“A Índia é o meu país, mas a Ucrânia é emoção”: estas duas famílias indianas também fugiram da guerra e encontraram abrigo no interior de Portugal

“A Índia é o meu país, mas a Ucrânia é emoção”: estas duas famílias indianas também fugiram da guerra e encontraram abrigo no interior de Portugal

Texto Wilson Ledo

Repórter de Imagem Joel Teixeira

Edição de Imagem Filipe Machado

A guerra na Ucrânia fez chegar a Portugal refugiados de 101 nacionalidades diferentes. Ao todo, são 9625 os refugiados vindos do país invadido mas que não têm nacionalidade ucraniana. São estrangeiros que estavam a viver, estudar ou trabalhar na Ucrânia.

As coisas espalham-se pela casa sem uma ordem aparente. Há caixotes no corredor. Na sala de estar, uma máquina de lavar roupa no canto, junto ao sofá e a uma ventoinha. Tudo parece provisório, lembrando que aqueles que aqui habitam estão de passagem. Na cozinha, Kuljinder Singh, 35 anos, serve-se do almoço. O arroz, solto, torna-se amarelo ao envolver-se no frango. Cheira a caril, a especiaria que traz à memória a terra onde nasceram.

Há muito que Kuljinder deixou a Índia. “Sou um cidadão do mundo”. Mas uma das últimas paragens, a Ucrânia, prometia ser para a vida. “O padrão de vida era muito alto, mas o custo de vida era muito baixo. Havia muitas oportunidades de emprego”, conta. Com a mulher, Neha Rani, de 34 anos, tiveram a primeira filha, Allysha, um mês antes do início da guerra. As etapas seguintes eram abrir uma empresa em conjunto na área da restauração e comprar uma casa.

“Começava a sentir-me ucraniano, porque já lá estava há dois anos. Não posso exagerar ao dizer que me sinto ucraniano. A Índia é o meu país. Mas a Ucrânia é emoção. Um país que me alimentava a mim e à minha família. É uma espécie de mãe.”

A 24 de fevereiro, a terra-mãe foi invadida pela Rússia. E a primeira reação de Kuljinder foi ficar. Mas, com o passar dos dias, as idas ao supermercado e ao banco transformaram-se em filas e horas de espera. Por isso, os Singh sentaram-se no carro para começar mais uma viagem para mudar de vida. “Fomos até à fronteira com a Hungria. Eram 700 quilómetros mas demorámos 22 horas. Havia muito trânsito.”

Um passaporte ucraniano

“Eu era um refugiado. Porque tinha deixado a Índia e a Ucrânia era o meu país. E ter de provar que sou refugiado é muito difícil.” Kuljinder passou por vários países antes de chegar a Portugal: República Checa, Alemanha, França, Espanha. Em cada paragem, o mesmo problema: a papelada. “Quero que os meus documentos estejam certos.” E foi em Portugal que encontrou essa oportunidade. Kuljinder e a família estão na lista dos 9625 refugiados não ucranianos que fugiram à guerra iniciada por Moscovo e encontraram abrigo em Portugal.

A passagem por Lisboa foi fugaz. A casa pronta para recebê-los estava em Carrazeda de Ansiães, no distrito de Bragança. Para entrar, é preciso subir as escadas laterais, que levam ao primeiro andar. Do terraço, olhando à volta, praticamente só se vê campo. “É calmo, as pessoas são simpáticas, é uma cidade pequena. Eu gosto de estar aqui.”
Talvez por isso Allysha, agora com sete meses, durma sem interrupções em qualquer altura do dia. O berço está praticamente colado à cama dos pais. Ela descansa de branco, com os braços virados para cima. É ucraniana. O pai ainda teve de voltar à Ucrânia para garantir-lhe o passaporte que viu negado em várias representações diplomáticas.

“Irpin é agora uma cidade difícil de aceder porque a ponte foi destruída. Tem de se ir à volta. Quando vês os edifícios todos destruídos, não te sentes bem. O medo continua lá. E está tudo muito caro, não sei como conseguem [sobreviver] com os salários de lá”, recorda Kuljinder.

Allysha é a única ucraniana da casa. O pai voltou à Ucrânia há semanas para lhe tratar do passaporte. Foto: DR

 

Da Índia para Carrazeda de Ansiães

Um peluche do Winnie the Pooh deitado no chão denuncia outro habitante desta casa. Gasto, com o rosto rasgado por uma dentada, é o favorito de Oreo, o cão de Jasmine Kaur, 24 anos, e de Vishal Singh, de 25, também eles refugiados a morar nesta casa e também eles com origem indiana.

Jasmine e Singh conheceram-se em Kiev. Ela terminava os estudos em Medicina. Ele trabalhava em suporte técnico. No dia anterior ao início da guerra, com os rumores de um conflito iminente, mudaram-se para Ternopil, no oeste do país. “Ouvimos sirenes, sentimos que algo tinha acontecido”, recorda Jasmine. Os amigos começaram a ligar e eles souberam que tinham de fugir para mais longe.

“Fomos para a fronteira com a Polónia. Eram cerca de 200 quilómetros. Os carros andavam muito devagar. Levámos seis horas. Ao princípio, tínhamos água, mas chegou uma altura em que não havia água para nós nem para o cão”. Mas esse não seria o maior problema da travessia até Portugal.

Em Lisboa, foram colocados num centro para refugiados. “Tentámos encontrar alojamento. Foi muito difícil. A pior parte desta viagem foi tentar encontrar alojamento que aceitasse um cão.” Arrendaram uma casa, passaram por hostels. Gastaram muito do que tinham e acumularam más experiências atrás de más experiências. Tiveram mesmo de voltar ao centro de refugiados, onde Oreo era aceite.

Um dia, o telefone tocou. Era Kuljinder a dizer que havia espaço para eles na casa de Carrazeda de Ansiães.

Mais uma paragem

“Sinto que é uma guerra no meu país natal. Passei seis anos lá. Para mim, é uma casa”. Jasmine não esconde que gostava de voltar à Ucrânia. A maior ansiedade que diz ter vivido, enquanto a guerra ganhava escala, era saber se iria conseguir o diploma do curso. Um documento que, agora em Portugal, não lhe abre qualquer porta. Jasmine estaria disposta a ficar no interior do país, onde faltam os médicos, se pudesse ser médica. Já trabalhou, com o namorado, num restaurante. Mas custa-lhe deixar tantos anos de estudo para trás.

Para exercer medicina, precisa de aprender português e conseguir nota positiva num exame numa língua que está ainda muito longe de dominar. “Gostava de poder servir Portugal. Este país precisa de médicos, mas não está disposto a dar uma oportunidade a alguém estrangeiro. Só pedia que me deixassem fazer o exame em inglês”, lamenta.

Kuljinder já começou a aprender português. Sozinho, à noite, vai fazendo exercícios na sala, depois do trabalho de integração enquanto guia para falantes de inglês no Museu do Tua. Na véspera, aprendeu as proposições. “Está bem!” é a expressão de que mais gosta. Mas o plano a médio e longo prazo não passa por Carrazeda de Ansiães.

“Nunca imaginei estar aqui. Se tivesse a oportunidade de voltar a Kiev, preferia voltar. Mas o país ainda vai precisar de muitos anos para se reerguer. Queremos ter os documentos prontos para ir para o Porto ou para outras cidades maiores. Para podermos ter uma vida melhor. Ou então deixamos Portugal e tentamos outro país mais a norte”. A mulher, Neha, arranjou trabalho a preparar as refeições de um alojamento. Mexe o anel, ansiosa, enquanto Kuljinder fala. Ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, terão de voltar a partir.

Quatro indianos partilham casa em Carrazeda de Ansiães. Foi a guerra na Ucrânia que os trouxe a Portugal