O meu pé de nêspera

O meu pé de nêspera

Reportagem Helena Lins

Repórter de imagem Nuno Quá

Edição de imagem Carlota Paim

Eu ainda preferia o pé de laranja lima.
Dali do alto eu me sentia maior que o mundo.

O autor brasileiro José Mauro de Vasconcelos escreveu sobre Zezé, um menino emotivo e traquina que tinha um pé de laranja lima. Do outro lado do oceano, em Portugal, Serhii Teleshyk descobriu um pé de nêspera e a sua vida também dava um livro.

Viveu em Izyum e depois em Kharkiv. “Eu ia à escola, estudava. Depois da escola, às vezes passeava, às vezes ia logo para casa... E de repente, às 5 da manhã, acordo e as janelas estão a tremer. Assim começou a guerra”, relembra Serhii.

Fugiu com a mãe. Primeiro a pé porque os táxis são caros em tempos de guerra.  Custava 7 mil grívnia”, o que equivale mais ou menos a 230 euros. Depois, horas a fio, no frio, à espera do comboio. “Quando o comboio chegou houve dificuldades mas seja como for, partimos. Havia muitas pessoas, uma multidão”. O medo acompanhou-o até conseguir sair da Ucrânia. “A cada minuto caiam bombas. Muito raramente havia um momento de tranquilidade. Havia sempre muito barulho”.

Mãe e filho foram acolhidos por uma família portuguesa. “Aqui sinto-me tranquilo e seguro”. O sorriso confirma. Em algumas semanas foi inscrito na Escola Secundária de Miraflores que ao final de dois meses já sente como sua. “Senti a partir da terceira semana. Nos primeiros dias o que me surpreendeu foi que comecei a fazer logo amigos. Estava emocionado”.

Conquistou colegas, professores e auxiliares. Cada vez que começa a trepar o seu pé de nêspera preferido, aparece a Dona Paula a mandá-lo descer. Diz que não pode, que vai ficar sujo. Serhii responde com a mão estendida, oferecendo-lhe uma nêspera. Na Ucrânia não existe este fruto, conta. No supermercado há, são até maiores, mas não sabem a nada, acrescenta. Saborosas mesmo, são estas, da escola. E há umas semanas, a Dona Paula ofereceu-lhe um saco cheio.

"Nos primeiros dias comecei logo a fazer amigos". Começaram o ano letivo na Ucrânia e acabaram as aulas em Portugal: os alunos ucranianos que fugiram da guerra

A língua é a principal barreira na integração e aos 15 anos Serhii tem consciência disso. “Aqui é difícil para mim porque não sei português. Esse é o ponto mais negativo.” Mas estudas português? “Estudo, estudo, estudo, estudo”, responde apressado e com um ar malandro, “cada coisa a seu tempo”. É difícil? “É um pouco difícil mas não muito... Em um ano e meio espero aprender”.

Para lá chegar, a disciplina de Português Língua Não Materna é essencial. Já existia antes da chegada dos refugiados ucranianos e destina-se a todos os alunos estrangeiros que não dominem a língua portuguesa. Nesta escola, ucranianos, bengalis, moldavos, indianos e chineses apoiam-se mutuamente nesta primeira fase de integração.

Para a coordenadora de Português Língua Não Materna, o maior desafio superado está mais relacionado com a comunidade escolar do que propriamente com os alunos recém chegados. “Os professores começaram a ver estes alunos de forma diferente e a tentar chegar a eles de todas as maneiras”, diz Palmira Oliveira.

“O que me surpreendeu mais foi quando o professor de Informática, chama-se Ricardo, professor Ricardo, pediu à diretora um portátil para mim. Isso para mim não é comum”, partilha Serhii.

Casa nova, vida nova. E esperanças simples, simples esperanças.
A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.

Tal como Zezé de Meu Pé de Laranja Lima, a vida ensinou cedo demais a estas crianças o que é a dor. Yehor Nikitin tem 16 anos. Veio de Severodonestsk, uma cidade arrasada na província de Lugansk. “Estou a começar do zero. Novas relações, novas pessoas, novos lugares para viver, novos amigos, tudo novo. Aqui nem sei, tudo é diferente. Tudo é novo outra vez. Não no mau sentido... Aqui é melhor, diria.”

Quem o viu nos primeiros dias na escola fala de um rapaz assustado. Tanto que decidiram colocá-lo numa turma de 9.º ano onde já havia um colega ucraniano para o acompanhar, apesar de Yehor estar um ano à frente na Ucrânia.

Nesta primeira fase de integração, estes alunos frequentam apenas disciplinas mais práticas como Educação Física, Educação Visual e outras que não requerem o domínio da língua portuguesa. Mas Yehor pediu para assistir às aulas de Matemática do 10.º ano. Afinal, não precisa do português para entender os números e pode sempre contar com a ajuda de uma colega portuguesa que traduz para inglês quando é necessário.

Quer ser contabilista, ou algo relacionado com economia. “Na Ucrânia até já tinha planeado qual a universidade para onde gostava de ir, qual a faculdade que eu queria, mas já não há universidade. Bombardearam-na. Em Kharkiv.” Esforça-se agora por aprender português. Talvez isso lhe permita estudar numa universidade portuguesa.

“Nós viemos para Portugal porque tivemos muita sorte. Tivemos mesmo muita sorte, a minha família, porque o meu pai veio para cá numa viagem de trabalho um mês antes [da guerra]. Eles chegou no início de Fevereiro” e nunca mais voltou para a Ucrânia.

A mulher e o filho juntaram-se mais tarde. Tiveram que entrar na Rússia e sair pela Letónia, foi o mais assustador. “Viajámos por ali onde disparavam, íamos directamente na direcção dos combates. Nós tentámos contornar um pouco, claro, mas até agora eu lembro-me como estávamos a atravessar uma aldeia e passaram quarenta carros com lançadores de mísseis. Na direcção da nossa cidade. Assim. Quarenta carros de mísseis. E o que sobra da cidade? Não sabemos.”, suspira com os olhos aguados.

A guerra vai marcar-te para sempre? “Sim. Isso marca muito, é o que fica na memória”, diz enxugando os olhos.

A vida sem ternura não é lá grande coisa.

Serhii, Yehor e Maksim são apenas três dos dez alunos refugiados ucranianos a estudar no Agrupamento de Escolas de Miraflores. No total, 4600 crianças ucranianas foram inscritas no sistema educativo português desde o início da invasão. Estiveram apenas alguns meses nas escolas. Passou pouco tempo para avaliar a integração destes alunos, mas onde há empatia, afecto e vontade há meio caminho andado.

Yehor destaca a relação com os professores como uma das principais diferenças em relação à escola na Ucrânia. Para Maksim Maystruk, os colegas portugueses são mais amigáveis.

Maksim tem 15 anos e vivia na região de Kiev, “a 15 km de Bucha, Irpin, Hostomel, tudo isso”. Saiu no período mais agitado. Lembra-se dos postos de controlo e das horas intermináveis na estrada. Demorou dois dias a chegar à fronteira com a Polónia. No primeiro dia, a família viajou mais de 12 horas.

Gosta da escola na Ucrânia e da escola em Portugal, “mas aqui a escola é melhor”. Fala com os professores e colegas em inglês e um pouco em português. Percebes tudo? “Sim, percebo tudo. Quando há palavras que não percebo, uso o tradutor”. É difícil a escola aqui em Portugal? “Não. Na Ucrânia é mais difícil”.

Ainda assim, como muitas outras crianças ucranianas que fugiram da guerra, Maksim conciliou a escola ucraniana disponível online com a portuguesa. “Como eu andava nesta escola, não assisti às aulas online, mas fiz os testes, todos os trabalhos de casa”.

Esforçados, desenrascados e com um espírito de resiliência que começa a ser característico dos ucranianos, estes adolescentes vão encontrando formas de se integrar numa nova realidade. Seja por gestos, um sorriso rasgado, ou através da linguagem universal da matemática... vale quase tudo. Como sempre, mas talvez ainda mais nesta situação, os professores, auxiliares e colegas fazem toda a diferença. E assim, Portugal começa a ser também um pouco casa.

Queres voltar à Ucrânia? “Sim, quero voltar mas também quero ficar. Sentimentos contraditórios”.

 

 

Texto com excertos de "Meu Pé de Laranja Lima" de José Mauro de Vasconcelos