António Lobo Antunes (1942-2026): "Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons"
António Lobo Antunes em 2010 (GettyImages/ Pedro Loureiro)

António Lobo Antunes (1942-2026): "Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons"

O escritor António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, morreu esta quinta-feira aos 83 anos

A sombra do Nobel da Literatura atormentou-o durante muito tempo. Todos os anos, no início de outubro, o nome de António Lobo Antunes era colocado na lista de possíveis vencedores, avaliavam-se as hipóteses, criavam-se expectativas. Quando o prémio era anunciado, o escritor, conhecido pelo seu mau feitio, não conseguia evitar a desilusão, até a amargura, que, com o tempo, quando o seu nome deixou de ser referido, passou a mascarar-se de desprezo. Se o prémio não lhe era atribuído, então o prémio não lhe interessava.

“Houve uma altura em que estava bastante sedento disso, estava enraivecido, mas há uns tempos que estou em paz. Era uma reação estúpida e narcisista”, admitiu numa entrevista em 2018. "Estou farto de ouvir falar do Nobel, é apenas um prémio literário em que as últimas pessoas que o têm ganho não me agradam", declarou. "Não me venham falar em nóbeis, quero que o Nobel se foda - ponha mesmo assim”, pediu ao entrevistador.

António Lobo Antunes passou a estar acima do Nobel, como tão bem constatou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em 2019, no encerramento de um colóquio sobre a vida literária do autor, na Fundação Calouste Gulbenkian, quando lhe atribuiu a Ordem da Liberdade. Marcelo sublinhava que Lobo Antunes “não precisava” do Nobel “para ser quem era”.

Essa é a verdade. O sucesso do escritor é um facto indesmentível. António Lobo Antunes publicou 32 romances e cinco volumes de crónicas. Da lista de mais de 20 prémios que recebeu ao longo da carreira destacam-se o Prémio Camões (2007), que é o prémio de maior prestígio da literatura em português, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1985 e 1999), o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus (1999), o União Latina (2003), o Fernando Namora (2004), o Jerusalém (2005). Em 2018, a Bibliothèque de la Pléiade anunciou a publicação da sua obra, sendo apenas o segundo escritor português, depois de Fernando Pessoa, e um dos raros escritores vivos a integrar a coleção. "Sonhei com este prémio desde os 13 ou 14 anos, desde a adolescência até agora. É o maior reconhecimento que se pode ter enquanto escritor, muito maior do que o Nobel", reagiu Lobo Antunes. "Estar no meio desta gente sábia dá-me muito prazer e muita alegria." 

António Lobo Antunes quando recebeu o Prémio Camões em 2008, com os presidentes Cavaco Silva, de Portugal, e Lula da Silva, do Brasil (AP)

 

António Lobo Antunes - ALA como é também referido no meio literário - sabia o que valia, mas, ao mesmo tempo, estava sempre insatisfeito. “Ninguém escreve como eu” - era uma frase que repetia em diversas entrevistas. “Nunca ninguém escreveu como eu em português. Para ser totalmente sincero é isto que sinto. É a minha opinião.” No entanto, mostrava-se geralmente descontente, achava que podia fazer melhor, e isso tornava-o inseguro. “Tu, o primeiro neto, o filho mais velho, de quem toda a gente gostava tanto, nunca estás satisfeito com nada!”, dizia-lhe a mãe. Foi sempre assim.

A cada livro publicado mostrava o seu desalento, que a muitos soava a falsa modéstia. “Acho que tenho vindo a conseguir estar mais perto daquilo que considero ser um bom livro. Não sei se chegarei a fazer um bom, e não estou a ser falsamente humilde pois sou bem vaidoso”, dizia em entrevista ao DN em 2018. “Enquanto estou a escrever nunca fico seguro, e há muitas versões do livro; as primeiras são imperfeitas, se calhar as últimas também... Sendo sincero, não vejo ninguém que escreva como eu, mas sendo ainda mais sincero, eu também não escrevo como eu. Tenho de o fazer melhor, livros mais fortes e que estejam mais perto dos homens.”

 

“O desafio é chegar a cada dia mais longe, a cada dia fazer melhor” (El Pais, 2014)

 

Escrevia compulsivamente. Obsessivamente. Enchia folhas e folhas com a sua letra manuscrita, nunca usou um computador. Escrevia e reescrevia e reescrevia. Não sabia estar sem estar a escrever. “Para mim é muito importante fazer isto todos os dias, é um trabalho diário, como qualquer outro.” Era o que sabia fazer, o que tinha de fazer, dizia. "Um livro começa bastante antes de começar a escrever”, explicou. “É como quando a gente sabe que vai adoecer, com uma gripe, por exemplo, começa com um mal-estar vago, não é bem um mal-estar, é uma inquietação interior e não tenho nada. Aliás, eu não escrevo com plano. Começo a escrever e é o livro que se vai estruturando, como se fosse uma coisa independente de mim. (...) Quando estou a escrever é muito bom porque eu não existo. Existe uma cabeça, uma mão, uns olhos atentos ao que a mão escreve. Não tenho tempo para estar deprimido.”

Em 2023, o jornalista João Céu e Silva, que o conhecia bem, revelou que o escritor estava doente. A “demência (...) que o foi invadindo”, acentuou-se “no confinamento da pandemia de covid-19”, contava ao Expresso. Lobo Antunes terá perdido nessa altura aquele que era o seu “único objectivo”, escrever livros, vivendo então numa espécie de “exílio da realidade”. Segundo o autor do livro “Uma longa viagem com António Lobo Antunes”, o escritor estava irreconhecível. Tinha até deixado de fumar, o que, para ele, sempre tinha sido tão essencial como respirar.

O seu último romance, “O Tamanho do Mundo” tinha sido publicado no ano anterior. É um livro pequeno sobre um homem de 77 anos a braços com o envelhecimento. António Lobo Antunes tinha então 80 anos. E escreve: “Que coisa estranha a memória, ela de há tempos para cá ia jurar que a faltar-me, tantos espaços, de repente brancos, nada de modo que o passado se desequilibra”. 

António Lobo Antunes: sempre rodeado de livros (Lusa/ Mário Cruz)

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António, como o avô. “Ouve lá, tu és paneleiro?”

António Lobo Antunes nasceu a 1 de Setembro de 1942, em Lisboa, filho de Maria Margarida Almeida Lima e do neurologista João Alfredo Lobo Antunes. “Os meus pais não eram ricos, não havia semanadas; se queríamos dinheiro, tínhamos de o ganhar”, contou. “O meu pai ganhava pouco. Era o desespero da minha mãe, porque ia para o consultório e, em vez de levar dinheiro aos doentes, levava-os para casa. Não era capaz de levar dinheiro às pessoas, porque estavam doentes. E nós éramos seis filhos. Tínhamos uma casa grande que o meu avô, pai do meu pai, tinha comprado. Ele era rico.” Moravam em Benfica, numa casa com jardim, e passavam férias na Praia das Maçãs. 

António era o mais velho dos seis rapazes. Depois havia o João (neurocirurgião, morreu em 2016), o Pedro (arquiteto, morreu em 2013), o Miguel (programador cultural), o Nuno (médico) e o Manuel (jurista e diplomata). Os primeiros quatro tinham idades muito próximas, existia entre eles uma enorme cumplicidade. “Gosto tanto dos meus irmãos! Não falávamos muito, mas nunca nos zangámos. Era uma relação feita de silêncios”, dizia o escritor.

Aos nove meses esteve quase a morrer com meningite e chegou a estar em coma. Na altura, o avô paterno, o avô António, de quem herdou o nome, fez uma promessa: se o neto não morresse, levá-lo-ia a Pádua. “Levaram-me a Pádua, com sete anos. Foi uma viagem óptima, de um mês, pela Europa. Espanha, França, Suíça, Itália. Lembro-me de tudo, dos museus, onde gostava sobretudo dos escarradores. Eram cromados! Apetecia-me imenso cuspir ali”, contou ao Público. Foi esse avô - a quem numa das crónicas se refere como a pessoa mais importante da sua infância (e, logo, da sua vida, conclui) - que um dia, ao saber que o neto, ainda criança, escrevia poesia, o chamou ao escritório e lhe perguntou, com um ar muito zangado: “Ouve lá, tu és paneleiro?” “Eu não sabia o que era paneleiro. E fui perguntar e a explicação deixou-me ainda mais aflito.” Para o avô, oficial de cavalaria, quem escrevia versos teria de ser homossexual. 

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As primeiras tentativas para escrever e as primeiras dúvidas

Foi graças ao pai, que lhes lia poesia quando estavam doentes e que lhes dava livros de vários autores para incentivar a leitura, que aprendeu a gostar de ler. Como relatou numa das crónicas, intitulada “Isto”: “Julgo que me tornei escritor porque em criança o meu pai me curava as gripes com sonetos em lugar de aspirinas: pela parte da boca que o cachimbo não ocupava saíam ao mesmo tempo fumaças e tercetos cujo efeito medicinal, somado às papas de aveia da minha mãe, me mergulhavam a pouco e pouco numa espécie de coma rimado” 

Aos 12 anos, quando frequentava o Liceu Camões, decidiu ser escritor. Sentou-se à secretária e “expeliu” uns sonetos. “Deviam ser frescos porque, ao mostrá-los à minha mãe, recebi dela o olhar de dó que se concede aos aleijados e aos parvos irremediáveis”, recordou na crónica “Retrato do artista quando jovem - II”:  “Encorajado por este simpático estímulo da autora da minha existência, experimentei um conto: novo olhar de dó. (...) Entre os doze e os treze cozinhei uma dúzia de obras de vária índole, todas elas notáveis: novelas, odes, peças de teatro. Aos catorze era um autor experiente. Seguro da excelência das minhas secreções mandei-as para o Diário Popular.” Foram os seus primeiros textos publicados, embora com pseudónimo. “Vê-las assim impressas apavorou-me de dúvidas: começava nebulosamente a entender que existia uma diferença entre escrever bem e escrever mal.”

Mais ou menos por esta altura, ficou deslumbrado depois de ler “Mort à Crédit”, de Céline. “Escrevi uma carta ao Céline a pedir-lhe um retrato, como se ele fosse um ator de cinema. Ele respondeu-me e andei anos com o envelope no bolso, onde ele tinha escrito o meu nome. Foi uma alegria tão grande! Ele a dizer: “Queres ser escritor? Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.” Nunca mais me esqueço disto: eu ter escrito uma carta ao Céline e ele ter-me respondido…”

 

“Não sou uma pessoa muito alegre. Sou introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil” (Expresso, 2017)

Entrou na Faculdade de Medicina, por imposição paterna, uma vez que o que gostaria era de estudar literatura. Especializou-se em psiquiatria. Enquanto estudava já estava a tentar escrever um romance. “Desde que me lembro, desde os 4 ou 5 anos, o que me interessava era escrever”, contou. “Às vezes tinha um jantar marcado com uma rapariga e acabava por ficar a escrever. Sentia-me culpado quando não escrevia, muito culpado.” Mas, nessa altura, “só escrevia porcarias”, na sua opinião. Deitava fora e começava de novo: “Só fazia merda. Não era bom, mas sabia que ia fazer coisas do caraças. Era tão mau, tão mau, tão mau. A minha poesia era uma porcaria. A minha prosa era uma porcaria”. Mas não desistia.

Terminado o curso fez o estágio num hospital de Londres durante dois anos e depois exerceu, durante vários anos, a profissão de médico psiquiatra no Hospital Miguel Bombarda. Mas antes disso, como acontecia com todos os jovens, o seu percurso foi interrompido pela guerra em África: foi recrutado para o exército, para cumprir o serviço militar. Antes de partir, casou em agosto de 1970 com Maria José Xavier da Fonseca e Costa, após um namoro de seis anos. Tinham-se conhecido na Praia das Maçãs. “Eu quis casar-me porque achava que ia morrer e queria deixar um filho ou uma filha”, admitiu. Embarcou para Angola em 1971. A mulher estava grávida da primeira filha. “Soube que ela tinha nascido por telegrama, letra a letra.” 

Tiveram duas filhas, Maria José e Joana, e viriam a separar-se em 1976. António Lobo Antunes teve outros casamentos e relações e mais uma filha, Maria Isabel, nascida em 1983, mas manteve sempre uma ligação a Maria José que dizia ter sido o seu grande amor.

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Da guerra nunca se volta: "Como se pode ser ao mesmo tempo  tão brutal e compassivo?"

Durante dois anos foi médico do exército. Nesse período escreveu à mulher quase todos os dias. São cartas apaixonadas, em que fala das saudades e do desejo que sente, daquilo que vive em África, do que o rodeia, da vida no quartel, dos livros que vai lendo, dos livros que vai tentando escrever. Nessas cartas, escritas quando tinha 28 anos e publicadas pelas filhas em 2005, depois da morte da mãe e cumprindo a vontade desta, já se vê parte do estilo que iríamos encontrar mais tarde nos livros de Lobo Antunes. Um pequeno exemplo:

“26.3.71. Minha querida mulher, mais um longo dia de calor incrível. Tenho a sensação que há um radiador ligado às minhas costas que me acompanha teimosamente por toda a parte. Devo suar 10 litros por hora, o que, mesmo para um escritor de luxo, é um consumo caro. Ontem à noite, mais tiros, mais correrias, mais alarmes. Decididamente não tenho uma só noite sossegada nesta terra. O que me vale é que as férias se aproximam, embora lentamente, para durante um mês, ficar livre destas agitações diárias. Se bateres com mais força uma porta ver-me-ás atirar-me ao chão e começar a disparar, por um reflexo condicionado. É isto que a guerra faz de nós: uns insectos lutando pela própria sobrevivência num frenesim de patas e de antenas.”

As “cartas de guerra”, reunidas num volume com o título “D’este viver aqui neste papel descripto”, foram adaptadas ao cinema em 2016, num filme realizado por Ivo M. Ferreira e protagonizado por Miguel Nunes e Margarida Vila-Nova.

 

A experiência da guerra em África marcou-o para a vida e marcou também a sua obra. A guerra colonial seria um tema recorrente, em romances e crónicas, até ao fim da carreira. "Nunca contei a ninguém o que se passou na guerra. As pessoas não iam entender e para as que lá estavam comigo não era preciso falar”, admitiu. Lembrava a camaradagem e o espírito de união e dizia que se tinha esquecido de quase tudo, mas a verdade é que a guerra voltava sempre aos seus livros, de uma ou de outra forma.

“Ao cabo de meses e meses de guerra ganhava-se a simplicidade direta dos bichos. Nem reflexões, nem sonhos, nem problemas de consciência: apenas a gana de durar à superfície dos dias. Eu queria que a Pátria se fodesse, mais o fascismo e a democracia e o caralho. (...) Não lutava por nada a não ser para que os que sobejavam da companhia permanecessem vivos e animais como eu, para que os habitantes das senzalas entre Marimba e a fronteira se mantivessem vivos e animais como eu. (...) Lutei horas para tirar filhos vivos de mães meio mortas, desaparecia semanas na Baixa de Cassanje a salvar  quem não conhecia da desgraça da cólera, fazia o que sabia e o que não sabia diante da doença de um infeliz qualquer. Quem me explica isto, quem nos explica isto? Como se pode ser ao mesmo tempo  tão brutal e compassivo? (...) Que sinistros, tocantes, impiedosos, maravilhosos bichos nós éramos.” (Crónica “Há surpresas assim”)

António Lobo Antunes foi médico do exército em Angola entre 1971 e 1973 (Direitos reservados)

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"Memória de Elefante": o nascimento de um escritor

“Durante vinte anos trabalhei diariamente os dejetos, perplexo e angustiado, com a insatisfação de ainda hoje e alguma rara alegria que, ao reler a frio, notava ser desadequada e cretina. Comecei a fazer a barba. Acabei um curso que nunca me interessou. Fui à guerra. Vim da guerra. Passei nove anos com um romance imprestável. E de súbito, sem que me fosse óbvio o porquê ou o como, um feto qualquer deu uma cambalhota na minha barriga e iniciei a Memória do Elefante, Os Cus de Judas, o Conhecimento do Inferno e por aí fora.” (Crónica “Retrato do artista quando jovem - II”)

Em 1979, Lobo Antunes publicou, finalmente, o seu primeiro livro, “Memória de Elefante”. Contou ao Público: “Já tinha escrito uns dez ou 15 antes, ia tudo para o lixo. Na altura, vivia sozinho num apartamento minúsculo no Monte Estoril e tinha o vício do jogo. Saía do consultório e ia direto ao casino [do Estoril]. Não tinha dinheiro, gastava tudo na banca francesa. E escrevia sempre, mas a maior parte do que escrevi acabava no lixo, na figueira do quintal dos meus pais. E esse, não sei porquê, não deitei fora. Mas ninguém o queria. Foi o Daniel Sampaio que andou com ele de editora para editora durante dois anos. Eu continuava a escrever. Quando ele saiu, já tinha feito ‘Os Cus de Judas' (1979), estava a acabar ‘O Conhecimento do Inferno' (1980). Depois uma editora pequenina, a Vega, aceitou o livro.”

Estes primeiros três livros, sendo ficção, são marcadamente autobiográficos e estão muito ligados ao contexto da guerra em África. Em “Memória de Elefante” e "Os Cus de Judas”, os protagonistas são médicos que viram os horrores da guerra colonial e voltaram para Portugal sofrendo grandes crises existenciais. “Eu não pensava do que era ou não capaz, de falar ou não da guerra. O meu problema era ao nível da prosa. Até que ponto a minha prosa é boa? E falar da guerra, nesse sentido também, é muito complicado. E falar de vivência, coisas pessoais. E foi estranho", contou o autor.

“E eu escrevia para casa Tudo vai bem, na esperança de que compreendessem a cruel inutilidade do sofrimento, do sadismo, da separação, das palavras de ternura e da saudade, que compreendessem o que não podia dizer por detrás do que eu dizia e que era o Caralho caralho caralho caralho caralho” ("Os Cus de Judas", 1979)

Teve sucesso imediato. "Lembro-me que quis fazer o lançamento de “Memória de Elefante” e estavam o editor, uma empregada da editora e eu. N’Os Cus de Judas já havia uma multidão. Os meus irmãos diziam-me: “Na praia está toda a gente a ler Memória de Elefante.” Não estava preparado para aquele sucesso e fiquei desconfiado. O que terei feito de mal para as pessoas gostarem do livro?” 

Seguiram-se “Explicação aos Pássaros” (1981) e “Fado Alexandrino” (1983), este já na editora Dom Quixote, onde a partir daí publica toda a sua obra. Em 1985 passou a dedicar-se sobretudo à escrita, embora mantivesse ainda alguns pacientes no Miguel Bombarda. Nesse ano publicou “Auto dos Danados”, com que recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE. Já não havia dúvidas. Era um escritor. Tinha conseguido. 

António Lobo Antunes em 1996 (GettyImages)

“Há coisas que não controlamos. Para escrever um livro faço um plano muito detalhado mas a mão acaba por fugir e torna-se uma entidade autónoma.” (DN 2018)

 

Nunca mais deixa de publicar. “As Naus” (1988), “Tratado das Paixões da Alma” (1990), “A Ordem Natural das Coisas” (1992), “A Morte de Carlos Gardel” (1994), “O Manual dos Inquisidores” (1996), “O Esplendor de Portugal” (1997), “Exortação Aos Crocodilos” (1999), “Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura” (2000), “Que Farei Quando Tudo Arde?” (2001). Esta é a fase de grande consagração. Os prémios e as homenagens sucedem-se. Os seus livros são best sellers. António Lobo Antunes participa em colóquios, viaja pelo mundo, tem todos os anos filas de leitores à sua espera na Feira do Livro.

Mas em 1998 vê o Nobel ser entregue a José Saramago. Entre os dois mais famosos escritores portugueses do momento há uma rivalidade, alimentada pela comunicação social e pelo mundo editorial. “O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros. (...) Nunca tive uma conversa com ele mas também não me interessava muito”, dizia Lobo Antunes numa entrevista em 2017.

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"A vida, afinal, é só isto e nós fomos feitos para a morte e não para a vida"

Em 2003 é publicado o romance “Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo”, o primeiro com edição ne varietur. Nos (quase vinte) anos seguintes, continua a escrever romances, a um ritmo impressionante, praticamente um por ano. Ao mesmo tempo, publicou durante muitos anos crónicas semanais, no Público e depois na revista Visão, que depois reuniu em cinco livros, o primeiro deles editado em 1995 e dedicado ao avô António. Lobo Antunes dizia várias vezes que não gostava da obrigação de escrever todas as semanas, que só o fazia pelo dinheiro. No entanto, tinha consciência que as crónicas - que tanto podiam ser autobiográficas como ficções, reflexões sérias ou puros divertimentos - além de servirem como balões de ensaio para os romances, modos de explorar temas e vozes, eram também uma ponte importante para chegar a um grande número de leitores e uma das razões da enorme popularidade de um escritor que, a cada livro, se tornava mais hermético. “Isso só faço porque pagam bem. As pessoas gostam porque são como piscinas para crianças. É impossível afogar-se. Os livros, por sua vez, são feitos para que se afoguem”, confessou numa entrevista ao El Pais.

António Lobo Antunes e o inseparável cigarro  (Lusa/Mário Cruz)

É nas crónicas que mostra o seu lado mais humano, recorda os tempos de menino, o Antoninho, a brincar com o Sandokan, a jogar futebol e a ler as tiras do Mandrake, fala tantas vezes da morte (e da saudade) dos irmãos e dos amigos (por exemplo, o escritor José Cardoso Pires), do envelhecimento e da doença. Em 2007 é-lhe diagnosticado cancro no intestino e é operado. “Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles”, contou na “Crónica do hospital”. “O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé, dúzias de histórias de criaturas que passaram por isso que tu tens agora e estão óptimas. Recuperando aos poucos da anestesia vou dando-me conta de que um bicho horrível em mim, ratando, ratando. Dois sentimentos opostos: - Vou lutar, não vou lutar.”

Estava convencido de que ia morrer, mas sobreviveu e, nos anos seguintes, teve mais dois cancros, nos pulmões, para os quais teve de fazer quimioterapia. “Continuei sendo o mesmo. Mas há coisas de que de repente comecei a gostar muitíssimo. O sol, por exemplo, um dia de sol, um dia bonito, o facto mesmo de estar aqui. Estar vivo é um privilégio, um acaso e um privilégio”, diria, mais tarde. 

Ele, que era médico, que já tinha visto tantas mortes, que já sabia do sofrimento humano, surpreendeu-se consigo mesmo. Disse-o ao DN: “Quando estava com os cancros aprendi muito sobre a vida com as pessoas na sala da quimioterapia, aquela coragem admirável. E como serão lá em casa? Uns chatos como maridos e mulheres, mas era impossível não gostar delas no hospital. (...) Eu saía de lá cheio de respeito. Aquilo é horrível, a ressaca também e o que vem à cabeça não é agradável, mas as pessoas portavam-se com uma coragem admirável. Pareciam mais humanas e quentes do que fora daquele contexto, porque não necessitavam de competir. A vida, afinal, é só isto e nós fomos feitos para a morte e não para a vida, mas enquanto estou vivo devo tirar alguma alegria disso.”

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“Se deixo de escrever o que é que faço?”

 

Em 2011, pela primeira vez, um livro seu foi adaptado ao cinema: “A Morte de Carlos Gardel” realizado por Solveig Nordlund. Em 2015, a atriz Maria Rueff, o escritor Rui Cardoso Martins e o encenador Miguel Seabra juntaram-se para costurar “António e Maria”, uma peça de teatro feita a partir das palavras de Lobo Antunes, com personagens tiradas das ruas, dos cafés, das lojas, da nossa vida de todos os dias, pessoas que vestem fato de treino e têm louça suja na pia, que têm contas para pagar, passam uma semana de férias no Algarve e acordam com ramelas nos olhos. É o “doméstico sublime” de Lobo Antunes, como lhe chama Cardoso Martins.

“Sempre gostei de estar com o que chamam “pessoas humildes”. Foi com essas que aprendi mais”, garantia Lobo Antunes. “As classes altas não me interessam. Nunca fui snob. Costumo comer numa tasca e vou ouvindo. Passei muito tempo no campo entre gente do campo. Têm frases que adoro e um poder de síntese. A riqueza do vocabulário popular é tremenda. E eu ia a cavalo nisto tudo.”

Em 2021, ano em que, por razões de saúde, deixou de escrever, António Lobo Antunes fez a doação de todo o seu espólio, um acervo com cerca de 20 mil livros, à Câmara Municipal de Lisboa. Depois disso, ainda publicou o romance “O Tamanho do Mundo” e dois livros de crónicas, um deles com prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa e outro prefaciado por Daniel Sampaio, o amigo que primeiro acreditou nele e lutou pela publicação de “Memória de Elefante”. Em 2024 o livro “Fado Alexandrino” foi adaptado ao teatro: o espetáculo encenado por Nuno Cardoso esteve integrado nas comemorações dos 50 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974.

“Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons” (DN, 2018)

Nas últimas entrevistas que deu, além do medo de não ser suficientemente bom, António Lobo Antunes começou a revelar o medo de deixar de ser bom, de a idade lhe tirar aquele que era o seu único objetivo de vida: escrever, escrever, escrever. “Agora penso: “Se deixo de escrever o que é que faço?” Ponho-me a ler... Leio oito horas por dia. Ao fim de uma semana estou farto de ler. O que é que eu vou fazer?", perguntava. "Tenho medo de escrever porcarias. De não ter sentido crítico. Os escritores que vivem muito tempo começam a fazer porcarias e não percebem... tenho medo que me aconteça isso. (...) Tenho muito medo de começar a repetir-me. É inevitável.”

Não sabemos como terá sentido estes últimos tempos, sem poder escrever. Mas uma coisa é certa: não escreveu porcarias. E, "com ou sem Nobel", continuava a ser um escritor incontornável, como disse o crítico José Mário Silva a propósito do último livro de António Lobo Antunes: “Há muito que o autor de “Fado Alexandrino” e “Tratado das Paixões da Alma” parece fechado numa cápsula que o isola do mundo à sua volta, um casulo onde tece incansavelmente a sua prosa narrativa, essa conversa de si para si mesmo, por vezes tão fechada e virada para dentro que quase se assemelha a uma forma de autismo, com as suas insistências e réplicas, ecos e repetições, sempre na mesma toada, que é, no fim de contas, a sua voz única, depurada ao fim de mais de quatro décadas de atividade literária e mais de três dezenas de romances, uma voz que por vezes se torna monocórdica, até monótona, mas logo se incendeia e reinventa, uma voz que continua a ser, provavelmente, a mais poderosa da literatura portuguesa."

António Lobo Antunes em 2018 (GettyImages)
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