"Aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher": o ano da vida de José Saramago
José Saramago. 23 setembro 1996. Foto: Rita Barros/Getty Images

"Aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher": o ano da vida de José Saramago

Texto Sofia Santana

Fotografia de capa Rita Barros/Getty Images

Mais do que um romancista, José Saramago era um "pensador das grandes questões sociais" e um "levantador de perguntas". Até podia escrever sobre o que o rodeava com desencanto e um olhar cáustico, mas toda a sua obra é "uma proposta de uma saída daqui" e uma "meditação sobre um mundo melhor". Se por um lado procurava inquietar o leitor, por outro guiava-o por caminhos de esperança, de mãos dadas com personagens inspiradoras numa busca pela redenção. Dono de uma voz narrativa singular, é, afinal, "dos escritores mais fáceis de ler". José Saramago, o único Prémio Nobel da Literatura em língua portuguesa, nasceu há precisamente 100 anos

Eram as primeiras palavras aos jornalistas, no rescaldo do anúncio que o confirmava como vencedor do Prémio Nobel da Literatura, em 1998, e José Saramago sublinhava a expectativa de que a distinção pudesse representar alguma esperança para a língua portuguesa. O escritor, que não se coibia de afirmar que o Português era diariamente maltratado - nas suas palavras "atropelado mortalmente" até -, elevava a língua portuguesa à língua "mais formosa do mundo", considerando-a um bem precioso que tinha de ser protegido. Na conferência de imprensa que deu em Frankfurt, essa preocupação foi demonstrada assim: "O prémio não salvará a Língua Portuguesa dos perigos em que ela se encontra, mas o prémio pode despertar, não só no interior do meu próprio país e dos países de língua portuguesa, mais do que uma curiosidade, um interesse no sentido de defesa dessa língua".

Ora, o escritor Valter Hugo Mãe não tem dúvidas de que o prémio trouxe uma "mais-valia à literatura em língua portuguesa, não só aos portugueses mas a todos os autores que escrevem em língua portuguesa". "E desde logo a minha geração, como geração que estava a aparecer ou que estava a criar mais entusiasmo por ser nova, por ser a geração do momento, talvez seja a geração que mais tenha ganho. Porque subitamente as editoras, um pouco por toda a parte no mundo, quiseram saber mais sobre Portugal e acabaram por encontrar tradutores portugueses, porque era preciso haver tradutores para o Saramago, e esses tradutores, estando mapeados, subitamente acabaram por levar à estante em muitos países e em muitas línguas outros livros e outros autores."

José Saramago após receber o Prémio Nobel da Literatura, entregue pelo rei Carlos XVI Gustavo da Suécia, no dia 10 de dezembro de 1998. Foto: Jan Collsioo/AFP via via Getty Images

Por sua vez, o escritor João Tordo responde que "na altura, o Nobel foi muito importante" e explica porquê: "Estávamos em 1998 e Portugal era o país convidado na Feira de Frankfurt. Havia uma abertura maior à literatura portuguesa e Saramago ajudou a contribuir para esse processo. Abriu uma série de portas para os editores estrangeiros prestarem mais atenção à literatura portuguesa e teve o impacto de ser o único Nobel de língua portuguesa". Mas, "com o tempo", algumas dessas portas "ficaram abertas e outras foram-se fechando". "Não há como escamotear que a literatura portuguesa, fora algumas raríssimas exceções, é muito pouco reconhecida no estrangeiro."

A decisão da Academia Sueca foi justificada, por um lado, pela distinção da Língua Portuguesa e, por outro, de um escritor "que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia, torna constantemente compreensível uma realidade fugidia". Mas o que torna a escrita de Saramago um nome maior da literatura?

Às vezes pergunto-me se a primeira culpa do desastre a que este planeta chegou não terá sido nossa, disse, Nossa, de quem, minha, sua, perguntou Tertuliano Máximo Afonso, fazendo-se interessado, mas confiando que a conversa, mesmo com um início tão afastado das suas preocupações, acabasse por levá-los ao âmago do caso, Imagine um cesto de laranjas, disse o outro, imagine que uma delas, lá no fundo, começa a apodrecer, imagine que, uma após outra, vão todas apodrecendo, quem é que poderá, nessa altura, pergunto eu, dizer onde a podridão principiou, Essas laranjas a que está a referir-se são países, ou são pessoas, quis saber Tertuliano Máximo Afonso, Dentro de um país, são as pessoas, no mundo são os países, e como não há países sem pessoas, por elas é que o apodrecimento começa, inevitavelmente, E por que teríamos tido de ser nós, eu, você, os culpados, Alguém foi, Observo-lhe que não está a tomar em consideração o fator sociedade, A sociedade, meu querido amigo, tal como a humanidade, é uma abstracção, Como a matemática, Muito mais do que a matemática, ao pé delas a matemática é tão concreta como a madeira desta mesa.“

Excerto de "O Homem Duplicado", publicado em 2002 pela Caminho

03
"Dos escritores mais fáceis de se ler"

A voz original de Saramago é uma das características sublinhadas por João Tordo, que nota na obra do Nobel "a capacidade de contar histórias muito poderosas do ponto de vista emocional" e, ao mesmo tempo, fazê-lo com uma voz "que é só dele". "É o objetivo de qualquer escritor", afirma o vencedor da sexta edição do Prémio José Saramago, em 2009. "O objetivo de qualquer escritor é chegar a um momento em que um leitor entra numa livraria e, mesmo sem ver o título ou o nome do autor na página, consegue ver quem é. Basta ler um parágrafo."

Mas esta voz ou este estilo singular de Saramago, que procura reproduzir nos livros aquilo que é a oralidade, é muitas vezes o motivo pelo qual os leitores consideram a sua escrita mais difícil. Para João Tordo, esta ideia é nada mais do que "um preconceito" e nasce de "alguma resistência a uma forma diferente" de escrever. "Acho que as pessoas que nunca leram Saramago é que dão essas opiniões. Porque quando se lê, quando se perde meia hora a tentar decifrar onde é que Saramago está a tentar chegar com aquela linguagem, aquilo torna-se tão simples como o discurso oral", reitera.

O escritor de "As Três Vidas" e "Águas Passadas" compara a imersão na linguagem saramaguiana ao exercício de decifrar uma simples equação: "A partir do momento em que se percebe pensa-se 'ah, isto afinal era muito simples'. Aquilo lê-se como um discurso falado. Uma pessoa aceita as regras e torna-se muito simples de ler". João Tordo vai mais longe: "Eu acho que Saramago, quando se descodifica essa dificuldade inicial, torna-se dos escritores mais fáceis de se ler da literatura portuguesa".

Saramago e, ao fundo, a mulher, Pilar del Rio, em Lecce, Itália. Foto: Leonardo Cendamo/Getty Images

"Acho que conseguiu uma junção muito improvável entre arte e técnica. Tem uma linguagem muito própria e muito inovadora mas ao mesmo tempo é um escritor cuja narrativa nunca é esquecida - as histórias dele são fortíssimas, as personagens são muito impactantes - e essa junção não é nada fácil", diz João Tordo. Isso confere-lhe universalidade, acrescenta: "Por isso é que acho que Saramago tem um pendor universal, não é um escritor só português, é um escritor que conseguiu muitas vezes aquilo que o criador português ambiciona mas não tem capacidade de fazer ou não tem recursos para fazer".

Para Valter Hugo Mãe, que venceu o Prémio José Saramago com "O Remorso de Baltazar Serapião", em 2007, o primeiro traço da escrita saramaguiana passa precisamente "pela universalidade". "Saramago conseguiu, na sua natureza, falar das coisas ínfimas e das pequenas terras do seu país mas levantar todas as questões à universalidade da Humanidade. E, por isso, é a primeira coisa e talvez o traço fundamental para justificar a sua aceitação, a sua importância", refere. "Acho que o Nobel escolheu o Saramago muito por aí: porque o Saramago parte de Portugal mas tudo o que faz diz respeito ao mundo inteiro, diz respeito à Humanidade como um todo."

Depois há outro trunfo com bastante peso: "Mais do que ser sempre simplesmente um brilhante contador de uma história, Saramago é um brilhante levantador de perguntas. É impossível ler um livro de Saramago sem nos sentirmos convocados a uma meditação de alguma coisa", sublinha Valter Hugo Mãe.

Ah, bons dias, senhor Cipriano, disse ela, Venho cumprir o prometido, trazer-lhe o seu cântaro, Muito obrigada, mas realmente não devia estar a incomodar-se, depois do que conversámos lá no cemitério pensei que não há grande diferença entre as coisas e as pessoas, têm a sua vida, duram um tempo, e em pouco acabam, como tudo no mundo, Ainda assim, se um cântaro pode substituir outro cântaro, sem termos de pensar no caso mais do que para deitar fora os cacos do velho e encher de água o novo, o mesmo não acontece com as pessoas, é como se no nascimento de cada uma se partisse o molde de que saiu, por isso é que as pessoas não se repetem, As pessoas não saem de dentro de moldes, mas acho que percebo o que quer dizer, Foi conversa de oleiro, não ligue importância, aqui o tem, e oxalá não caia a asa a este tão cedo”

Excerto de "A Caverna", publicado em 2000 pela Caminho

04
Saramago era "ansioso por uma coisa que ainda não existe"

Valter Hugo Mãe olha para Saramago como "um indivíduo que pensou as grandes questões sociais". Questões que "passam por muita introspeção, no que diz respeito à figura humana ou a um certo sentido da vida", mas que contribuem para uma reflexão sobre "a sociedade e a organização social". Daí a intemporalidade da sua obra: "Saramago é sobretudo um pensador da sociedade, da organização social. E isso vai fazer sempre sentido, existe na base um ideal, que eu diria ser mais um ideal do que uma utopia, embora muita gente fale das utopias de Saramago, eu acho que é sobretudo um ideal e um esforço para incluir as pessoas num diálogo, num debate, que nos possa levar a um mundo melhor. Eu acho que a obra de Saramago terá sempre essa força de nos propor um caminho, uma discussão acerca de como sermos melhor enquanto coletivo".

"Mais do que se limitar a expor uma realidade e a mostrar ou a representar uma determinada época", refere Valter Hugo Mãe, Saramago "era todo ele ansioso por uma coisa que ainda não existe, por um modo de se chegar a um lugar melhor". "O Ensaio Sobre a Cegueira não deixa de ser uma disforia que tem que ver com uma purga que ele entendia talvez ser necessária fazer para deixarmos cair o sistema de poderes, hipócritas e elitistas, e eventualmente caminharmos no sentido de democracias ou da integração efetiva de toda a gente."

"O Ensaio Sobre a Cegueira" foi publicado em 1995 mas, nos últimos dois anos, a pandemia de covid-19 deu-lhe um novo fôlego e um novo significado por ser possível encontrar neste romance algumas semelhanças com o tempo que estávamos a viver. A obra, que já foi adaptada ao cinema pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles, retrata uma epidemia de cegueira branca que se espalha por uma cidade causando um grande colapso na vida das pessoas e abalando uma série de estruturas sociais.

"Nós vamos estar sempre a descobrir na obra de Saramago uma capacidade de uma certa previsão do futuro", diz Valter Hugo Mãe

"'O Ensaio sobre a Cegueira' acabou por ser muito procurado durante o tempo da pandemia porque de facto há ali muitas coisas que fazem lembrar o estado quase selvagem a que o Homem chega quando é colocado em situações limite ou numa pandemia, seja de um vírus ou de cegueira, como no caso do livro", explica João Tordo. 

Valter Hugo Mãe considera que "nós vamos estar sempre a descobrir na obra de Saramago uma capacidade de uma certa previsão do futuro". E explica porquê: "Não que ele fosse presciente, não que ele fosse propriamente um indivíduo que adivinhava o futuro propriamente, mas porque a obra dele é exatamente uma proposta de uma saída daqui, uma tentativa de sair daqui. E, por isso, em vários livros e em várias situações vamos encontrar essas espécies de denúncias, de traumas, e, ao mesmo tempo, essas esperanças".

Foi trabalhoso abrir a cova. A terra estava dura, calcada, havia raízes a um palmo do chão. Cavaram à vez o motorista, os dois polícias e o primeiro cego. Perante a morte, o que se espera da natureza é que percam os rancores a força e o veneno, é certo que se diz que o ódio velho não cansa, e disso não faltam provas na literatura e na vida, mas isto aqui, a bem dizer, não era ódio, e de velho nada, pois que vale um roubo de um automóvel ao lado do morto que o tinha roubado, e menos ainda no mísero estado em que se encontra, que não são precisos olhos para cavar mais fundo que três palmos.“

Excerto de "Ensaio Sobre a Cegueira", publicado em 1995 pela Caminho

05
O "melhor" livro de Saramago

Mas o "Ensaio Sobre a Cegueira" não é, para João Tordo, o romance mais emblemático de Saramago. O escritor afirma que esse será "O Ano da Morte de Ricardo Reis". "Acho que a voz narrativa do Saramago chega à sua maturação em 'O Ano da Morte de Ricardo Reis'." Como o título deixa adivinhar, o livro, publicado em 1984, tem como protagonista um dos heterónimos de Fernando Pessoa.

"'O Ano da Morte de Ricardo Reis' é muito mais interessante do ponto de vista da portugalidade, em que vai ali buscar uma figura que toda a gente conhece, que é Fernando Pessoa, e dá-lhe uma nova existência", aponta João Tordo.

Quando criou a biografia deste heterónimo, Fernando Pessoa determinou o seu local de nascimento, o meio em que nasceu, a educação, mas nada escreveu sobre a sua morte. Ora, o que Saramago faz neste romance é propor uma versão do que lhe terá acontecido: a trama desenrola-se em torno do regresso de Ricardo Reis a Lisboa, depois de ter estado 16 anos no Brasil, posicionando-o numa Lisboa que assiste ao surgimento do fascismo em Portugal e, desta forma, misturando ficção com dados históricos.

"Há ali todo um jogo entre a literatura, a História portuguesa e os grandes nomes que fizeram a nossa identidade, e ele vai mexer nisso e acho que esse livro é muito mais corajoso", frisa João Tordo.

Este também é para Valter Hugo Mãe o melhor livro do Nobel. "Tenho para mim que o melhor livro de Saramago será 'O Ano da Morte de Ricardo Reis'. O trabalho que ele faz em convocar a personagem de Fernando Pessoa é absolutamente excecional, é muito criativo e seria um dos livros que eu acharia que as pessoas deveriam ler e que acho que gostarão de ler."

Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário estar onde nem nós próprios estamos.”

Excerto de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", publicado em 1984 pela Caminho

06
Saramago queria "desassossegar as pessoas"

"O Ano Da Morte de Ricardo Reis" e "Memorial do Convento" parecem ser dois romances inevitáveis quando se fala nas melhores obras de Saramago. É, de resto, entre estes dois livros que os estudantes do 12.º ano podem optar quando estudam a disciplina de Português.

Mas Saramago é autor de mais de 40 títulos e algumas histórias não viram a luz do dia sem alguma polémica. "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é exemplo disso. Em 1992, António Sousa Lara, na altura subsecretário de Estado da Cultura do governo de Cavaco Silva, impediu a candidatura desta obra ao Prémio Literário Europeu, afirmando que o livro "não representa Portugal". Uma decisão que levaria Saramago a falar em "censura" e a sair do país para viver permanentemente na ilha espanhola de Lanzarote.

O livro, publicado em 1991, conta uma história ficcionada e humanizada da vida de Jesus Cristo e aborda uma eventual relação com a prostituta Maria Madalena. Mas Valter Hugo Mãe afirma que não olha para este romance como uma forma de provocação.

"Não creio que 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo' tenha tido uma intenção de provocação. Creio que foi um exercício honesto de debate, de meditação sobre o papel da Igreja e sobretudo sobre o papel da figura de Cristo no uso que lhe é dado atualmente", começa por dizer.

Valter Hugo Mãe considera que "Saramago era um indivíduo desassossegado e interessava-lhe muito desassossegar as pessoas" porque "o sossego, digamos assim, é uma acomodação que não produz nada, que não cria nada, que não melhora nada". "Ele queria sobretudo participar numa cidadania robusta e convidar as pessoas a uma cidadania robusta. Isso não se faz propriamente com provocações, faz-se com a proposta que verdadeiramente possa retirar às pessoas a possibilidade de ignorarem os temas, os assuntos fraturantes. Eu acho que era sobretudo isso que o Saramago fazia."

O escritor nota ainda que, apesar da "crítica feroz" que marca os romances saramaguianos, com "retratos de figuras que são predatórias, que por vontade expressa ou por acomodação, negligência, se tornam perniciosas", essas figuras convivem lado a lado com "personagens inspiradoras", "personagens que podem apontar para uma certa redenção".

A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem a ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara , talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar pratos. A mulher toca-lhe na cabeça , passa-lhe a mão pelo lombo encharcado , e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele.”

Excerto de "Ensaio Sobre a Cegueira", publicado em 1995

Haverá muitas peripécias e personagens marcantes na sua obra e cada leitor terá direito aos seus momentos preferidos, mas é por esta passagem que acabamos de transcrever de "Ensaio Sobre a Cegueira" que José Saramago gostaria de ser recordado. Numa entrevista ao Público e à Rádio Renascença, em 2008, o Nobel afirmou que este é para si "um dos momentos mais belos" que criou como escritor e a existir alguma mensagem nos seus livros, ela estará aqui: no cão que lambe as lágrimas de uma mulher. 

Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas, no 'Ensaio Sobre a Cegueira'. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje como escritor. Se no futuro puder ser recordado como 'aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher' ficarei contente. Se alguém procurar naquilo que eu tenho escrito uma certa mensagem, atrevo-me pela primeira vez a dizer que essa mensagem está aí. A compaixão dessa mulher que tenta salvar o grupo em que está o seu marido é equivalente à compaixão daquele cão que se aproxima de um ser humano em desespero e que, não podendo fazer mais nada, lhe bebe as lágrimas."

Foto: Ulf Andersen/Getty Images