Hoje, um diagnóstico de cancro não é necessariamente uma sentença definitiva. Mas a notícia continua a despertar inúmeros medos e incertezas. Afinal, o cancro pode impactar profundamente várias áreas da vida, como a autoestima, a sexualidade ou a carreira profissional – e ninguém nos prepara para o que nos faz sentir. Na nova temporada das “Pfizer Talks”, com o título “Cancro sem mitos”, especialistas em oncologia são convidados a abordar estas questões e a esclarecer as dúvidas mais frequentes sobre o cancro. Descubra os temas debatidos em cada episódio e as principais mensagens a reter.
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“Descomplicar o Cancro”, com o Prof. Dr Luís Passos Coelho
O primeiro convidado da série “Cancro sem mitos” é o Prof. Dr. Luís Passos Coelho, Presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia e diretor do Departamento de Oncologia do Hospital da Luz. Com o título “Descomplicar o Cancro”, a conversa com o Prof. Dr. Luís Passos Coelho centrou-se nos principais mitos sobre o cancro. O especialista esclareceu que a doença já não é uma sentença de morte, pois os avanços científicos e farmacêuticos têm melhorado significativamente os tratamentos. “O cancro já não é uma doença com alta probabilidade de ser fatal. Felizmente, cada ano que passa é menos assim, pois sabemos mais sobre os fatores de risco do cancro e como é que se desenvolve”.
De acordo com o Prof. Dr. Luís Passos Coelho, há cada vez mais tratamentos eficazes disponíveis. “É muito menos frequente, hoje em dia, um fármaco se revelar menos eficaz que o modelo anterior, e isso tem um resultado incrível no tratamento do cancro”.
Por outro lado, existem hoje terapêuticas muito promissoras, como a imunoterapia. Para o Prof. Dr. Luís Passos Coelho, a imunoterapia revolucionou a oncologia, pois permite que o próprio sistema imunitário combata as células tumorais. O especialista também destacou a relevante descoberta do uso de anticorpos com fármacos e radioisótopos, que aumentam a eficácia dos tratamentos, e a importância da genética na personalização da medicina oncológica.
Durante a conversa, o especialista lembrou ainda medidas preventivas essenciais, como a cessação do tabagismo, a redução da obesidade, a vacinação contra o HPV e hepatite B e a participação em rastreios para a deteção precoce do cancro. O Prof. Dr. Luís Passos Coelho reforça que o objetivo futuro é transformar o cancro numa doença crónica tratável, como a diabetes, e deixa uma mensagem de esperança sobre o contínuo progresso da oncologia.
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“Partilhar a notícia: falar com os seus sobre o cancro”, com a Prof. Dra. Luzia Travado
O segundo episódio desta edição das “Pfizer Talks”, intitulado “Partilhar a notícia: falar com os seus sobre o cancro”, foi dedicado ao impacto emocional da doença e os desafios de comunicar o diagnóstico a familiares e amigos. Para aprofundar este tema, foi convidada a Prof. Dra. Luzia Travado, Psicóloga Clínica, Especialista e Responsável pela consulta de Psico-Oncologia da Fundação Champalimaud, e Presidente Emérita da Sociedade Internacional de Psico-Oncologia.
A Prof. Dra. Luzia Travado explica que essa partilha é difícil, pois o doente está no momento a viver um turbilhão de emoções, como choque e medo. No entanto, comunicar a notícia ao seu núcleo mais próximo é essencial, para que possa sentir-se apoiado emocionalmente. “É sempre difícil porque a pessoa entrou num processo de sofrimento, numa situação que muitas vezes é de choque, ou crise emocional, pois o diagnóstico de cancro vai interromper o curso da vida normal da pessoa. O cancro tem muito má reputação e, portanto, a pessoa sofre não só pelo seu diagnóstico, mas por tudo aquilo que já ouviu acerca de cancro. Por isso, comunicar a pessoas queridas algo que eles sabem o que provoca, é difícil para quem também recebe esse diagnóstico. No entanto, é fundamental que o faça para o seu núcleo mais estrito, numa primeira fase, porque são as pessoas que vão dar conta que há uma alteração. Ninguém consegue esconder na perfeição, nem deve, as emoções que toda esta situação provoca e, portanto, a partilha é importante para não se criar um problema maior. Por exemplo, no caso dos filhos, as crianças ou adolescentes vão notar que se passa alguma coisa”.
Para a especialista, cada doente deve encontrar o momento certo para falar sobre a sua condição, geralmente após processar a informação, e também criar uma narrativa de esperança. O isolamento pode levar a maior sofrimento psicológico, incluindo depressão. A partilha permite que a família e amigos ofereçam suporte prático e emocional, reduzindo a carga do doente e promovendo um ambiente de solidariedade.
A Prof. Dra. Luzia Travado também salientou que não há um modelo único para comunicar a doença, e cada pessoa deve adaptar a conversa conforme a relação que tem com os outros. As reações emocionais são naturais, e o choro ou a demonstração de fragilidade não devem ser vistos como fraqueza.
Quanto ao acesso a um psicólogo durante o tratamento de cancro, a especialista explicou que é essencial, mas ainda é escasso no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Embora esta seja uma necessidade reconhecida em políticas de saúde recentes, há falta de profissionais disponíveis para acompanhar os doentes e seus familiares ao longo do tratamento e da recuperação. Seria desejável que todos os doentes pudessem ter acesso a uma consulta de Psico-Oncologia, a área de que a Prof. Dra. Luzia Travado é responsável na Fundação Champalimaud, pois ajuda os doentes a gerir as suas emoções e a focar-se no tratamento, combatendo estigmas e promovendo uma atitude mais positiva.
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“Como é que o cancro pode interferir na sexualidade?”, com a Dra. Lúcia Monteiro
Existem vários temas “tabu” no cancro – e um deles é, sem dúvida, a sexualidade. Este é o tema em destaque no terceiro episódio, para o qual foi convidada a Dra. Lúcia Monteiro, médica especialista em Psiquiatria e Saúde Mental, Diretora do Serviço de Psiquiatria e Clínica de Sexologia do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO). Com o título “Como é que o cancro pode interferir na sexualidade”, nesta conversa a Dra. Lúcia Monteiro explica que qualquer diagnóstico de cancro pode afetar negativamente a sexualidade, devido a preocupações com a sobrevivência, dor e mutilação.
Porém, esse impacto pode variar conforme o tipo de tratamento:
• Cirurgia: Pode resultar em dor, cicatrizes e alterações na autoimagem, sobretudo em casos como o cancro da mama.
• Quimioterapia: Causa fadiga, náusea e imunossupressão, além da necessidade de precauções como o uso de preservativo para evitar infeções e gravidez.
• Radioterapia: Pode provocar secura vaginal e disfunção erétil devido a danos nos tecidos e nervos. Estenose vaginal e infertilidade masculina são consequências comuns.
• Hormonoterapia: Afeta a libido e a resposta sexual, provocando secura vaginal nas mulheres e disfunção erétil e perda de desejo nos homens.
Além dos tratamentos tradicionais, as novas terapias (imunoterapia, terapias-alvo) ainda não têm estudos conclusivos, mas também parecem impactar a sexualidade.
Embora a vida sexual possa ser desafiadora durante um tratamento oncológico, não há impedimentos para que o casal mantenha a sua intimidade. Na verdade, sexualidade e intimidade são conceitos distintos, uma diferença que a Dra. Lúcia Monteiro faz questão de sublinhar. A intimidade pode ser mantida através de carinho, cumplicidade e diálogo, mesmo quando a relação sexual é afetada. “A intimidade tem a ver com a qualidade da relação amorosa no casal, portanto implica uma componente mais psicológica e relacional da sexualidade. Estamos a falar de solidariedade, cumplicidade, ternura, empatia. E essa não tem de ser afetada – pelo contrário, muitas vezes é reforçada perante uma adversidade tão grande, que os dois têm que ultrapassar em conjunto. As pessoas podem não ter uma relação sexual semanal ou quinzenal, mas devem continuar a dormir juntos, abraçados e seguros um do outro. A sexualidade também passa por esta esta proximidade, partilha de afetos e carícias. Nós dizemos muito aos casais que pode não haver uma relação sexual, mas pode haver um beijo, um passeio de mãos dadas, uma ida ao cinema juntos e um jantar mais romântico”.
Após o tratamento oncológico, muitos casais enfrentam desafios na retoma da vida sexual, frequentemente devido a inseguranças, medos e falta de comunicação. Nesses casos, a Dra. Lúcia Monteiro destaca a importância do diálogo, tanto entre o casal como com os profissionais de saúde, na consulta de OncoSexologia. O objetivo não é apenas acolher o doente e compreender as suas dificuldades, mas também trabalhar em conjunto com o seu parceiro para melhorar a vida sexual de ambos.
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“Como voltar ao trabalho: a proteção e os direitos do doente oncológico”, com a Dra. Andreia da Costa Andrade
Voltar ao trabalho após um tratamento oncológico pode ser um grande desafio. Muitas vezes, por desconhecimento tanto da empresa quanto do trabalhador, as proteções legais a que o doente oncológico tem direito não são devidamente acionadas. No quarto episódio desta temporada das Pfizer Talks, intitulado “Como voltar ao trabalho: a proteção e os direitos do doente oncológico”, a Dra. Andreia da Costa Andrade, jurista do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), esclarece quais são esses direitos e sugere estratégias para uma reentrada no mundo do trabalho mais equilibrada e sustentável.
De acordo com a jurista, os trabalhadores oncológicos têm direitos específicos que visam garantir a sua igualdade e proteção no ambiente profissional. No que diz respeito aos direitos laborais, têm acesso ao emprego, formação profissional, promoção, subsídios e regalias em condições iguais às dos restantes trabalhadores. A legislação também assegura proteção contra a discriminação, garantindo que não sejam prejudicados devido à sua condição de saúde.
Além disso, existem apoios sociais disponíveis, como o subsídio de doença para trabalhadores dependentes, que pode ser concedido por um período máximo de três anos, sujeito a reavaliações regulares. No momento do regresso ao trabalho, a Medicina do Trabalho avalia a aptidão do trabalhador e pode recomendar adaptações, como restrição ao levantamento de pesos ou ajustes ergonómicos no posto de trabalho.
A legislação também prevê medidas de flexibilização e condições especiais de trabalho, incluindo isenção de horários noturnos e de trabalho por turnos entre as 20h e as 7h, dispensa de regimes de adaptabilidade e de horas extras, e a possibilidade de horários concentrados para melhor gestão do tempo.
Para os pais de crianças com doença oncológica, há direitos específicos, como a possibilidade de teletrabalho, sempre que a função o permita, e uma licença subsidiada para assistência à criança. Inicialmente, esta licença pode durar seis meses, podendo ser estendida até quatro ou seis anos, dependendo da evolução da doença.
No entanto, muitas empresas ainda desconhecem estas normas legais, o que pode dificultar a reintegração dos trabalhadores. Embora o desconhecimento possa, por vezes, ser confundido com discriminação, na maioria dos casos, quando devidamente informadas, as entidades patronais cumprem a legislação. Assim, a Dra. Andreia da Costa Andrade recomenda um diálogo constante entre trabalhador e empregador para facilitar o processo. “O desconhecimento da lei acaba por originar situações de não aplicação dos direitos. Cria-se um sentimento de estar a abrir um precedente e acabam por não aplicar. Ainda assim, na maior parte das vezes, as situações em que a LPCC esclarece, as entidades patronais têm tendência a ceder e a perceber, na verdade, do que se trata. Não se trata de uma situação de privilégio ou de discriminação em relação aos outros: é, na verdade, uma situação de discriminação positiva, aplicando assim o princípio da igualdade, que prevê precisamente isto, a igualdade material entre todos nós, nomeadamente também entre os trabalhadores”.
Além destes direitos, existem apoios adicionais e aspetos da legislação que, segundo a jurista, ainda podem ser melhorados. O Atestado Médico de Incapacidade Multiuso, com uma taxa igual ou superior a 60%, garante benefícios fiscais e sociais, como deduções no IRS e acesso à Prestação Social para a Inclusão. No entanto, um dos aspetos que poderia ser revisto na legislação é a manutenção integral do rendimento durante o período de incapacidade temporária.
Para obter mais informações e apoio jurídico, os trabalhadores podem recorrer à Liga Portuguesa Contra o Cancro, à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) para denúncias de incumprimento, ao Ministério Público e Tribunal do Trabalho para casos de discriminação grave, e à Segurança Social para solicitar apoio judiciário gratuito.
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“Cuidar de si: autoestima e bem-estar durante o cancro”, com Miriam Brice
No último episódio da série “Cancro sem mitos”, das Pfizer Talks, o tema central foi a autoestima e a importância de cuidar de si durante o tratamento. O cancro é uma doença com um profundo impacto físico e psicológico, podendo provocar perda de cabelo, mudanças corporais e fadiga, o que pode alterar a perceção de si mesmo e comprometer o estado de espírito. Miriam Brice, presidente da Associação Careca Power, é a convidada nesta conversa, com o título “Cuidar de si: autoestima e bem-estar durante o cancro”.
Para Miriam Brice, o amor próprio é essencial: a presidente da Associação Careca Power defende que autoaceitação deve começar antes do diagnóstico oncológico e refere que quem tem menos apego à aparência enfrenta melhor essas mudanças. “Costumo dizer que na oncologia temos mutilações e envenenamentos. Ou seja, a mutilação é uma consequência de uma cirurgia, que normalmente é o primeiro passo para resolver, se calhar, 90% dos problemas oncológicos que têm uma manifestação tumoral. Portanto, muitas vezes passa pela retirada da massa e isso obriga necessariamente a uma readaptação da forma de ver a nossa imagem. É claro que lidar com isto é muito importante. É um trabalho que deve ser feito antes mesmo de se ter cancro. Ou seja, as pessoas têm que, em geral, olhar para a imagem como uma das nossas componentes. Assumir quem são, como são e dar valor àquilo que têm lá dentro. Isto parece um cliché, mas não é. Porque, na realidade, o que eu vejo, enquanto Presidente desta Associação, enquanto representante e também ombro amigo de muitas doentes, é que, na realidade, as pessoas que eram mais desapegadas da sua imagem, são aquelas que, na realidade, depois passam melhor estes efeitos, porque se adaptam mais rapidamente”.
Porém, Miriam Brice sabe que as alterações provocadas por um tratamento oncológico podem sempre causar sofrimento, pelo que a Associação Careca Power desenvolve iniciativas para fortalecer a autoestima das doentes, como workshops de maquilhagem e sessões fotográficas, que promovem a valorização da imagem pessoal. Estas são atividades com grande adesão e que se têm mostrado positivas para ajudar a resgatar a autoconfiança.
Durante a conversa, Miriam Brice destacou também a importância do exercício físico na recuperação, apesar dos desafios impostos pela doença. Embora exista resistência por parte da comunidade médica e dos próprios doentes, Miriam Brice defende que há evidências científicas claras sobre os benefícios do movimento na qualidade de vida e no sucesso dos tratamentos.
Por fim, a Presidente da Associação Careca Power deixou uma mensagem de força e esperança: acreditar sempre, tanto no tratamento quanto na própria capacidade de superação. “Só morremos um dia, em todos os outros, vivemos”.
Numa temporada intitulada “Cancro sem mitos”, não restam dúvidas de que, ao longo de cinco episódios, o cancro foi abordado sem tabus, esclarecendo algumas das questões mais frequentes sobre a doença e os receios que surgem com o diagnóstico. Desde como manter a autoestima e a sexualidade durante o tratamento até às proteções legais para o regresso ao trabalho, as “Pfizer Talks” reforçaram a sua missão enquanto projeto de literacia em saúde, oferecendo informação essencial — um aliado fundamental para enfrentar o desafio de viver com cancro.
Assista às Pfizer Talks completas no YouTube da Pfizer Portugal, em: https://www.youtube.com/@pfizerportugal4762.