Economia em foco: lições do passado e caminhos para o futuro
A realidade económica de Portugal tem sido marcada por ciclos de crescimento e crise, desafios estruturais e oportunidades de inovação. Apesar dos avanços significativos em vários setores, persistem obstáculos importantes, como a baixa produtividade, que continua a limitar o potencial económico do país.
De facto, quando analisamos a produtividade, medida de forma simples como o Produto Interno Bruto (PIB) gerado por hora trabalhada, Portugal apresenta níveis relativamente baixos no contexto europeu e, de forma geral, entre as economias desenvolvidas. Historicamente, o país tem ocupado posições inferiores no ranking da produtividade na Europa dos 15 (EU15), grupo das economias mais avançadas da União Europeia.
01
Portugal na cauda da Europa em produtividade
Desde pelo menos os anos 1970, Portugal e a Grécia têm sido os dois países menos produtivos desse grupo, com Portugal a gerar apenas 66% da riqueza média da EU15 por hora trabalhada, e a Grécia, 52%. No extremo oposto, a liderar em valores de produtividade, estão países como o Luxemburgo, acompanhado da Bélgica, e mais recentemente, da Irlanda.
No âmbito da Europa dos 27 (EU27), em 1995, Portugal era o 16.º mais produtivo da UE27, e hoje ocupa o 19.º lugar. Embora a produtividade nacional tenha aumentado, países como a Chéquia, a Roménia e a Eslováquia registaram avanços muito mais significativos, ultrapassando Portugal na criação de riqueza por hora trabalhada.
02
As raízes do problema: má alocação de recursos e concorrência limitada
E qual é a origem deste cenário? Uma das explicações para o declínio da produtividade é a má alocação de recursos nas décadas de 1990 e 2000. Durante esse período, o quadro de incentivos, tanto públicos quanto privados, canalizou os recursos disponíveis no país (como crédito bancário, fundos europeus e mão-de-obra) para setores pouco concorrenciais e com proteção política ou bancária, como a construção civil e serviços de baixo valor acrescentado.
A falta de concorrência nesses setores permitiu o surgimento e a sobrevivência de empresas com baixa produtividade e salários modestos, muitas vezes sustentadas por crédito bancário fácil. Este ambiente inibiu o acesso de empreendedores a recursos essenciais para criar novos projetos mais produtivos, devido às barreiras à entrada e à saída. A herança deste modelo ainda pesa significativamente sobre a produtividade agregada do trabalho em Portugal, embora não seja o único fator responsável.
O resultado é que, sendo a produtividade o grande motor dos salários no longo prazo e estando Portugal integrado numa zona de livre circulação de pessoas, bens e capitais, o bem-estar das famílias portuguesas depende diretamente do quão produtivos são os seus trabalhadores face aos seus parceiros europeus. Deste modo, os recursos (trabalhadores e capital) tendem a mover-se para onde são melhor remunerados; por isso, a persistência de baixas produtividades compromete a disponibilidade de mão-de-obra e a capitalização das empresas em Portugal, no longo prazo.
03
Gestão, escala empresarial e investimento: o desafio para aumentar a produtividade
Mas como podemos dizer que Portugal não é produtivo, quando os trabalhadores portugueses são dos que mais horas trabalham na Europa? O trabalhador médio português trabalha mais 1,6 horas que a média europeia, mas, em cada hora que trabalha, gera menos riqueza (-30%) do que o trabalhador europeu típico da EU27. A verdade é que a produtividade é um conceito complexo, como explica Ricardo Reis, Professor de Economia na London School of Economics e autor do estudo “Crises na Economia Portuguesa”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos: “há um bocado a ideia de que, quando se diz que os portugueses são pouco produtivos, é porque são procrastinadores, porque são muito dados ao famoso café. E isso é e não é verdade”. O especialista explica: “por um lado, é verdade que, por trabalharmos muitas horas, leva a que não haja uma exigência para, quando estás no trabalho, fazeres mais para conseguires ir mais cedo para casa. Ainda se associa o produto da pessoa ao número de horas, em vez da qualidade dessas horas. Isso, em parte, deve-se também a deficiências graves de gestão no nosso país, dos nossos gestores”.
Para Ricardo Reis, “um bom gestor consegue organizar os seus trabalhadores, de forma que, nas sete ou oito horas que eles estão no local de trabalho, consigam produzir muito. Também contam os equipamentos que a empresa me dá, como trabalhador, e que me permitem ser mais ou menos produtivo. Todos percebemos que, com máquinas melhores, em muitas tarefas, eu consigo produzir muito mais do que com uma máquina, como um computador, lento e que não funciona. De facto, há uma grande falha em Portugal, que é a falta de empresas grandes, com uma escala grande, que possam investir nos equipamentos, muitas vezes caros, com custos fixos grandes, que permitam aos trabalhadores serem produtivos”.
Como esclarece o especialista, “nós enfatizamos muito a criação das PMEs, com o propósito das PMEs poderem crescer, tornarem-se empresas grandes, conseguirem ter investimentos maiores, venderem mais, alcançar outros mercados e, com isso, fazer estes investimentos importantes e grandes. Não só em máquinas, mas na criação de marcas, no marketing e na publicidade, que permitem a uma empresa dar um salto para um nível de maior produtividade, conseguir fazer mais com o trabalhador, ter um agente de vendas que consegue vender no mundo inteiro vários milhões, em vez de, numa pequena zona em Portugal, conseguir vender apenas alguns milhares para algumas pessoas. Portanto, a capacidade de investimento das empresas importa muito para a produtividade das empresas”.
A questão é que as empresas portuguesas têm uma grande dificuldade para atrair capital externo. “Uma empresa que cresça não pode crescer só com os lucros, para no ano seguinte investir um pouco mais e com os lucros desse ano continuar a investir. Muitas vezes, têm de recolher capitais de investidores. E única forma de recolher capitais de investidores é que os gestores não sejam ditadores omnipresentes, que ditam tudo o que se passa na empresa, mas antes que tenham capacidades de organização e de transparência, que satisfaça o investidor de que o seu dinheiro está a ser bem empregue”.
Como explica Ricardo Reis, o que acontece é que, em Portugal, “as empresas estão demasiado dependentes de capitais próprios, e isso impede-as de crescer. Quando estamos dependentes de capitais próprios, temos de ir gerindo os lucros pouco a pouco, para crescer. O que é extraordinário na economia norte-americana, e vemos isso sobretudo nas novas tecnologias, é a capacidade que uma empresa de 50 ou 100 trabalhadores, conseguir transformar-se numa empresa de 500 mil trabalhadores no espaço de seis meses, porque que teve sucesso com uma aplicação para telemóveis que se tornou popular, ou porque conseguiu inventar um software que algumas empresas acharam útil e começaram a comprar. Na Europa, e em Portugal, não é que nós não tenhamos as mesmas ideias, a mesma criatividade, mas não conseguimos crescer da mesma forma”. Já nos Estados Unidos da América (EUA), “conseguem o capital, a gestão e a organização necessária e conquistam o mundo inteiro. Na Europa ainda temos muita dificuldade para fazer o mesmo, e sobretudo em Portugal, em parte porque não temos capital, e também porque não temos capacidade de gestão para conseguir fazer crescer uma empresa de 50 trabalhadores para 5 mil, no espaço de alguns meses. Portanto, esse foco tem de estar na inovação e na melhoria da gestão”.
04
Como Resolver
05
A inovação como chave para o aumento da produtividade
Em nome da produtividade e do crescimento económico, é preciso também reduzir os custos do trabalho por hora. Como diz Ricardo Reis “em vez de fazer o mesmo corte de cabelo numa hora, ou tentar fazer dois nessa hora, podemos, em vez disso, inventar um corte de cabelo muito melhor, pelo qual o cliente está disposto a pagar quatro vezes mais, porque acrescenta quatro vezes mais valor para si. Esta segunda forma de produtividade, focada na inovação, acaba por ser uma forma duradoura de aumentar a produtividade”.
Aqui falamos, então, de qualidade em vez de quantidade. E para o especialista, “a qualidade do produto depende da qualidade das pessoas e, portanto, o aumento da produtividade também está dependente do aumento da qualidade da educação. Temos educação em muito mais quantidade do que tivemos até agora, mas temos que apostar também na qualidade. A prioridade, nos últimos anos, foi necessariamente a quantidade, ter mais pessoas a irem para a escola em Portugal e ficarem mais anos na escola. No entanto, há 15 anos, por volta de 2010, tínhamos chegado a um ponto em que todos os jovens em Portugal iam para a escola mais ou menos ao mesmo ritmo que nos outros países avançados. Nessa altura teve de haver um salto para privilegiarmos não a quantidade, mas a qualidade”.
Assim, de acordo com Ricardo Reis, é preciso haver uma mudança “na forma como organizamos o ensino, como organizamos os currículos, como tratamos os professores, como deixamos que haja uma diferenciação do ensino, permitindo que diferentes escolas sirvam diferentes interesses, diferentes públicos, alvos e prioridades. Portugal tem tido muita dificuldade em fazer esse salto”.
Por outro lado, a aposta numa imigração mais diferenciada pode vir a aumentar também a produtividade do país. Segundo Ricardo Reis, “Portugal nunca teve uma política de imigração muito cuidada. Nos últimos 15 anos, quando o envelhecimento da população começou a acelerar, pensámos que trazer imigrantes só por si era uma boa uma decisão para a nossa economia. Portugal precisa de ter uma política mais ativa de imigração, no sentido de atrair pessoas que trazem conhecimentos que não existem no nosso país e até capital de investimento. Já para não falar das tais ideias, que permitem inventar o corte de cabelo, pelo qual alguém estará disposta a pagar quatro vezes mais”.
Para Ricardo Reis, o Governo também tem um papel a desempenhar. “O setor empresarial do Estado tem um peso enorme em Portugal e, portanto, estas mudanças têm de passar por lá também. Em Portugal, quando se fala de investimento público, ou mesmo dos fundos europeus que pagam esse investimento público, falamos sempre de milhões de euros. Em vez de investir ou gastar cada vez mais, é preciso criar mecanismos de avaliação dentro do Estado que permitam aprender o que correu bem, em cada projeto, e o que correu mal. Esse processo de aprendizagem dentro do Estado, para o qual não está formatado, é muito importante”.
06
A Flórida como exemplo a seguir
Segundo o especialista, Portugal tem ainda uma oportunidade muito interessante, que é a de se tornar “a Flórida da Europa”. “Há 20 anos, dizíamos que Portugal podia ser Flórida da Europa, e fazíamos essa comparação porque é um destino agradável, com bom tempo, como é a Flórida, onde as pessoas querem passar a reforma. Nessa altura, a Flórida era vista como um Estado pacífico, não muito criativo, nem produtivo, mas que acolhia todos os reformados e a terceira idade do resto da Europa. Portugal, nos últimos 20 anos, transformou-se um pouco nessa Flórida, no lugar que os estrangeiros escolhem para a sua reforma. Mas, entretanto, a Flórida mudou: nos últimos 15 anos, foi dos Estados americanos que mais cresceu. Deixou de ser o sítio onde se reformam os ricos de Nova Iorque, para se tornar num dos Estados com maior criação de emprego, maior crescimento da população nos EUA, está a liderar até em termos de patentes e numa série de outras medidas de produtividade e de inovação”.
Assim, tal como a Flórida mudou, Ricardo Reis acredita também está na hora de Portugal mudar. “Como é que a Flórida conseguiu mudar, nestes últimos 15 anos? Fê-lo, em primeiro lugar, com políticos muito focados no negócio e em criar condições para as empresas conseguirem crescer, inovar e ganhar escala. Em segundo lugar, com investimento na qualidade da educação, levando a uma enorme diversidade na escolha da educação. Em terceiro lugar, a Flórida tem dos impostos mais baixos dos EUA: apostou em atrair talento e empresas, oferecendo uma carga fiscal muito baixa”. Este é um exemplo que, segundo o especialista, devemos considerar replicar.
Para ler mais sobre o assunto, saiba que o estudo “Crises na Economia Portuguesa”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, está disponível, para download gratuito, na página: https://ffms.pt/pt-pt/estudos/estudos/crises-na-economia-portuguesa