A Internet, esse palito com que a Ucrânia provoca tanta dor à Rússia: seis meses que mudaram o nosso século para sempre

A Internet, esse palito com que a Ucrânia provoca tanta dor à Rússia: seis meses que mudaram o nosso século para sempre

O que torna esta guerra diferente de todas as outras é o que também permite à Ucrânia ter evitado a derrota: a internet. Isso mesmo, a internet, essa monumental arma maciça. A guerra tem seis meses - uma análise. Que é uma análise à internet e a tudo o mais

Putin disse em 2014 que conseguiria tomar Kiev em duas semanas, foi num telefonema com Durão Barroso: pois Putin não tomou Kiev nem em 2014 e muito menos em 2022, não a tomou nem em duas semanas nem em semanas nenhumas. Kiev é a cidade de onde Putin e as suas tropas foram expulsas, falharam e por isso recuaram - ou vice-versa, recuaram e por isso falharam, falharam pelo menos até agora, mas à volta da capital as tropas russas deixaram indícios de massacre de civis, crimes de guerra que a Amnistia Internacional está a investigar em Irpin, em Bucha, em Hostomel, em Borodianka, em Andriivka. São 26 semanas de invasão e nem Kiev nem a Ucrânia se deixaram tomar, 26 semanas são seis meses feitos neste 24 de agosto, seis meses de resistência ucraniana, seis meses sem uma vitória russa que era uma vitória que se esperava rápida, eis 24 de agosto e nem há vitória nem há rapidez, a guerra está lenta, está para durar, portanto: porque é que a Rússia não ganhou esta guerra em duas semanas? Porque não a venceu em 26? Por causa da internet. Da internet? Como assim, da internet?

“Os russos não têm tecnologia quase nenhuma nos seus equipamentos, mesmo naqueles topo de gama. E é aqui que a Ucrânia está a ganhar, com o apoio da internet [Starlink] - vamos chamar-lhe assim – de Elon Musk. A internet que existe na Ucrânia é atmosférica, portanto não há peça bélica que a consiga deitar abaixo. É com este ‘palito’ que a Ucrânia consegue criar quase tanta dor no exército russo como se tivesse disparado um míssil”, diz  Nuno Mateus-Coelho, professor universitário e doutorado em cibersegurança.

Um dos primeiros atos da Rússia quando atacou a Ucrânia foi destruir as redes de comunicação 3G e 4G, para impedir que os ucranianos pudessem comunicar entre si. Depois tentou deitar abaixo a internet da Ucrânia, com ataques cibernéticos sucessivos. Mas o Starlink de Elon Musk manteve-se intacto. Esta rede de internet gratuita que a Ucrânia tem espalhada por todo o território permite que a população consiga continuar a relatar e a mostrar imagens ao mundo e ao exército sobre o que se passa no terreno. Foi assim que os ucranianos conseguiram “combater a maior parte das colunas de blindados russos”.

"Foi com o povo que se conseguiu sistematicamente boicotar o terreno com recurso a estas imagens. A internet veio possibilitar que a Ucrânia conseguisse sistematicamente saber, com recurso à análise do tráfego, onde havia mais tropas, onde havia menos tropas, para onde iam e de onde vinham as tropas russas. A Rússia perdeu a sua capacidade de telecomunicações”, aponta Nuno Mateus-Coelho. "Se não houvesse internet na Ucrânia, neste momento - e a nível geral - os ucranianos garantidamente não se iam conseguir defender. Se isto não é a primeira guerra do futuro, não sei o que é que será."

Técnicos tentam reparar o serviço de internet em Bucha, no dia 5 de abril. A rede tem permitido aos ucranianos ter acesso a informação em tempo real sobre a localização das tropas russas. Foto: Rodrigo Abd/AP

Cansados da guerra. Mas…

Esta é a primeira vez em que há uma guerra em território europeu na era dos smartphones e das redes sociais. “É o primeiro conflito global do século XXI”, afirma Victor Madeira, especialista em geopolítica e segurança nacional, que acredita que “esta guerra vai muito além daquilo que está a acontecer no campo de batalha”. Segundo o investigador Adelino Cunha, Volodymyr Zelensky aproveitou este facto e, ao longo do conflito, falou diretamente com cada um dos europeus - “o que permitiu uma mediatização social da guerra”.

"Zelensky não quer desaparecer dos media ocidentais porque é aí que mantém a sua força de resistência face à Rússia", sublinha Rui Calafate, especialista em comunicação. Trata-se de uma situação substancialmente diferente da da Rússia, que não depende da opinião pública para a estratégia de guerra, afirma Diana Soller, especialista em relações internacionais.

Uma revelação inesperada a Piers Morgan e muita polémica com a capa da Vogue: Olena Zelenska e Volodymyr Zelensky

Ao longo do conflito, o discurso do presidente ucraniano foi-se intensificando - numa tentativa de não deixar cair a guerra no esquecimento e "colocar pressão” sobre os seus aliados para que forneçam mais armamento e intensifiquem as sanções. Mas, segundo Rui Calafate, a estratégia inicial de Zelensky de tocar o coração da opinião pública internacional também se esgotou. O Ocidente cansou-se desta guerra. 

"Tal como aconteceu com a pandemia, a certa altura as imagens e relatos que chegam têm menor impacto em nós", afirma o psicólogo Renato Gomes Carvalho. "Entrámos em exaustão emotiva" da guerra: "Isso vê-se nas aberturas dos jornais televisivos e no comportamento das redes sociais” - a atenção está a dirigir-se para outros temas, nomeadamente a inflação, o aumento das taxas de juro e os preços dos combustíveis, indica Adelino Cunha. Curiosidade: todos esses factos estão relacionados com a guerra. Ou seja: podemos estar cansados da guerra mas a guerra e os seus efeitos não estão cansados de nós - podemos não querer ver a guerra mas estamos a sentir os seus efeitos todos os dias.

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A guerra trouxe de volta o espectro da crise económica. O Banco Central Europeu e a Reserva Federal americana decidiram subir as taxas de juro para combater a inflação, medida que “retirará rendimento disponível às famílias” e “desincentivará o investimento”, afirma o economista João Rodrigues dos Santos. E as sanções decretadas pelo Ocidente atingiram o principal eixo de ligação económica entre as duas partes: o sector energético.

É que se a Ucrânia deve muito à internet, a Rússia - o terceiro maior produtor de petróleo e o segundo maior produtor de gás do mundo - joga com os recursos naturais que tem. “Enquanto os combustíveis fósseis forem necessários à economia global, a Rússia não perderá a preponderância mundial que tem, pelo menos na razão que o Ocidente deseja”, diz João Rodrigues dos Santos.

Podemos estar cansados da guerra mas a guerra e os seus efeitos não estão cansados de nós. O mais visível é a inflação. Na imagem, Volodymyr Zelensky visita o porto de Chornomorsk. Foto: Telegram

A Europa está a tentar reduzir a dependência energética face à Rússia e o secretário-geral da ONU, António Guterres, vê nisso um momento singular que deve ser aproveitado para acelerar o processo de transição energética. No entanto, não é isso que tem acontecido.  “O que temos assistido é a uma tentativa de, por exemplo, a Alemanha [a quarta maior economia do mundo e a primeira da Europa] aumentar as importações de petróleo a partir da região do Golfo Pérsico e, simultaneamente, investir na construção de terminais para receber gás natural liquefeito (GNL). Para dar mais um exemplo, nos Estados Unidos foi contrariada uma das primeiras ordens executivas de Joe Biden, que consistia em não atribuir mais estímulos à extração de gás e de petróleo em solo norte-americano”, explica João Rodrigues dos Santos. Para o economista, estas decisões não são as melhores para tirar o poder à Rússia. 

As medidas do Ocidente, destinadas a enfraquecer o grande motor económico de Moscovo, acabaram por expor a Europa a uma grave espiral inflacionista, atingindo valores sem precedentes neste século, como é o caso de Portugal.

Uma das principais medidas adotadas pelo Banco Central Europeu e pela Reserva Federal dos Estados Unidos para combater este fenómeno foi a subida das taxas de juro. “Os aumentos acentuados das taxas de juro retirarão rendimento disponível às famílias - que vão pagar, por exemplo, muito mais pelos seus créditos à habitação - e também vão desincentivar o investimento, que exigirá um maior esforço financeiro a potenciais investidores. Este é o preço a pagar para que o nível da inflação não se descontrole irremediavelmente”, afirma João Rodrigues dos Santos.

Como a perceção do poderio militar russo mudou

O Kremlin continua, de facto, a poder contar com os seus recursos energéticos. No entanto, para o major-general Arnaut Moreira, a Rússia “desprezou uma oferta singular da Europa”, que foi a “progressiva integração económica no espaço europeu através do fator energético”, que constituía uma “importantíssima fonte de rendimentos para a sua economia”. “O sonho imperial russo sobrepôs-se.”

Para Arnaut Moreira, o otimismo presente na narrativa do Kremlin contrasta com a realidade, marcada por uma “tendência crescente para a bipolarização mundial”, concentrada nos Estados Unidos e na China. “A Rússia tem ficado para trás nesta ordem mundial. Não é uma potência económica, é uma potência nuclear, está muito longe de ser uma potência demográfica, mas era, até há muito pouco tempo, considerada uma potência militar convencional de grande envergadura. Este estatuto tem vindo a perder força à medida que a operação na Ucrânia decorre. Não está a obter, do ponto de vista militar, os resultados que o seu reconhecimento, com este estatuto de grande potência militar convencional, lhe dava e, portanto, continua a perder atributos naquilo que são as questões que verdadeiramente contam para a emergência de um terceiro polo mundial”, aponta o major-general.

Arnaut Moreira prossegue: “Está a ser degradada a capacidade económica da Rùssia, que já não era brilhante, a sua capacidade demográfica, pela quantidade de jovens que está a perder na guerra, a sua capacidade política pelas derrotas sucessivas nas votações da Assembleia-Geral das Nações Unidas, e o seu estatuto de grande potência militar convencional também está atualmente posto em causa. Conserva apenas, para aspirar a projetar-se como grande polo de poder mundial, aquilo que é o seu arsenal nuclear, mas como o arsenal nuclear foi feito para não ser utilizado, ela na verdade não tem hoje em dia instrumento nenhum de poder para se afirmar nesta luta de titãs entre a China e os EUA”.

“A Rússia tem ficado para trás nesta ordem mundial", considera o major-general Arnaut Moreira. Foto: Anatoly Maltsev/EPA

Um dos objetivos do Kremlin para a invasão da Ucrânia era impedir a adesão à NATO. Tal objetivo foi concretizado, mas, para Arnaut Moreira, é uma vitória pírrica.

"Saiu tudo errado nesta contabilidade estratégica. É verdade que a Ucrânia não aderiu à NATO, mas todos os países da organização ajudaram a Ucrânia. Não é a NATO em si, mas são os seus países. Também do ponto de vista da geoestratégia, a Rússia sai muito debilitada porque de repente, no Báltico, aparece um conjunto de países, uns já membros da NATO, outros que, com a invasão russa, se assustaram e pretendem integrar a organização. Feitas as contas, no final a Rússia acaba por ficar com muito mais NATO junto das suas fronteiras do que aquilo que pretendia evitar com a invasão da Ucrânia.”

Os avanços e recuos do conflito militar

A tentativa russa de tomar Kiev, em março e abril, saiu fracassada devido a uma combinação de fatores, incluindo a própria geografia, erros dos atacantes, o “engenho” dos ucranianos (como os cocktails molotov caseiros), bem como armas modernas, além de smartphones - usados ​​pela primeira vez na história militar como armas poderosas. A mudança no foco do conflito para a região do Donbass, em maio, seguiu-se ao fracasso da Rússia em capturar Kiev durante a primeira fase da guerra. 

Mapa: Evolução no terreno durante os primeiros seis meses de guerra

Fonte: Instituto para o Estudo da Guerra

Logo nos primeiros dias, Moscovo procurou conquistar a importante cidade portuária de Mariupol, com o objetivo de estabelecer uma ponte terrestre entre a Crimeia e as repúblicas separatistas do Donbass. E, após uma batalha de meses, os combatentes ucranianos que defendiam a siderurgia Azovstal, em Mariupol, renderam-se. Sobreviveram a uma batalha de meses em que as forças russas cercaram a cidade e este último reduto da resistência ucraniana.

Antes do verão, a Rússia fez vários avanços no Donbass, depois das conquistas de cidades cruciais - nomeadamente Mariupol e Severodonetsk. No entanto, a ajuda militar oferecida ao governo ucraniano, especialmente os sistemas de artilharia avançada HIMARS, pelos Estados Unidos, têm dado maior poder de fogo à Ucrânia para retaliar. Neste momento, são poucos os avanços e recuos de parte a parte.

Os Estados Unidos estão de regresso à Europa (e como isso é importante para a China)

Arnaut Moreira aponta a Europa como um dos vencedores deste conflito. “Passados seis meses, a Europa continua a mostrar-se solidária politicamente, solidária do ponto de vista militar, e parece continuar muito coesa na sua determinação de impedir uma vitória russa nesta guerra. Aquilo que são as linhas de fratura existentes já existiam anteriormente mas não foram criadas novas linhas de rutura. A intervenção russa teve o condão de chamar a Europa às questões de solidariedade, que é um dos aspetos onde a Europa se sente particularmente eficaz. Trouxe união ao bloco europeu.”

O segundo grande vencedor, na opinião do major-general, são os Estados Unidos, que estão a ser “fundamentais para a resistência militar ucraniana”, não só pelo “apoio político” como também através do fornecimento de armas. “Contribuíram de forma esmagadora para dotar as forças ucranianas do equipamento necessário para equilibrar aquilo que era um tremendo desequilíbrio inicial da confrontação dos sistemas militares ucraniano e russo. Os EUA têm um papel absolutamente central no reequilíbrio dos potenciais de combate na Ucrânia. Aproveitaram esta oportunidade para marcar o seu regresso à Europa.”

Joe Biden foi até à Polónia, em março, visitar os soldados norte-americanos destacados para a NATO, mas não chegou a atravessar a fronteira para a Ucrânia. "Pelo amor de Deus, este homem não pode permanecer no poder", disse sobre Putin num discurso em Varsóvia. Foto: AP

Quem olha muito atentamente para os desenvolvimentos na Ucrânia é a China, a quem interessa que a Rússia esteja militarmente ativa na Europa. “A Rússia é importante para a China na manobra global, pelo menos do ponto de vista conjuntural. Em face da questão dos desenvolvimentos de Taiwan, sente-se que à China interessa manter a Rússia como um elemento desestabilizador na Europa, que concentre esforços e forças por parte dos Estados Unidos, em vez de os ter absolutamente libertos para ações no Pacífico. Interessa-lhe que haja um diferendo entre os Estados Unidos e a Rússia porque isso permite dividir esforços e forças, para si é mais interessante”, vinca o major-general.

No entanto, Arnaut Moreira não acredita que esse interesse se possa vir a traduzir num apoio militar à Rússia. A China não está muito interessada em fornecer equipamentos militares à Rússia pois não se vê ao nível da Rússia - vê-se como o poder desafiante neste mundo bipolar. Estar a fornecer equipamentos à Rússia seria estar a criar um terceiro polo, algo que quer evitar. A China pretende ser o segundo polo incontestável. Não vai morrer pela Rússia, está noutro patamar de poder e não se vai sacrificar apenas para dar alegrias a Moscovo. Tem apoiado o Kremlin apenas do ponto de vista discursivo.”

A coragem suíça

Se a China se tem mantido relativamente neutra, o mesmo não se pode dizer de alguns países europeus que historicamente sempre adotaram essa posição, como é o caso da Suécia e da Finlândia. E depois há a Suíça, que nem mesmo na Segunda Guerra Mundial se pronunciou contra um dos lados. Os suíços fecharam o espaço aéreo aos voos com origem na Rússia e decidiu aplicar as mesmas sanções económicas que a União Europeia aplicou a Vladimir Putin.

Há décadas que o país alpino, considerado um paraíso fiscal, é um dos destinos de eleição dos oligarcas russos para guardarem o seu dinheiro. E é exatamente por isso que o comentador da CNN Portugal e embaixador Francisco Seixas da Costa entende que a tomada de posição da Suíça "vem na sequência da pressão internacional" sobre as questões como a lavagem de dinheiro e de contas que utilizavam este país "como plataforma para financiar o terrorismo".

"A Suíça percebeu que o seu prestígio ficaria altamente prejudicado e que o mundo ocidental não a perdoaria se, por uma peculiaridade no seu estatuto, não abrisse esta exceção. Vive desde o século XIX com este estatuto de neutralidade, que se pode dizer que lhe foi imposto, mas, no mundo atual, esse conceito é muito difícil de sustentar. O mundo está a mudar em matéria de direito internacional e a Suíça percebeu isso. Deve ter sido um esforço grande e foi um ato de alguma coragem, porque é uma exceção a uma regra com dois séculos. É, no fundo, um gesto de solidariedade”, afirmou em março Francisco Seixas da Costa. 

A invasão russa foi suficiente para estes países europeus quebrarem uma posição histórica, mas o mesmo não se aplica a alguns países africanos, a quem a Rússia se impôs através das armas. “Quando a Rússia apoiou os chamados movimentos de libertação, apoiou do ponto de vista militar - e quando se deram as independências, estes países foram inundados de material dos tempos soviéticos”, explica Arnaut Moreira. “Estes países nunca criaram economias suficientes para alterar o seu sistema de forças e estiveram sempre dependentes dos equipamentos, das peças, da manutenção e do armamento que a União Soviética - e mais tarde a Rússia - ia fornecendo. Além disso, esta dependência criou a capacidade de a Rússia formar os oficiais destes países. Criam-se aqui laços com as elites dirigentes que são depois muito difíceis de romper. Esta posição de muitos países africanos, de algum temor em enfrentar com um voto hostil a atitude russa, tem que ver com o elevado grau de dependência que as suas forças armadas têm em relação a Moscovo, que deixaria de fornecer estes equipamentos. As elites gostam de poder. E o poder nestes países é muito sustentado pela força das armas.”

Destruição em Bucha. Suécia, Finlândia e Suíça fazem parte do grupo de países que quebraram a sua neutralidade histórica por causa da invasão russa da Ucrânia. Foto: Rodrigo Abd/AP

 

E nos próximos seis meses? (já agora, outra pergunta: vamos ter de racionar?)

Como vimos anteriormente, o capítulo económico é um dos mais delicados, mas ainda não ocorreu no Ocidente um cenário que, em alguns casos, como na Segunda Guerra Mundial, atingiu mesmo países como Portugal, que não estavam envolvidos diretamente nas hostilidades: os racionamentos em larga escala. A dependência energética face à Rússia, bem como o facto de a Ucrânia e a Rússia serem um dos principais produtores globais de alguns bens alimentares, como os cereais, vieram aumentar a probabilidade de cortes e escassez um pouco por todo o mundo. No sector energético já foram tomadas algumas medidas, como são disso exemplo as cidades alemãs que começaram a cortar no aquecimento dos edifícios públicos e das águas. Apesar destes sinais, João Rodrigues dos Santos descarta que o pior cenário venha a acontecer.

“Não creio que cheguemos a ser obrigados a racionar em larga escala. Mantendo-se a conjuntura como está no presente, a economia mundial tem capacidade para se ir reorganizando. É certo que esta reorganização corresponderá sempre a uma situação de nível médio de preços mais elevado do que em condições normais. E aqui os Estados terão obrigatoriamente de manter a atenção orientada para as franjas populacionais mais frágeis do ponto de vista socioeconómico.”

A nível militar, os especialistas são unânimes: a guerra está a chegar a uma nova fase. A Ucrânia começa a ter poder de contraofensiva, mas, em contrapartida, o défice de atenção para o conflito por parte do Ocidente só beneficia a Rússia. Victor Madeira defende que “esta guerra não vai acabar este ano, só se houvesse uma mudança política na Rússia e uma decisão clara política para acabar a guerra e negociar uma paz duradoura”. Paralelamente, o investigador antevê “mais e mais ataques a áreas controladas pelos russos que estes pensavam serem seguras”, como o ataque à base aérea da Crimeia. “Vamos ver também ações contra alvos mais estratégicos, como as pontes que ligam a Crimeia e outras partes da Ucrânia à Rússia e, possivelmente, ataques à frota russa no mar Negro. A nível mais estratégico, vamos ver a guerra a continuar ainda por bastantes meses enquanto houver suporte aliado pela Ucrânia.”

Crianças ucranianas num campo de refugiados em Berlim, no início de agosto. A guerra já obrigou mais de seis milhões de ucranianos a fugirem do país. Foto: Carsten Koall/AFP via Getty Images

Victor Madeira antevê uma “grande contraofensiva” ucraniana nos próximos seis meses - que já se está a preparar – no sul e em partes do sudeste do território. “Vão tentar retomar Kherson - estou convencido que vai acontecer nas próximas quatro a oito semanas -, a única cidade principal ucraniana que os russos controlam - porque é a área imediatamente acima da Crimeia.” Aliás, segundo o investigador, esta é uma cidade muito importante para os russos, por ser a área que controla o fornecimento de água à península da Crimeia. “E isso tem sido essencial porque tem havido uma seca na Crimeia na última década e era uma situação muito desesperada até a guerra começar.”

Ponto fundamental no meio disto tudo: a crise inflacionária e “até que ponto os países ocidentais conseguem ou têm capacidade de suportar a Ucrânia económica, financeira e militarmente”, aponta Victor Madeira. “Isso é a grande aposta do regime russo - fraturar a solidariedade europeia, principalmente durante o inverno. Este inverno vai ser a fase decisiva da guerra. Se o apoio à Ucrânia diminuir, é uma vitória para os russos”.

 

 

 

Túmulos de ucranianos mortos pela invasão em Bucha Foto: Natacha Pisarenko/AP Photo

Os números da guerra

As vítimas

Em seis meses de guerra morreram mais de 5.400 civis e pelo menos 7.400 ficaram feridos, segundo números oficiais do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. No entanto, a organização alerta que o real número de mortos deverá ser muito superior, dadas as dificuldades em contabilizar mortos em regiões sitiadas ou ocupadas pelos russos, como é o caso de Mariupol, onde se estima que tenham morrido milhares de pessoas.

A contabilidade ucraniana é muito mais elevada. Apesar de não haver uma estatística geral oficial para o país, as várias autoridades locais têm divulgado balanços para cada região ucraniana. O oblast de Mariupol é, de longe, o mais afetado. Estimativas das autoridades locais colocam o número de vítimas mortais acima das 22 mil. Tal como com as estimativas da ONU, é impossível saber se este número corresponde à realidade.

Os refugiados

A ofensiva militar russa causou a maior crise de refugiados da história moderna. Estima-se que nos últimos seis meses quase 17 milhões de pessoas fugiram das suas casas – mais de seis milhões de deslocados internos e mais de dez milhões para os países vizinhos -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Para colocar em perspetiva, em apenas seis meses a guerra na Ucrânia provocou uma crise de refugiados quase três vezes superior à das guerras jugoslavas dos anos 90 - e semelhante à guerra civil na Síria, que se iniciou há 11 anos.

Estima-se, contudo, que cerca de quatro milhões de pessoas que deixaram a Ucrânia desde o início do conflito já voltaram para o seu país de origem. No entanto, ainda permanecem no resto da Europa cerca de 6,7 milhões de ucranianos.

Também segundo as Nações Unidas, cerca de 16 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na Ucrânia.

As armas

É um dos temas centrais da guerra e dos que mais dinheiro movimenta. Todas as semanas, o presidente Volodymyr Zelensky pede mais armamento para ajudar a defender o seu país. Todos os aliados ocidentais responderam positivamente, dos quais se destacam os Estados Unidos. O país liderado por Joe Biden já entregou ou prometeu entregar quase 25 mil milhões de euros em armamento e equipamento militar para a Ucrânia, representando bem mais de metade dos 36 mil milhões deste tipo de ajuda enviados ou prometidos para Kiev.

O Reino Unido é o segundo maior doador, com cerca de 4 mil milhões de euros em armas enviados. A Polónia e a Alemanha são os outros dois países que superaram os mil milhões em ajudas militares.

Outros Estados também estão a doar uma quantidade importante: tanto a Estónia como a Letónia já doaram ou vão doar armamento à Ucrânia num valor superior a 0,8% do seu PIB, um esforço significativo para dois países com menos de dois milhões de habitantes.

Portugal é muito mais modesto no seu apoio militar, tendo apenas comprometido doar material no valor de 11 milhões de euros. É na área financeira - com a concessão de empréstimos, por exemplo - que Portugal se destaca, tendo já prometido um financiamento de cerca de 250 milhões de euros.