Estas jovens afegãs deixaram "descair o véu", escaparam aos talibãs, e vieram estudar para Portugal
Nexus 3.0: Jovens afegãs (FOTO: Joana Moser)

Estas jovens afegãs deixaram "descair o véu", escaparam aos talibãs, e vieram estudar para Portugal

Depois dos talibãs impedirem estas raparigas de ingressar no ensino superior, a Nexus 3.0 conseguiu trazê-las para Portugal. “Livres” e “gratas”, estão espalhadas pelo país a estudar os mais diversos cursos

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Joana Moser

"Se uma mulher não recebe educação, não tem dinheiro, poder ou trabalho, está restringida". Latifa (nome fictício) tem 24 anos e muita vontade de partilhar a sua história. É uma das 680 mulheres afegãs acolhidas por Portugal entre agosto de 2021 - o mês em que os talibãs tomaram o poder no país - e janeiro de 2024, segundo dados provisórios da AIMA. Latifa é hoje uma das que agora podem estudar e viver livremente. 

Proibidas de falar, cantar, ler em voz alta, frequentar o ensino superior, expor o rosto, olhar para qualquer homem que não seja seu familiar, deslocarem-se sozinhas, vestirem roupas finas, apertadas ou curtas, as mulheres afegãs estão cada vez mais limitadas no seu país. "[Os talibãs] estão a trazer costumes da cultura árabe que não tem nada que ver com a nossa cultura”, conta. "A educação é chave para superar estas barreiras", defende a jovem estudante, que fugiu do Afeganistão em busca de melhores condições de vida - e que as encontrou no Porto, com a ajuda do projeto Farol de Esperança, da Nexus 3.0

Fundada a 29 de abril de 2022, a organização não-governamental é liderada por três mulheres de diferentes contextos – Ana Santos Pinto, Sofia Lorena e Helena Barroco, respetivamente uma académica, uma jornalista e uma diplomata. À CNN Portugal, a presidente, Helena Barroco, explica que o objetivo da organização é “tentar encontrar oportunidades académicas para estudantes oriundas de situações de conflito”, como as 16 afegãs já apoiadas pelo projeto Farol de Esperança.

Tal como Latifa, Mahnaz, de 28 anos, viu na Nexus 3.0 uma oportunidade de escapar às restrições de liberdades impostas pelo Ministério da Propagação da Virtude e Prevenção do Vício (MPVPV). “A única coisa em que pensava era como salvar a minha vida”, lembra.

Depois do sucesso do primeiro projeto de apoio a refugiados ucranianos, a Nexus 3.0 lançou o projeto Farol de Esperança para “combater a interdição das raparigas afegãs de frequentarem o ensino superior”. Está previsto durar três anos e integrar 50 raparigas afegãs de forma faseada. 

Sem grandes expectativas, com parceiros internacionais como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e a Comissão Europeia, o projeto foi divulgado. Em menos de nada, receberam três mil candidaturas nas mais diversas áreas de ensino, “desde medicina à literatura persa”. “A única coisa que ainda funciona no Afeganistão é a internet”, diz em tom de troça, Helena Barroco, confessando que demoraram quase um mês a imprimir todas as candidaturas. 

Das três mil inscrições, foram selecionadas 25 candidatas. Na verdade, foi "muito complicado" e doloroso", admite. A organização teve de estabelecer um conjunto de critérios para proceder à seleção: a par de ser mulher e natural do Afeganistão, pesaram questões como a localização, área de estudo, documentos, cartas de motivação e fatores de risco. 

As raparigas que tinham mais hipótese de conseguir chegar a Portugal eram aquelas que já se encontravam em países vizinhos do Afeganistão, as interessadas em áreas de estudo existentes em Portugal e as que pertencem a minorias mais perseguidas. Por fim, era também realizada uma entrevista por Zoom.

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"Não havia outra opção": A saída do Afeganistão

Entre desistências e passaportes caducados, apenas 16 das 25 candidatas selecionadas efetivamente chegaram a Portugal. Para muitas, a saída do Afeganistão representou o maior desafio.

É o caso de Mahnaz. Tal como as restantes jovens afegãs, precisou de ser acompanhada por um mahram — um guardião que pode ser o irmão, pai ou marido — para poder deixar o Afeganistão. Com a ajuda do irmão, Mahnaz conseguiu atravessar a fronteira e chegar até ao Irão. Essa não foi a sua primeira vez fora do país. Mahnaz trabalhava com uma organização não-governamental em colaboração com o governo afegão e, devido às ameaças constantes dos Talibã, era forçada a mudar de local a cada três meses, sempre sob a proteção de um mahram. "Não me sentia segura", recorda. Ao chegar ao Irão, foi obrigada a mentir, afirmando que estava apenas de passagem como turista com destino a Portugal.

Um casal afegão viaja de mota perto de Bagram, a cerca de 60 km de Cabul (FOTO: Getty Images)

Chegadas a Portugal, as jovens passaram a estar sob o regime de proteção internacional, explica Helena Barroco, ex-assessora de Jorge Sampaio. Com um profundo conhecimento das culturas do Médio Oriente, a diplomata destaca que o “efeito gregário da família é muito forte” na cultura afegã. Por isso, para muitas dessas jovens, a decisão de deixar as famílias para trás em busca de educação foi especialmente difícil.

Latifa conta que o seu pai estava “muito preocupado” com a ideia de vê-la partir para um país desconhecido, sem conhecer a cultura ou a língua. “Acabei por convencê-lo, sabia que não havia outra opção”, revela. Para Latifa, é inaceitável que as mulheres afegãs tenham sido privadas da oportunidade de estudar e trabalhar. A sua irmã, por exemplo, não teve a mesma sorte. Apesar de ter estudado medicina durante sete anos, foi impedida de se tornar médica, já que os Talibã tomaram Cabul apenas dois dias antes do exame de acesso à especialização.

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"Nunca pensei que um dia viajaria até Portugal": a chegada

"A nossa responsabilidade começava em Teerão", explica Helena Barroco, que coordenou todos os detalhes: desde a organização do voo e a admissão nas universidades até ao alojamento e ao apoio financeiro mensal destinado ao grupo. As jovens recebem 400 euros por mês, quantia que "gerem como consideram adequado", enquanto o alojamento é pago diretamente às residências universitárias ou aos senhorios. O projeto é financiado por fundos privados, apoios europeus e pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA).

Assim que chegaram, as jovens foram distribuídas por várias regiões do país. Lisboa acolheu cinco estudantes, Bragança quatro, Gandra duas e o Porto cinco. Com idades entre os 19 e os 30 anos, nenhuma delas se conhecia previamente.

"A chegada foi um pouco caótica", admite Helena Barroco, destacando alguns dos desafios enfrentados pelas jovens: a adaptação a viver sozinhas, as exigências académicas e a aprendizagem da língua portuguesa. A maioria das raparigas só chegou em novembro de 2023, dois meses após o início do primeiro semestre, e sabiam muito pouco sobre Portugal. "Fiz uma pesquisa no Google sobre a cultura e o clima. Só sabia quem era o Cristiano Ronaldo", confessa Latifa.

“É frustrante chegar a uma aula e não entender nada por ser em português, especialmente para quem está habituado a ser bom aluno, estando habituado a ser bom aluno”, observa Helena. Nazanin reflete sobre essa experiência: "Foi um grande choque para mim; achava que as aulas seriam em inglês", conta a jovem de 19 anos que estuda psicologia em Gandra.

Além da barreira linguística, estar longe de tudo o que conhecia foi um grande desafio para Nazanin. “Senti muita solidão. Era a minha primeira viagem e a primeira vez que estava longe da minha família”.

Parte do grupo a passear por Sintra (FOTO: DR)

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"Não senti nenhum respeito pelos nossos hijabs": os choques culturais

Apesar de ter sido bem recebida na universidade, Nazanin notou acentuadas diferenças culturais. “Não senti nenhum respeito pelos nossos hijabs”, confessa. Mahnaz também se sente “desconfortável”, sobretudo na universidade: “As pessoas afastam-se de nós”. Já na residência de freiras onde vive, Mahnaz sente-se bastante respeitada. “Sempre respeitaram o nosso tempo de oração”, diz. 

O que mais preocupa Latifa é outra coisa: é que "usar ou não usar o hijab é opcional". "Não quero que ninguém me diga se o devo ou não vestir", assegura sem o véu posto. Mesmo do ponto de vista religioso, explica, o uso "não é obrigatório" e aquilo que os Talibãs estão a fazer é a impor uma cultura que não é a do Afeganistão. Para Latifa, as novas exigências não fazem sentido, sobretudo a obrigação de cobrir até os olhos. Em Portugal, tem a liberdade de decidir quando quer usar o hijab.

Segundo Helena Barroco, a tendência é “deixar cair o véu” ou até “descair”. Culturalmente, a diplomata esperava um “aparato bastante maior”. No entanto, Barroco observa que esta geração é “mais aberta”; algumas até questionaram se poderiam praticar desportos, e uma delas chegou a manifestar interesse em inscrever-se em aulas de kizomba. 

“A diferença é que em Portugal somos livres; tenho o direito à educação e de vestir o que quiser”, afirma Hamida. A jovem de 20 anos recorda que, no passado, foi proibida pelo Ministério da Propagação da Virtude e da Prevenção do Vício de frequentar as aulas por usar calças de ganga e não estar completamente coberta. Agora, em Portugal, a jovem estuda engenharia informática, sem se preocupar com a roupa que veste.

Mulheres afegãs a estudar (FOTO: Getty Images)

Outra diferença cultural destacada por Leila, uma jovem refugiada de 25 anos que está em Lisboa a estudar relações internacionais, é o comportamento dos portugueses. Observa que as pessoas são mais frias e, por vezes, sente-se até envergonhada de pedir direções na rua.

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"A educação é chave"

Extremamente agradecidas pela oportunidade que receberam, as jovens não deixam de pensar na situação de milhares de outras raparigas que não tiveram a mesma sorte. “Há muitas raparigas inteligentes no Afeganistão que não puderam continuar a estudar”, nota Sajida, de 22 anos, que está a entrar no segundo ano do curso de engenharia das energias renováveis. 

Mantendo contacto com aqueles que lhe são mais próximos, Mahjan faz um apelo para que Portugal “continue a abrir portas para que as raparigas afegãs possam estudar”. 

Com um pé em Portugal e outro no Afeganistão, as 16 jovens ainda estão a habituar-se à realidade de serem refugiadas e à necessidade de mudar de país para poderem prosseguir os seus estudos. Latifa, que veio realizar um MBA, defende que a educação é “um direito fundamental” que deve ser concedido a todas as mulheres, para evitar que “os dias negros que se viveram há 20 anos no Afeganistão retornem”. “A educação é a chave para superar essas barreiras. Sem educação, muitas regras serão manipuladas”, termina. 

A Nexus 3.0 está a preparar-se para receber mais 16 jovens afegãs este ano, aproveitando a lista do ano passado e algumas candidaturas espontâneas.

Nota: Duas das jovens afegãs não quiseram ser fotografadas. 

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