, Agostinho Romeiro encontrou as labaredas
    Ao passar a Santa, saindo da rota dos peregrinos para a estrada da Serrana, Agostinho Romeiro encontrou as labaredas
  • Arlindo chegou com o seu trator e um tanque de 330 litros
    Arlindo chegou com o seu trator e um tanque de 330 litros
  • Os dois homens trabalham em conjunto
    Os dois homens trabalham em conjunto
  • A A1 chegou a estar cortada ao trânsito
    A A1 chegou a estar cortada ao trânsito

“Uma pessoa trabalha para ter as coisas e vem o fogo e leva tudo”

Manuel Jesus Marques passou a manhã a pôr uma rede nova à volta do terreno, na Lagoa da Pedra, freguesia de Caranguejeira. Deste lado para cá é meu, do lado de lá já não é. Acabou o trabalho às 11:00 e, pouco depois do meio-dia, ardeu tudo. Agora até se ri a contar esta história mas, na altura, garante que não teve graça nenhuma.

O fogo parecia longe, no Leão, a uns quilómetros dali. Só que “em cinco ou dez minutos, o fogo que estava além chegou aqui perto.” A mulher, Odete, começou a gritar-lhe do terraço: “Sai daí que vem o fogo, sai daí.” Mal tiveram tempo para levar as ovelhas para o relvado perto da casa. Para Odete ir pedir ajuda aos bombeiros que estavam mais acima. Para Manuel abrir a mangueira e tentar atrasar as chamas. Não foi possível salvar os 12 frangos, as duas patas e as dez galinhas. Os animais morreram todos. Não foi possível salvar a lenha, tanta lenha que tanto trabalho deu a crescer e a cortar. Não foi possível salvar a erva das ovelhas, que agora vão ter que comer ração. Não foi possível salvar parte da horta, com as couves, as batatas, as alfaces e os tomates. Salvou-se a casa, a roupa estendida, as cadeiras onde costumam sentar-se à sombra nos fins de tarde mais frescos. “Podia ser pior.”

Ainda assim, Manuel e Odete estão tristes e zangados. “De que adianta andarmos a limpar os terrenos se depois os donos dos pinhais e dos eucaliptais não limpam a mata? Nem o Estado limpa os seus terrenos e depois quer multar-nos. Mas só multa os pequeninos, só nos multa a nós, que não somos ninguém. E agora vamos fazer o quê?”, pergunta Odete, desconsolada. “Uma pessoa trabalha para ter as coisas e vem o fogo e leva tudo.”

Manuel Jesus Marques passou a manhã a pôr uma rede nova à volta do terreno. Pouco depois, ardeu tudo. Foto: Miguel Mateus/CNN
Não foi possível salvar a lenha, os animais, parte da horta nem a erva para os animais. Foto: Miguel Mateus/CNN

 

“É claro que tenho medo mas temos que aguentar”

“Venham daí que eu vou mostrar-vos até onde o fogo veio.” Lucinda tem 76 anos e sofre de artroses que a fazem coxear da perna esquerda, mas isso não a impede de pôr-se ao caminho. Ainda é preciso andar um bom bocado. Desta vez, o fogo não chegou perto da sua casa, como aconteceu há 17 anos. “Ah, esse é que foi o maior fogo. Foi um dia de muito calor.” Lucinda recorda a angústia de estar em casa com os netos, todos pequenos, só pensava em tirá-los dali e o fogo cada vez mais perto. “Nem me quero lembrar disso, foi um dia de aflição”, diz, enquanto caminha com Milu, a cadela, pelas ruas da Longra, freguesia da Caranguejeira, Leiria. Não se vê vivalma. Os mais novos hão-de estar a trabalhar, os mais velhos estão a fazer a sesta, há muitas casas desabitadas, outras pertencem a emigrantes.

Lucinda também esteve em França. Esteve fora dez anos até que o marido começou a ficar cego e decidiram voltar. “Ia lá ficar a fazer o quê?” A cegueira, fruto de um problema genético, trouxe-os de volta às origens. “É o nosso cantinho, é a nossa casa. É claro que tenho medo mas temos que aguentar. A gente não se vai livrar disto, com tanta malvadeza que há”, diz, atribuindo a culpa dos incêndios a criminosos, como quase toda a gente. Na verdade, “os incendiários são uma parte pequena” das causas dos incêndios, explicou o primeiro-ministro António Costa, no início da semana. “O grosso dos incêndios decorre não desses incendiários, mas de pessoas como nós que, por descuido (...) inadvertidamente, irresponsavelmente, provocam os incêndios".

Quem passa na rua da frente não imagina mas, na parte de trás das casas, os quintais e as hortas foram queimados pelo fogo. “Mais um pouco e tinha-se dado uma desgraça.” Lucinda caminha sobre as cinzas, leva-nos encosta abaixo, até aos cotos que ardem, o fumo a sair da terra ainda quente. Come uma tangerina roubada de uma árvore, atira as cascas para a terra. “Está mesmo a saber-me bem.” O sumo da tangerina a escorrer pelas mãos com que Lucinda aponta as terras, “estas aqui fui eu que limpei”, “ali andou o meu filho no trator a pôr terra para apagar o fogo”, “mais além, estão a ver, o fogo virou, por causa do vento, foi uma sorte. Se tivesse vindo para aqui…” Deixa a frase a meio para retomá-la uns metros mais à frente. “Foi uma sorte para nós, foi um azar para os outros. Se tivesse vindo para este lado, sabe-se lá o que seria de nós.”

Lucinda caminha sobre as cinzas. "É claro que tenho medo mas temos que aguentar." Foto: Miguel Mateus/CNN
“Foi uma sorte para nós, foi um azar para os outros." Foto: Miguel Mateus/CNN