No dia em que Anastasiia chegou à escola, no Cacém, todos pararam. "É uma ucraniana! É uma ucraniana!"

No dia em que Anastasiia chegou à escola, no Cacém, todos pararam. "É uma ucraniana! É uma ucraniana!"

Reportagem Carolina Figueiredo

Vídeo Sofia Marvão

Texto editado por Teresa Abecasis

Anastasiia veio da Ucrânia há três meses, e frequenta uma escola portuguesa há apenas um. Não fala português nem inglês, mas a tecnologia ajuda a contornar a barreira da língua

O ginásio da escola enche-se com a azáfama de uma quinta-feira. Ténis derrapantes chiam pelo chão entre exclamações eufóricas. "Atira a bola!", "Aqui, aqui!". No centro, um grupo de raparigas passa uma bola de basquete entre si, num aquecimento ainda preguiçoso. Entre uma dezena de cabeças morenas, Anastasiia faz-se notar mesmo que não o queira: de sorriso tímido, olhos vacilantes entre os colegas e o chão, e uma farta cabeleira loira envolvida num rabo-de-cavalo, que baloiça enquanto gira a cabeça para acompanhar a trajetória da bola.

Anastasiia é, acima de tudo, observadora. Os olhos azuis arregalam-se na descoberta de um mundo que ainda não lhe pertence totalmente e esboça um sorriso rápido quando lhe dirigem a palavra, como uma barreira cordial que interpõe entre si e os demais. Prefere os cantos e procura não ser notada, mas é – é-o desde a manhã de maio em que caminhou pela primeira vez nos corredores da escola. A pele ebúrnea sobressai entre a tez morena dos portugueses. É mais alta do que a maioria dos colegas de treze anos, mas há algo mais. "No dia em que veio, todos pararam", confidencia um colega. "As pessoas apontavam e sussurravam: é uma ucraniana! É uma ucraniana!"

Não é a única ucraniana no Agrupamento de Escolas Agualva Mira Sintra, nem sequer a única na Escola Básica de D. Domingos Jardo. Mas é a única que não fala português nem inglês; na boca, no olhar, na postura, traz apenas a língua e a cultura maternas. Aprendeu a dizer "boa tarde" e "obrigada", mas não sabe como preencher o espaço entre os cumprimentos iniciais e finais. As lacunas vão sendo colmatadas com a tecnologia, numa ponte conversacional que só poderia acontecer no aqui e agora do século XXI. É simples: abre-se a aplicação do tradutor, ativa-se o microfone, e ergue-se o telemóvel até aos lábios. No ecrã, a frase ininteligível das colegas portuguesas passa a um ucraniano tão límpido quanto um mecanismo de tradução automática o permite. Quando responde, a língua ucraniana transfigura-se noutro alfabeto que não conhece, em conjugações de letras que não lhe são familiares, mas que fazem as colegas anuir com a cabeça em reconhecimento. Entendem-se. Com alguns segundos de demora e peripécias pelo caminho - "uma vez, ela quis dizer algo sobre o refeitório e o tradutor falou sobre estábulos", contam as colegas entre risos – mas entendem-se.

Da Ucrânia para o Cacém. Anastasiia não fala português nem inglês, mas faz amizades com a ajuda do telemóvel

A diretora de turma – e também professora de Educação Física, que supervisiona a aula pelo canto do olho enquanto fala – atesta a eficácia deste instrumento comunicacional improvável. As primeiras interações com a menina foram limitadas, reduzidas a algumas palavras essenciais em inglês e a gestos elucidativos. A natureza mais mimética da disciplina facilita a compreensão das instruções da professora (“vou fazendo à boa maneira portuguesa: com gestos”), mas pouco mais do que isso. Sobre a aluna, sabia apenas o nome e a origem. Na aula seguinte, um grupo de meninas reuniu-se em torno da professora e, numa tagarelice entusiasmada, partilhou o que tinha descoberto: o que a nova colega gostava de fazer nos tempos livres, as melhores amigas que deixara para trás, o irmão que estudava noutra escola do Agrupamento. Contara-o Anastasiia ao tradutor, e depois o tradutor às colegas. "São miúdos", comenta a professora, com um sorriso por detrás da máscara. "Têm uma grande abertura em relação a estas coisas".

Os colegas de turma acotovelam-se para falar sobre Anastasiia, mas são duas meninas em particular que acabam por assumir, algo acanhadas, ser as amigas mais próximas. Maria e Bianca falam num registo calmo, eloquente para a idade, e sobretudo cuidadoso – as palavras transbordam tanto de carinho como de respeito. Maria sorri, pigarreia, e atreve-se a falar primeiro. “Tentámos logo comunicar com ela”, diz, “mas não perguntámos muitas coisas para não ser incómodo”. E a sensibilidade estendeu-se aos tópicos de conversa, num esforço consciente para evitar as questões mais desconfortáveis. A diretora de turma já tinha recomendado, em privado: “não puxem muito por essa conversa, o que viu, o que terá passado; falem apenas sobre o que havia de bom na Ucrânia”. E as meninas delegaram os horrores da guerra para os ecrãs de televisão e manchetes de jornal. Nos intervalos das aulas, conheceram as ruas ucranianas ricas em catedrais e monumentos, exploraram uma gastronomia que vai muito para além do trigo, gargalharam como se também tivessem estado ali, com ela, debaixo do sol de uma Ucrânia ainda plácida.

As colegas conheceram Anastasiia, mas também lhe deram a conhecer a nova realidade que a agora a circunda. De telemóvel na mão, percorreram a escola e mostraram-lhe os sítios e termos que precisava de saber. Aqui é o refeitório, apontavam, aqui é a biblioteca, este é o sítio onde costumamos relaxar nos intervalos – o tradutor, aliado incansável, devolvia a Anastasiia a versão ucraniana da excursão. Era mais do que um plano de integração de uma nova colega. Era um intercâmbio linguístico, cultural, genuinamente interessado na reciprocidade. Maria e Bianca organizavam jogos com palavras em português, nos intervalos, para facilitar a memorização de alguma palavras-chave; em troca, aprenderam “sim” e “não” na língua da amiga. Pedem uns momentos de reflexão, recordando a pronúncia exata, e depois proclamam orgulhosamente, quase em uníssono: “Так! Ні!”

O acolhimento caloroso da turma de sétimo ano é “natural” para o diretor do Agrupamento, Luís Henriques, que se apressa a salientar o caráter multicultural destas escolas. “Temos alunos de 41 nacionalidades” – olha em redor para os rostos que espreitam pela janela em curiosidade e acenam – “temos já uma cultura de acolhimento de crianças e jovens de outras paragens”. Reconhece, contudo, que algo muito específico individualiza esta situação: Anastasiia não fala português nem inglês, claro, mas também é recém-chegada da Ucrânia. A Ucrânia sofrida que desafia a localização geográfica e irrompe pelas casas de todo o mundo num misto de suplício e resistência. “Não tenho dúvidas de que as notícias que entram pelas nossas casas, todos os dias, tenham feito com que estejamos todos mais sensíveis a esta realidade”, admite.

E as crianças concordam. Maria vê as notícias todos os dias e “já sabia que era grave”, mas a chegada de Anastasiia aproximou-a do cenário da televisão. “Fico mais triste e com pena, dela e de toda a gente que está a passar pela mesma situação”. Agora, conhecem-na como Anastasiia, mas aquando da chegada era “a ucraniana” – o rosto coletivo do sofrimento. E, ainda agora, conhecer Anastasiia é empatizar também com todos aqueles que experienciaram a dor de perder um lar. “Ter de sair do país, adaptar-se a novos sítios, a novas línguas, a novas comidas… É realmente tudo novo”.

Bianca envereda pela sinceridade: confessa que não costumava ver muitas notícias e tentava “não prestar muita atenção”, talvez num esforço para se proteger da realidade dramática que acontece noutro canto da Europa. “Desde que ela veio para cá, presto mais atenção a isso”. É inevitável. Nas primeiras semanas, Anastasiia sobressaltava-se com os sons do quotidiano português. O mero “ambiente da escola, um barulho mais forte” faziam-na estremecer; um avião rasgava o céu e Anastasiia encolhia-se e cobria os ouvidos com as mãos. Agora “já se soltou mais”, afirmam as amigas, depois de um mês de jogos interativos e conversas mediadas pelo telemóvel. Ainda olha em redor, por vezes, e estremece perante um ruído mais inusitado. As colegas compreendem e nada dizem; cumprem as indicações da professora e perguntam apenas sobre a Ucrânia anterior à guerra. O que aconteceu depois de 24 de fevereiro, Anastasiia partilhará por vontade própria, um dia, quem sabe. Por enquanto, a voz robótica do tradutor relata apenas memórias sorridentes.

No dia 24 de fevereiro, Anastasiia tinha presença marcada numa competição de dança em Kiev. É apaixonada por dança desde os cinco anos, e pratica-a como mais do que um mero passatempo. Pertence (“pertencia”, corrige a tia, detendo-se subitamente a meio do discurso) a um grupo de dançarinas com um registo eclético, maioritariamente incidindo no hiphop mas que ousava também aventurar-se em territórios mais exóticos como danças indianas modernas. Naquela quinta-feira, estava previsto partirem às 7:00 da manhã para Kiev – havia autocarros agendados, meninas ansiosas a refinar os passos de dança, um palco que não chegou a ser estreado. Às 4:00 da manhã, eclodiu a guerra.

“Estava tudo preparado, mas ficou em casa”, suspira Inna, a tia, unindo as palmas das mãos em gratidão. “Muito bem. Ainda bem”. Pede desculpa vezes sem conta pelo sotaque forte, mas todas as palavras que profere são compreensíveis. O significado, a dor, a hesitação. Não quer falar de Putin, diz a certa altura com uma gargalhada tensa, mas não é necessário. É Anastasiia a protagonista. Uma funcionária abre uma sala de aula vazia e permite que tia e sobrinha entrem, longe do bulício do ginásio e dos alunos curiosos que se acumulam no exterior. Transpõe-se a porta e, por fim, algum silêncio. Enquanto cadeiras e mesas são reorganizadas para que a entrevista prossiga, Anastasiia entretém-se e vai até ao quadro. Desenha um coração a giz, e observa-o cuidadosamente. Depois, enche-o de três palavras. Все буде Україна. Tudo será Ucrânia.

A tia, em Portugal há cinco anos, vai contando a jornada de Anastasiia, desde casa até ao Cacém. Usa os dedos para desenhar um mapa imaginário da Ucrânia na secretária, apontando em várias direções – aqui é Kiev, aqui é Donetsk, portanto aqui é onde ela vivia. Descreve o local sem o nomear: é mais calmo, não é como as zonas mais assoladas pela guerra, mas também não é uma zona pacífica. Nenhuma é, na Ucrânia que sucedeu ao fim de fevereiro. “Dissemos logo: venham para cá, nós compramos o bilhete de avião, porque não sabemos o que há depois”. Volvidos mais de cem dias de guerra, o balanço é tão incerto como no início. “Não há coisas melhores” nem previsão de regresso, diz Inna com a voz trémula. “A Ucrânia está toda muito mal”.

Anastasiia veio para Portugal em março, com a mãe e o irmão mais novo. Nenhum sabia inglês, e muito menos português. Tinham passado uns dias neste canto ocidental há três anos, numa visita à tia Inna, e nunca imaginaram ter de regressar para ficar. No seio familiar, é Inna o tradutor e a força conetora dos oito membros que residem na mesma casa, pequena mas a transbordar de amor. “Somos oito”, repete, abrindo a palma da mão para contar os familiares. “Eu, o tio, o nosso filho, os avós, a Anastasiia, a mãe, o irmão”. Há uma quebra na frase, como se algo tivesse ficado pendente. O pai ficou para trás, como é esperado de todos os homens ucranianos. Anastasiia percebe um pouco de português (“já vai percebendo, sim, não consegue é falar”) e talvez seja por isso que a tia desce o tom de voz até um murmúrio. “Nunca tinham estado separados”, conta, olhando com ternura para a sobrinha que parece pressentir – ou compreender – o teor da conversa. “A nossa família está lá, deixámos lá, não podemos visitar”, prossegue Inna, num desabafo que agora se estende a todos os que ficaram para trás. “Temos família em Kiev, onde está pior. É muito difícil, tudo…” As lágrimas começam a correr antes de conseguir levar as mãos aos olhos para as secar, como se a tivessem surpreendido a si própria.

De olhar consternado, Anastasiia procura os dedos da tia e entrelaça-os nos seus, antes de se envolverem num abraço silencioso. Talvez tenha percebido o que a tia estava a dizer; talvez não tenha percebido e quisesse apenas tranquilizá-la. Mas abraçam-se por instantes, até Inna respirar fundo e pedir desculpa novamente – não tanto aos entrevistadores, mas à menina de treze anos que perscruta o seu rosto ansiosamente e procura por sinais de que está tudo bem, não há motivo para preocupações. Qual era a próxima pergunta, mesmo? Abandonamos a Ucrânia desolada e regressamos às instalações escolares.

Anastasiia concluiu o ano letivo em ucraniano pela Internet, tal como o resto da turma, agora espalhada pela Europa. Tem uma amiga na Itália, outra na Suíça; algumas já voltaram à Ucrânia. O grupo de dança reuniu-se, embora com menos membros, e continua a participar em festivais, desta vez para angariar dinheiro para as forças militares ucranianas. Vão contando o dia a dia umas às outras, através das redes sociais, em diferentes fusos horários e ainda a ganhar o gosto às línguas, culturas e paladares dos países a que têm de chamar casa.

Terminados os estudos online, a família procurou escolas portuguesas que ainda dispusessem de vagas no terceiro período. Como? Mais uma vez, a tecnologia desempenha um papel fulcral: “Google, Google Maps, Internet”. As manhãs de segunda a sexta-feira passaram a ser ocupadas na escola D. Domingos Jardo – e “ainda bem”. Uma casa pequena transmite segurança e conforto, como nas ilustrações dos contos de fada, mas também impede que Anastasiia se atreva a conhecer o mundo lá fora, entre as caras e vozes desconhecidas. “É bom, porque sai do ambiente familiar e insere-se na cultura portuguesa”, explica Inna, enfatizando: “e na escola é muito bem-recebida e acolhida”.

Os primeiros dias foram complicados, como seria expetável. “Ela estava muito nervosa e também chateada, porque não percebia nada”. A frustração da barreira linguística foi sendo desmoronada com recurso ao tradutor e à paciência das novas colegas, que fazem questão de a incluir nas conversas em português. “Todos os dias volta para casa feliz e quer ir para a escola, não quer estudar em casa”. Inna pergunta algo em ucraniano a Anastasiia, que riposta e anui com veemência a cabeça. “Sim, sim”, ri-se a tia. “Gosta muito das colegas”.

Anastasiia desenhou um coração enorme no quadro da escola. No centro escreveu: "Tudo será Ucrânia"

Os professores também facilitaram o processo de ambientação, disponibilizando todos os materiais e documentos explicativos na internet – depois, basta usar o tradutor e ler na língua materna. O sucesso da estratégia é variável. Há disciplinas, como o português e o francês, que está a estudar pela primeira vez por serem totalmente estranhas ao currículo ucraniano; outras, como Físico-Química, vêm a tradução dificultada por se tratarem de ciências mais exatas, de nomes técnicos impronunciáveis. As amigas Maria e Bianca já tinham segredado, num tom coloquial caraterístico da adolescência, que “às vezes nas aulas ela apanha grandes secas, porque não percebe nada”. Mas terá sucesso, claro que terá sucesso. “É uma miúda jovem”, diz a tia, “é tudo mais fácil, precisa de menos tempo para aprender”. Inna preferiu aprender português através da socialização com os colegas de trabalho, e o curso de português da mãe de Anastasiia está a revelar-se mais árduo do que o previsto. Tudo na língua ucraniana é diferente, desde a pronúncia a “letras, alfabeto, tudo.” O português aproxima-se mais do inglês neste aspeto, “mas nem inglês a mãe sabe”.

A semana escolar de Anastasiia não termina à sexta-feira. Todos os sábados, estuda a língua nativa numa escola ucraniana no Cacém, materializada como uma pequena bolha cultural homogénea em que tanto professores como alunos partilham a mesma língua e origem. Aqui, é a língua portuguesa que é a estrangeira, remetida para lá do portão. No próximo ano, poderá vir a estudar numa escola ucraniana, prosseguir os estudos na D. Domingos Jardo, “ou podemos voltar para casa, não sabemos nada”. Por enquanto, Anastasiia habitua-se à rotina dividida entre dois mundos e compreende que “agora com a guerra” – e apesar das saudades de casa – “é melhor ficar a viver cá”. Os professores vão ajudando, com telefonemas frequentes à família Savitska a indicar a matéria a estudar e a prontificar-se a solucionar quaisquer dificuldades. “Por mensagem é ainda melhor”, ri-se Inna, “porque se não percebermos temos a ajuda do tradutor”.

E é através do tradutor que Anastasiia fala pela primeira vez, atrevendo-se a contar por si mesma a história da sua vida. Antes de segurar o telemóvel, tinha apenas sussurrado umas palavras ao ouvido da tia e depois ouvido a tradução em português, de olhos fixos no chão, posicionando melhor os óculos, como se aquelas palavras não lhe pertencessem. Na Ucrânia “era mais extrovertida, faladora”, mas os vestígios da guerra ainda amarrados ao corpo ditaram que adotasse uma postura mais tímida e se “fechasse” em si mesma, num casulo protetor. Quando questionada se se sente diferente do resto da turma, Anastasiia eleva o telemóvel até aos lábios e fala, finalmente, com convicção. Segundos depois, o ecrã transmite uma frase num português constrangido. “Não sinto, mas elas são muito amigáveis”. Fala das amigas da turma, que a acolheram como se não existisse qualquer barreira idiomática. Não é diferente. É apenas mais uma aluna, inserida num grupo de amigas.

O tradutor é, para Anastasiia, uma ferramenta de liberdade. A voz anima-se, num discurso mais confiante, enquanto revela ao tradutor os seus passatempos preferidos. Olha em frente e não para os entrevistadores, como se a comunicação fosse entre si e o dispositivo, e a voz maquinal repete as palavras em português. Gosta de tricotar e de dançar, embora não tenha ainda conseguido encontrar um grupo de dança em Portugal. Aqui, “encontrei o basquete”. A sentimentalidade do verbo “encontrar”, em jeito de desígnio do destino, pode constar da sua frase original ou ser uma inovação do tradutor. Não importa.

Conta que o irmão de sete anos, Dmytro, também está a estudar no agrupamento. Integrou-se bem, tal como a irmã, e no primeiro dia já tinha amigos – a tia intervém, bem-humorada, e acrescenta, “ou melhor, amigas”. Sempre que o vai pôr ou buscar à escola, ouve-se um coro de raparigas: “Olá, Dmytro! Adeus, Dmytro!” Anastasiia e Inna riem-se e comentam – metade com recurso ao tradutor, metade numa conversa espontânea entre ambas – que os loiros com olhos azuis fazem sucesso entre os portugueses, mais habituados aos tons de castanho. “É um visual diferente”, admitem, mas não é só por isso que os portugueses são simpáticos. Os risos esmorecem para um tom mais sério quando Inna comenta que “as pessoas portuguesas têm os corações abertos, ainda mais depois da guerra”. Reconhecem-na como ucraniana, provavelmente pela língua, e abordam-na no meio das ruas, nos centros comerciais, nas escolas: não importa onde, “vêm falar e perguntam se está tudo bem”. Dizem que gostam “da Ucrânia, dos ucranianos”, e deixam palavras encorajadoras. Há também quem tenha a reação contrária e acuse a Ucrânia de iniciar a guerra, mas Inna garante não responder a provocações. “Digo: não quero falar mais nada”, afirma, abanando os braços diante do rosto. “Vá ver televisão, ler notícias”.

Lá fora, um verão antecipado começa a tingir de dourado as fachadas dos pavilhões escolares. Anastasiia diz pelo tradutor: “gosto do calor e da praia, mas é difícil”. A tia esclarece que o sol “queima demasiado, é muito calor, basta sair a qualquer sítio e quando volta para casa está vermelha”. Chegou a Portugal em março, quando a seca extrema foi interrompida por um breve dilúvio, mas o mês de maio trouxe um sol mais abrasador do que Anastasiia alguma vez conhecera na Ucrânia. Em casa, as temperaturas máximas nunca ultrapassam os 30 graus e o calor perdura por “dois ou três meses”; aqui, os primeiros dias de aulas resultaram num escaldão e na aquisição urgente de protetor solar e chapéu. “Ela é muito branquinha, a nossa pele não está habituada”, diz Inna, afagando o braço da sobrinha. “Primeiro ficamos vermelhos, e depois começamos também a… como se diz?” Gesticula, tentando ilustrar a palavra, mas depois recorre ao tradutor. Escamar.

Inna e Anastasiia preparam-se para abandonar a sala de aula. A tia leva as mãos ao coração e agradece a generosidade dos portugueses, a oportunidade de contar a história, e Anastasiia diz algo em ucraniano. Uma fotografia!, explica a tia. Eterniza-se o momento. Despedem-se e repetem “boa tardes” e “obrigadas” até saírem e a porta cerrar. Pela janela, vêem-se Inna e Anastasiia a caminhar pela escola agora já mais vazia, tranquila, cobertas por um manto de sol. Anastasiia detém-se por momentos e olha para cima. O azul do céu, o amarelo do sol. Cores que dispensam tradução. Sorri e continua a andar.