"1974, ANO DA ESPERANÇA". Como um artista desenhou a Revolução muito antes dela acontecer

"1974, ANO DA ESPERANÇA". Como um artista desenhou a Revolução muito antes dela acontecer

Com o testemunho de Alberto Arons de Carvalho, Carlos Albino e José Jorge Letria, antigos redatores do jornal República, Paulo Mendes Pinto, professor académico, e Maria João Bual, a filha do pintor.

REPORTAGEM 
JOAQUIM FRANCO

FOTOGRAFIA 
JOAQUIM FRANCO

Suplemento de fim de ano, jornal República, 31 de dezembro de 1973

Estávamos em 31 de dezembro de 1973, a quatro meses da revolução. O jornal República, que congregava uma elite cultural contra o regime, oferecia a capa do suplemento de fim de ano à intuitiva obra de Artur Bual. “Ao mudar a folha do calendário”, publicava “um desenho” do “grande artista” e expoente da arte contemporânea. “A esperança” não podia “permanecer eternamente”, explicava uma nota editorial assinada por Álvaro Guerra. Seria o leitor “capaz de imprimir um pouc mais de firmeza aos passos a dar” no novo ano? 

Primeira página do jornal República, 31 de dezembro de 1973

Foi atribulado o percurso do misterioso “desenho”. Para passar na censura, que recusara a publicação uma primeira vez, Bual inseriu pequenos elementos gráficos de um ingénuo quotidiano – um comboio, um automóvel, uma casa, o nome da filha e da esposa, a inscrição “viva o Benfica”... –, uma subtileza que permitiu depois a leitura mais condescendente dos censores. 

Pormenor de “1974, ANO DA ESPERANÇA”, obra de Artur Bual em 1973

Artur Bual cultivava a resistência ideológica com cumplicidades empenhadas em dar cor, traço e palavra simbólica ao desejo de liberdade. Eram discretas, mas impactantes, as tertúlias no atelier, por onde passavam grandes vultos das artes, da política, da literatura. Ali sintonizavam vontades, interpretavam sinais e definiam modos.

Referência na pintura gestual, expressivo nos tons quentes e nos contrastes frios, Bual não prescindia da linguagem monocromática. A preto e branco, “1974, ANO DA ESPERANÇA” tinha elementos de aparente inspiração esotérica, podendo ser entendidos na relação de amizade entre o pintor e Raúl Rego, então diretor do República.

Versão final de “1974, ANO DA ESPERANÇA”, de Artur Bual

Quem é o homem que aparenta sair hesitante da escuridão? Um agente da censura? Alguém com curiosidade? Um povo com medo de avançar, de sair das trevas? Um mero acaso de inspiração momentânea? Uma projeção do próprio autor? E a flor frágil que sobe da raiz ao sol? E que sol é aquele?

Depois de publicado no República, “1974, ANO DA ESPERANÇA” seria ligeiramente alterado pelo artista. O sol original, parcialmente eclipsado, como luz por desvelar, com dois reflexos e dezenas de raios em risco simples, passou a ter fulgor. Os raios solares ganharam corpo, outras formas, e foram retirados alguns dos elementos gráficos que despistaram a censura, como o comboio, o automóvel ou a inscrição “viva o Benfica”, posteriormente reintroduzida a lápis. O homem na escuridão permaneceu, assim como a mensagem visionária.  

 

Bual pouco disse sobre a obra que antecipou abril de 74 em dezembro de 73. A versão final acaba de ser replicada em serigrafia, numa iniciativa da Câmara Municipal da Amadora, cidade onde o pintor viveu e morreu em 1999, levando, na intuição do traço e na imersão das tertúlias, o enigma de “1974, ANO DA ESPERANÇA”.

Produção da serigrafia de “1974, ANO DA ESPERANÇA”

Scroll top