Ensino superior compensa — mas não para todos
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Vale a pena tirar um curso superior em Portugal? Os números dizem que sim, mas há diferenças que continuam a pesar
Portugal mudou profundamente nas últimas décadas. Em apenas 25 anos, a percentagem de jovens adultos com ensino superior quadruplicou, passando de 11% no final dos anos 90 para 43% em 2024. O país aproximou-se finalmente da média europeia, mas a pergunta continua a surgir entre estudantes e famílias: investir no ensino superior ainda compensa?
Os dados mais recentes deixam poucas dúvidas. Quem conclui uma licenciatura ou um mestrado continua a ter mais facilidade em encontrar emprego, ganha salários significativamente mais elevados e apresenta maior estabilidade profissional. Ainda assim, o retrato está longe de ser uniforme. As diferenças entre áreas de estudo, percursos educativos e contexto socioeconómico continuam a marcar profundamente o futuro profissional de milhares de jovens.
Estas conclusões fazem parte do estudo “Ensino Superior e Emprego Jovem em Portugal: Tendências, resultados e comparações internacionais”, desenvolvido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e assinado por Luís Catela Nunes, Pedro Reis e Teresa Thomas.
Os diplomados com mestrado lideram claramente nos indicadores de emprego. Entre um e dois anos após terminarem os estudos, cerca de 88% já estão empregados. Cinco anos depois, a taxa sobe para 93%. Também os licenciados apresentam níveis elevados de empregabilidade, embora a entrada no mercado de trabalho seja mais lenta. Portugal destaca-se ainda pelas baixas taxas de inatividade entre jovens qualificados. Em 2023, apenas 5,7% das pessoas entre os 25 e os 34 anos com ensino superior estavam fora do emprego e da educação, muito abaixo da média da OCDE.
Mas é nos salários que o impacto do ensino superior se torna mais evidente. Em média, os licenciados ganham mais 28% do que trabalhadores com apenas o ensino secundário. Entre quem concluiu mestrado, a diferença sobe para 49%. E esta vantagem não desaparece com o tempo. Pelo contrário: à medida que a experiência profissional aumenta, os salários dos diplomados evoluem mais rapidamente. Na maioria, um recém-formado entra no mercado de trabalho já com remunerações superiores às de profissionais com ensino secundário e vários anos de experiência.
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O ensino profissional abre portas, mas até onde?
O ensino secundário profissional continua a garantir uma entrada mais rápida no mercado de trabalho. Cerca de 72% dos estudantes destes cursos conseguem emprego no curto prazo, acima dos 56% registados nos cursos científico-humanísticos. Contudo, a vantagem parece esgotar-se cedo. Os salários mantêm-se praticamente idênticos entre ambos os percursos e o crescimento salarial ao longo da carreira permanece reduzido quando comparado com o ensino superior. A questão torna-se especialmente relevante num país onde muitos jovens entram cedo no mercado de trabalho, mas enfrentam depois dificuldades para continuar a estudar ou requalificar-se. O relatório alerta precisamente para esse risco: sem aprendizagem contínua, a progressão salarial tende a ser limitada.
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Que cursos garantem os salários mais altos?
As maiores diferenças surgem quando se olha para as áreas de formação. As áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), continuam a dominar os salários mais elevados do mercado. As Tecnologias da Informação e Comunicação destacam-se de forma particularmente expressiva. Em 2023, profissionais com mestrado nesta área recebiam, em média, 17,5 euros por hora. Também Engenharia, Matemática, Estatística e Saúde apresentam remunerações elevadas, sobretudo ao nível do mestrado. No extremo oposto surgem áreas como Educação e Serviços Sociais, onde os salários permanecem significativamente mais baixos. Em alguns casos, um mestre nestas áreas recebe apenas metade do salário de um profissional com mestrado em Tecnologias da Informação.
Ainda assim, o diploma deixou de ser garantia automática de sucesso financeiro. Mesmo dentro da mesma área de estudo, as diferenças podem ser enormes. As diferenças entre instituições, a reputação dos cursos, as competências individuais, a capacidade de adaptação ao mercado e até o acesso a empresas mais competitivas ajudam a explicar porque é que dois profissionais com qualificações semelhantes podem ter percursos tão diferentes.
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Custos baixos, mas ainda demasiado pesados para muitas famílias
Portugal apresenta uma realidade paradoxal. Os custos absolutos do ensino superior estão entre os mais baixos da OCDE, mas continuam a representar um esforço significativo para muitas famílias portuguesas. As propinas, materiais e restantes despesas associadas aos estudos equivalem a cerca de 26% do PIB per capita, um valor elevado quando comparado com grande parte da Europa. Ou seja, embora estudar em Portugal seja relativamente barato em termos absolutos, o peso financeiro continua a ser elevado face aos rendimentos médios nacionais. Por isso, o relatório insiste na necessidade de reforçar bolsas de estudo e apoios sociais. A conclusão é clara: apesar de o ensino superior gerar elevados retornos salariais ao longo da vida, os custos iniciais continuam a afastar muitos estudantes.
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Porque continuam os estudantes a escolher quase às cegas?
Uma das críticas mais fortes do estudo prende-se com a falta de transparência sobre os resultados profissionais dos cursos superiores em Portugal. Atualmente, não existe um sistema nacional que permita cruzar dados sobre instituições, cursos, empregabilidade, salários e percursos profissionais dos diplomados. Na prática, milhares de estudantes continuam a tomar decisões com informação incompleta, num contexto em que as diferenças salariais entre áreas e instituições podem ser muito significativas.
Os autores defendem, por isso, a criação urgente de uma base de dados integrada entre educação e mercado de trabalho, capaz de acompanhar o percurso dos diplomados e disponibilizar informação mais clara e acessível. Porque, apesar de todas as desigualdades e desafios identificados, uma conclusão permanece evidente: em Portugal, o ensino superior continua a ser um dos investimentos com maior retorno económico e profissional.