Catarina queria uma “experiência plena de amamentação” mas não conseguiu. “É necessária muita coragem para desistir”

Catarina queria uma “experiência plena de amamentação” mas não conseguiu. “É necessária muita coragem para desistir”

Texto Manuela Micael

Vídeo e Fotografia Sofia Marvão

Catarina Maia foi mãe há cinco meses. Achava que tinha “feito todo o trabalho de casa” antes de Francisco nascer e queria amamentar o filho enquanto ambos o desejassem. De 1 a 7 de agosto, assinala-se a Semana Mundial do Aleitamento Materno. Catarina fez tudo para amamentar o filho, mas teve de desistir

É sentada no chão da sala, com as pernas cruzadas, que Catarina Maia, 30 anos, alimenta o filho Francisco. A imagem é enternecedora. Não é a que sempre desejou, mas é enternecedora. Sempre quis ser mãe e sempre quis amamentar os filhos mas a primeira experiência foi devastadora. Pôs um ponto final na amamentação há duas semanas, depois de quatro meses e meio cheios de desafios. Francisco completou agora cinco meses e também ele já tem uma longa história para contar. Fez fisioterapia, osteopatia, cortaram-lhe o freio da língua por duas vezes, mas nada evitou o desmame.

“Tenho a certeza que não desisti mais cedo por não ter coragem para o fazer ou para optar por uma alternativa. Quando pensava em desistir, pensava também ‘eu não tenho coragem para deixar de dar de mamar’. Tinha medo de não ser capaz de lidar com a minha consciência, por achar não estar a fazer melhor para o meu bebé… Queria viver a amamentação em pleno e tinha medo de me arrepender. Tudo em mim me dizia que estava na altura de mudar de abordagem, mas não era capaz de o fazer”, conta a jovem mãe, à CNN Portugal.

Catarina Maia e o filho sofriam e a mãe pensava: "Eu não tenho coragem para deixar de dar de mamar"

Os problemas de Catarina com a amamentação de Francisco começaram ainda na maternidade. Todas as decisões foram tomadas em família e o apoio do pai do bebé, Pedro Antoninho, foi “fundamental”. Logo no primeiro dia, perceberam que a pega não era a mais adequada, porque o bebé tinha o freio da língua curto. “Estava a destruir-me os mamilos, comecei a sangrar, foi muito doloroso e começou a ser frustrante para os dois, porque ele queria comer e eu sentia dor. Quando ele se aproximava da maminha - que ao princípio é muitas vezes -, eu já entrava em pânico”, recorda.

“Nós queríamos insistir em amamentar, mas a opção que nos fez mais sentido naquele momento foi pedir leite artificial, para eu descansar os mamilos. E logo aí o plano foi completamente diferente do que eu estava à espera.”

Ao freio curto, juntou-se o refluxo que fazia com que Francisco sentisse dor e tivesse dificuldade em alimentar-se. Catarina recorda que o filho “cuspia tudo o que mamava e chorava de dor constantemente”. Não havia um minuto que estivesse acordado em que Francisco não chorasse. A determinada altura, “já não comia nada”. “Nem no biberão”. Não tardou muito a aparecer o grande sinal de alarme: Francisco começou a perder peso.

Perante este cenário, várias tentativas foram feitas: Francisco foi alimentado com leite espessado próprio para bebés com refluxo, com leite materno com espessante no biberão, sempre alternando com a amamentação. “Estive sempre a dar-lhe biberão a achar que era uma medida temporária até conseguir amamentar, e isso nunca aconteceu. Dei sempre uma combinação de biberão e maminha”, conta Catarina.

Mais uma vez, nesta fase, o papel do pai foi de extrema importância, quer do ponto de vista prático, quer no aspeto emocional. Assim assegura Catarina, enquanto Pedro prepara novo biberão para alimentar Francisco antes da próxima sesta.

Pedro prepara um biberão como se fosse uma receita digna de estrela Michelin

O caminho foi difícil e as mamadas cada vez mais raras e menos saciantes para o bebé. Como a estimulação era pouca, o leite começou a escassear: “Aos poucos fui deixando de produzir e, quando dei por mim, já não estava a produzir nada. Foi uma decisão que eu tomei, ao mesmo tempo que foi acontecendo.”

Há sempre uma certa melancolia: “Eu achava que ia amamentar o Francisco até sei lá quando. Achava que ia ser aquela mãe que usa e abusa do poder da maminha. Sinto um bocadinho de tristeza por não ter podido curtir esse momento. Eu sentia uma ligação emocional muito forte com a amamentação. Fiquei com pena de não ter podido explorar mais esse caminho”. Mas Catarina sente-se em paz com a decisão de abandonar a amamentação e confessa que sente até “algum alívio”. “Acho que fiz tudo o que estava ao meu alcance para conseguir amamentá-lo e não era para nós. Não funcionou. Sentir que foi depois de ter tentado tudo deixa-me mais em paz”, sublinha.

Uma decisão difícil

Os desafios enfrentados por Catarina, Francisco e Pedro são, na verdade, muito comuns entre famílias que procuram amamentar os seus bebés. A enfermeira obstetra Mónica Pinho, do Hospital dos Lusíadas, que presta também apoio às parturientes durante o processo de amamentação, sublinha que o freio curto pode, de facto, ser um obstáculo difícil de ultrapassar, provocando maceração dos mamilos e até mastites, por má drenagem do leite. “O bebé, para mamar, precisa fazer o movimento de protusão da língua (mandar a língua para fora). Se o freio for realmente curto e não for elástico, pode realmente ter de ser cortado, mas, hoje em dia, não há indicação para cortar todos os freios curtos, porque não deixa de ser uma técnica invasiva e há sempre risco de hemorragia para o bebé”, explica.

O refluxo que ditou o fim da viagem de Catarina e Francisco pelo caminho da amamentação é outro grande entrave em muitos casos. É muito mais do que o simples bolsar que afeta a maior parte dos bebés por causa da imaturidade do sistema digestivo e da válvula que separa o estômago do esófago. “Um bebé com refluxo esvazia todo o conteúdo gástrico, chora muito, não aumenta de peso e tem poucas micções e dejeções”, diz a enfermeira.

O refluxo pode dever-se a uma contratura muscular a nível dos músculos ou ossos da face e do pescoço, muitas vezes relacionadas com posições do bebé durante a gravidez ou traumas do parto. Muitos destes problemas podem ser resolvidos com apoio de osteopatia infantil. “É importante procurar apoio especializado. Existem em Portugal muitos consultores ou conselheiros da amamentação. Alguns já disponíveis em hospitais públicos e centros de saúde”, acrescenta Mónica Pinho.

Mas os maiores obstáculos que as mães enfrentam são, garante a enfermeira, de cariz cultural ou social. E prendem-se sobretudo com as expectativas criadas em relação ao pós-parto. Não é o período romântico descrito por muitas mulheres e a importância do outro elemento do casal ou da família é fundamental. “No pós-parto, a mulher deve estar focada no bebé e não a limpar a casa, a cozinhar ou a receber visitas”, alerta a especialista.

Além disso, enumera ainda a enfermeira Mónica, “estamos muito formatados para medir minutos, mililitros e a amamentação não tem régua”. “A amamentação é preconizada para ser em livre demanda e sem tempo limitado e quantidade específica”, resume.

A pediatra Graça Gonçalves sublinha que, que a amamentação é uma via com dois sentidos e é “a melhor coisa, enquanto é prazerosa para mãe e filho”. Quando há necessidade de desmame, por problemas semelhantes aos que enfrentou Catarina, por exemplo, é importante que “seja indolor para a criança” e que a mãe não se sinta sozinha. “É preciso que esta mulher seja muito bem acompanhada, para que não fique com qualquer culpa, tão inimiga das mães. Esta mulher fez tudo o que está ao seu alcance para amamentar o seu filho e não conseguiu. É preciso apoiá-la”, defende.

Segundo ato

Catarina foca-se agora nas vantagens de alimentar o filho a biberão. Sobretudo na liberdade e na tranquilidade que isso lhe traz. Agora, conta, já não passa “o tempo todo que ele está acordado em stress porque ele precisa de ser alimentado e a passar fome”.

Catarina percebeu que dar biberão também tem as suas vantagens

O pai de Francisco, Pedro, que sempre teve um papel fundamental na alimentação do bebé, mesmo quando este mamava, prepara agora um biberão como quem prepara uma receita digna de estrela Michelin.

Enquanto isso, Catarina “namora” o filho e brinca tranquilamente. As gargalhadas do bebé ecoam pela sala. Não restam dúvidas de que a felicidade mora aqui.

E se houver um segundo ato na história de Catarina? “Penso muito nisso: se eu tiver outro filho, será que vou decidir não amamentar logo de início, por causa de tudo o que passei? Às vezes dá-me vontade disso. Mas, se tiver outro filho, vou querer amamentar também. Todas as experiências são diferentes. Levo muita aprendizagem. Gostava de ter uma experiência plena de amamentação e espero um dia poder tê-la.”


Nestas páginas pode saber mais ou procurar ajuda sobre a amamentação:

SOS Amamentação
Rede Amamenta
Associação Portuguesa dos Consultores de Lactação Certificados
La Leche League
E-Lactancia