ANÁLISE | Donald Trump está a usar a guerra na Ucrânia para reeditar uma das jogadas mais icónicas da diplomacia americana. Só que o mundo mudou bastante
A ideia não é nova. Há 50 anos, o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger fazia uma viagem secreta a Pequim que viria a mudar o mundo. O objetivo? Abrir as portas à China e isolar diplomaticamente o grande rival, a União Soviética.
Agora a administração de Donald Trump quer replicar a ideia mas troca as portas que abre: está a utilizar as negociações de paz na Ucrânia para fazer concessões à Rússia que até há poucos meses seriam impensáveis. Objetivo: afastar o Kremlin da China. Só que o mundo mudou e, para os especialistas, esta manobra pode estar condenada a falhar e corre o risco de deixar o ocidente fragilizado.
"Não me parece realista que os Estados Unidos consigam quebrar a ligação entre Moscovo e Pequim. A China é absolutamente vital para a Rússia e foi a potência que permitiu ao Kremlin fazer a guerra na Ucrânia. Hoje há um encontro ideológico e há o objetivo de destronar os EUA. A Rússia vai tentar aproveitar e tirar todas as vantagens possíveis para depois abandoná-los", defende Diana Soller, especialista em Relações Internacionais.
Ainda as negociações para um cessar-fogo na Ucrânia não tinham formalmente começado e já os Estados Unidos enumeravam concessões que a Ucrânia teria de fazer - e fizeram-no sem exigir nada em retorno à Rússia. A mudança de posição norte-americana valeu a Trump os elogios de Vladimir Putin mas não trouxe qualquer cedência do outro lado. O processo levou vários analistas a questionar se o presidente norte-americano estava focado em obter uma "paz justa" na Ucrânia ou se, na verdade, teria outros planos.
Só que o presidente dos EUA nunca escondeu a sua verdadeira estratégia. Um mês antes de ser reeleito presidente dos EUA, Donald Trump confessou ao comentador político Tucker Carlson que não olha para a Rússia como uma ameaça. Para o antigo magnata do imobiliário, o verdadeiro perigo está na China, que, apoiada pela Rússia, pode tornar-se imparável. "Se há uma coisa que não queremos ver acontecer é ter a Rússia e a China unidas. Bem, eu vou ter de 'desuni-los' e eu penso que consigo fazê-lo", disse Trump.
Tal como Richard Nixon procurou trabalhar com Pequim para isolar a União Soviética, Donald Trump quer cooperar com Moscovo para criar os alicerces de uma relação que lhe permita afastar o Kremlin e respetivos recursos da órbita da China. O líder norte-americano abriu inclusivamente a possibilidade para a cooperação económica entre os EUA e a Rússia, de forma a que ambos os países beneficiem de uma relação económica conjunta.
"Trump é guiado pelos instintos empresariais e acredita que a Rússia concordaria em fazer concessões estratégicas em troca de ganhos económicos significativos. No entanto, se é disso que os responsáveis americanos estão à espera, então estão profundamente enganados. Putin estava pronto para sacrificar o desenvolvimento económico da Rússia no altar das suas ambições geopolíticas quando lançou a invasão de grande escala na Ucrânia", defende Temur Umarov, investigador do Carnegie Russia Eurasia Center.
Só que não são as mesmas as condições que permitiram ao então secretário de Estado Henry Kissinger celebrar um acordo histórico com o Partido Comunista chinês. Quando Kissinger visitou Pequim em segredo para se encontrar com o primeiro-ministro, as relações entre a China e a União Soviética atravessavam um período bastante débil. Três anos antes, os dois lados travaram uma guerra junto à fronteira e as animosidades permaneciam elevadas. Hoje, a relação entre os dois países é bastante diferente - a Rússia e a China partilham um objetivo em comum: acabar com a hegemonia norte-americana.
"Com o regresso de Trump ao poder, os EUA perceberam que o seu grande inimigo não é a Rússia, é a China. Só que a Rússia e a China têm um inimigo em comum que é a ordem liberal, liderada pelos Estados Unidos. Estes dois países têm uma parceria especial precisamente porque perceberam que a melhor forma de colocar um fim à hegemonia americana passava pela formação de um bloco", explica o especialista em Relações Internacionais José Filipe Pinto.
E essa parceria tornou-se ainda mais forte com o início da guerra na Ucrânia. A Federação Russa, sufocada pela maior lista de sanções da História, encontrou na China um parceiro fiável que lhe ofereceu uma oportunidade única para continuar a ter acesso ao mercado mundial, tanto para comprar como para vender as suas matérias-primas. O comércio entre os dois países atingiu um valor recorde em 2024 de 226,64 mil milhões de euros. Ao todo, o comércio com a China representa 33% de todo o comércio externo russo em 2024. Este valor é bastante superior aos 33,79 mil milhões registados entre Moscovo e Washington em 2021, antes da invasão russa da Ucrânia.
A China é particularmente importante para a Rússia no que toca à compra de matérias-primas, particularmente do seu setor energético, que é uma das áreas mais sancionadas pelos países ocidentais. Após a invasão da Ucrânia, a Rússia perdeu cerca de 150 mil milhões de metros cúbicos por ano de exportações de gás para a Europa e a China surgiu como mercado alternativo estável. Os Estados Unidos acenaram ao Kremlin com promessas de mais investimento mas, no final do dia, os gasodutos russos não ligam os dois países.
Pequim, por outro lado, tem intensificado a parceria com a Rússia. Após a invasão da Ucrânia, os dois países aceleraram a expansão do gasoduto Power of Siberia, ligando o campo de Kovykta. O projeto foi concluído em dezembro de 2024, sete meses antes do previsto, e fornece 38 mil milhões de metros cúbicos por ano, o equivalente a 9% do consumo de gás natural chinês. Os dois países não vão ficar por aqui e anunciaram a construção do Power of Siberia 2 numa nova rota, através da Mongólia, para entregar mais 45 mil milhões de metros cúbicos por ano à China.
"Como exportador de petróleo e gás sob as políticas da era Trump, os EUA têm pouca necessidade dos recursos energéticos russos. Washington também não vai comprar armas russas, outro pilar fundamental da economia russa", escreve o dissidente chinês Jianli Yang.
Além disso, a cooperação económica entre a China e Putin já se vinha a acentuar com iniciativas como "Uma Faixa, Uma Rota", através da qual Pequim ofereceu a Moscovo importantes investimentos em linhas ferroviárias, pontes, portos estratégicos na "Rota da Seda Polar" e em projetos de gás natural liquefeito. A iniciativa aprofundou significativamente a interdependência entre os dois países e levou o presidente chinês, Xi Jinping, a descrever as relações como estando "no seu melhor momento da História".
Ao contrário daquilo que se passava no mundo quando Kissinger embarcou em segredo num avião rumo a Pequim para assinar um acordo que viria a mudar o rumo da Humanidade, hoje os objetivos estratégicos da Rússia e da China estão muito mais alinhados que no passado. Mais do que a ideologia que os aproximava, hoje as duas nações estão a emergir no panorama global e querem desafiar as instituições globais lideradas pelos EUA e colocar em causa uma das principais armas de Washington no mundo: o domínio do dólar.
O facto de 58% das reservas cambiais globais e aproximadamente 88% das transações internacionais serem feitas em dólares, de acordo com o Fundo Monetário Internacional, dá aos norte-americanos o poder de bloquear o acesso ao sistema financeiro mundial. A Rússia sentiu na pele a força do dólar americano logo após a invasão da Ucrânia, quando os EUA impuseram sanções de forma unilateral, excluindo Moscovo do SWIFT e proibiram importações de petróleo em dólares. Além disso, o status de reserva cria uma procura constante de dólares e títulos do tesouro, permitindo aos EUA financiar déficits fiscais com taxas de juro baixas. Isto dá aos EUA acesso a recursos financeiros para sustentar guerras económicas prolongadas.
E para Pequim e Moscovo isso é uma forte ameaça que tem de ser contrariada. Desde 2022, o discurso em torno da "desdolarização" tem-se intensificado, particularmente entre os países que formam os BRICS, que anunciaram numa cimeira em 2024 a criação de um sistema de pagamento descentralizado para pagamentos internacionais em moedas nacionais como alternativa ao SWIFT e que reduz a exposição destes países a sanções. Apesar do entusiasmo no anúncio, alguns especialistas alertam que a criação de um sistema credível alternativo ao dólar é algo que pode demorar muitos anos. Ainda assim, os dois países demonstram estar unidos em fazer isso acontecer.
Jianli Yang acredita que a ideia de fazer "um Kissinger ao contrário" e alinhar os Estados Unidos com a Rússia para contrabalançar a China é "fundamentalmente errada" e "carece dos fundamentos geopolíticos, económicos e estratégicos" para ser bem-sucedida. Yang acredita que, mesmo que os EUA "estendessem um braço", dificilmente a Rússia arriscaria colocar em causa a sua "relação estável e mutuamente benéfica" com a China, em troca de uma "aliança incerta" com um rival histórico.
"Mesmo que os EUA conseguissem melhorar as relações com a Rússia, esperar que Moscovo contrabalançasse ativamente Pequim é irrealista. Os objetivos estratégicos a longo prazo da Rússia estão mais próximos dos da China que dos dos Estados Unidos. Ambas as nações partilham o interesse em desafiar as instituições globais lideradas pelos EUA e em reduzir a dependência do dólar como moeda de reserva", insiste Yang.