Até agora está a ser uma viagem falhada para o presidente norte-americano, que ouviu uma ameaça de Xi Jinping relativamente a Taiwan. Resta esperar que os negócios corram melhor
Minutos depois de os presidentes de China e Estados Unidos se cumprimentarem pela primeira vez em Pequim assistimos a algo "novo". Para Diana Soller, comentadora da CNN Portugal especialista em Relações Internacionais, Xi Jinping mostrou que "de alguma maneira a China sente-se suficientemente forte para fazer face aos Estados Unidos no campo de batalha, se necessário, se os Estados Unidos intervierem em Taiwan".
Uma posição que a especialista considera "pouco habitual num líder chinês", até porque lê o que aconteceu como "uma ameaça aos Estados Unidos”, deixando bem claro que “a questão de Taiwan é uma questão interna da China e se os Estados Unidos se intrometerem isso pode levar a um ambiente muito conflitual".
"Os vários relatos dizem que o termo que Xi Jinping usou para conflito [Armadilha de Tucídides] é um termo que não implica conflito armado, é um termo ambíguo", aponta Diana Soller, verificando sempre esse caráter de novidade na postura de Pequim.
Este alerta surgiu durante a reunião que durou cerca de duas horas em Pequim, onde não faltou um desfile militar e toda uma coreografia com crianças que deixou Donald Trump encantado. "Xi Jinping diz que a China está disponível para combater e morrer porque Taiwan é um interesse central do Estado chinês", reforça major-general Jorge Saramago.
“A questão de Taiwan é uma questão que é muito importante para os dois países", explica Diana Soller. "É um problema que existe desde os anos 50. A revolução chinesa comunista, que tomou conta da mainland da China, da grande China, criou um conjunto de refugiados, seguidores de Chiang Kai-shek - que perdeu a guerra civil -, que quiseram manter um Estado não comunista e fizeram-no na ilha de Taiwan. E há no ideário da China esta ideia de que Taiwan tem de voltar à terra-mãe e que a China tudo fará para que Taiwan volte a fazer parte da China, por meios pacíficos, mas se isso não for possível, a China usará da força para reintegrar Taiwan.”
"Os Estados Unidos tiveram uma postura, desde Ronald Reagan pelo menos, que é chamada a política de ambiguidade relativamente a Taiwan", explica Diana Soller. "Os Estados Unidos optam por não encorajar a independência de Taiwan, que faz parte da China do ponto de vista jurídico, mas ao mesmo tempo tentam conter a China através de ameaças retóricas, da venda de armas a Taiwan, de uma fortíssima relação comercial com Taiwan, para que a China não tenha a tentação de reunificar Taiwan pela força. Esta estratégia de ambiguidade foi quebrada por Joe Biden, que disse taxativamente duas ou três vezes que interviria em Taiwan caso a China tentasse reunificar pela força. E isto que está a acontecer é Xi Jinping a perceber que Donald Trump pode não ter força suficiente para manter a posição coerciva de Biden."
"Na ótica da China, os EUA são um poder decadente e, portanto, Xi atreveu-se, digamos assim, a fazer uma coisa que não costuma fazer, que é tentar repelir os Estados Unidos do problema de Taiwan, o que provavelmente Trump fará", diz a comentadora, afirmando que seria "avisado" da parte de Trump manter a estratégia da ambiguidade.
"O recado está dado a Donald Trump, que terá de ser prudente no apoio que dá a Taiwan", conclui Jorge Saramago, "designadamente do ponto de vista militar, onde tem dois grandes projetos já acordados e financiados, um de 11 mil milhões e outro de 13 mil milhões, nos quais, sobretudo, os EUA dão a Taiwan os meios de precisão modernos para tornar muito cara uma invasão chinesa a Taiwan".
A pacificação desejada: "Os nossos países devem ser parceiros e não rivais"
Esta ambiguidade relativamente a Taiwan é um bom exemplo de toda a ambiguidade que envolve as relações diplomáticas entre EUA e China. "Os nossos países devem ser parceiros e não rivais" - esta é, até agora, a frase-chave do encontro entre o presidente norte-americano, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, afirma a comentadora da CNN Portugal Diana Soller. Os analistas já esperavam que esta fosse “uma cimeira de desanuviamento”.
Os Estados Unidos e a China “têm uma relação estruturante para as relações internacionais, mas têm uma relação muito tensa", afirma a especialista em relações internacionais. Essa tensão está presente na discursividade e nos documentos estratégicos de cada país. "Os Estados Unidos identificam a China como o seu maior desafio e o seu único desafio sistémico desde Barack Obama. O ponto máximo desta tensão foi a securitização que Donald Trump fez da China no primeiro mandato, acusando a China de ser a razão de todos os males nos Estados Unidos, inclusivamente do coronavírus, a que Trump chamava o vírus chinês", lembra Diana Soller. Essa tensão "manteve-se durante a administração Biden e crispou-se muito nas questões da Ucrânia e nas questões do Médio Oriente. Os Estados Unidos e a China têm claramente interesses diferentes nestes dois pontos do globo.”
Neste momento, “todos os membros da administração são anti-chineses", sublinha Diana Soller. "Os Estados Unidos consideram que a China é o segundo país mais poderoso do mundo, a seguir aos Estados Unidos, evidentemente. Do lado chinês vê-se exatamente a mesma coisa. Os documentos oficiais chineses, também desde mais ou menos 2010, dizem que o maior objetivo de política externa chinesa é acabar com a hegemonia norte-americana, ou seja, a China acha que os Estados Unidos têm demasiado poder e está empenhada com os seus parceiros em partir, em desgastar, em erudir o poder norte-americano.”
“E, portanto, nós temos aqui duas potências em conflito. Pode não ser conflito aberto, não é certamente conflito militar, mas há uma guerra tecnológica e há uma guerra comercial", afirma a comentadora.
“O que acontece nestas reuniões é que estes líderes se encontram para desanuviar a relação, para conversarem sobre os pontos mais prementes e onde há mais fricção na sua relação, para tentarem atenuar estes pontos, precisamente para que as suas relações possam correr de uma forma mais tranquila, menos perigosa, menos tendente ao conflito, mas a inimizade não desaparece. Os Estados Unidos e a China estão em trégua da guerra económica, mas estão em guerra na mesma.” Diana Soller sublinha que o que se viu esta quinta-feira foi “boa vontade de parte a parte”, a ideia de que os países devem ser parceiros e não rivais. “Há, evidentemente, espaço para a cooperação, ainda que haja inimizade" - e essa é certamente uma boa notícia para o mundo.
Economia: à procura de acordos em que todos ganhem
A especialista em assuntos internacionais Daniela Melo também não acredita que Donald Trump vá acabar com a ambiguidade estratégica. "Sabemos que é uma linha vermelha para os chineses: Taiwan é absolutamente essencial para os chineses", diz a comentadora da CNN Portugal. "Os americanos não querem perder qualquer vantagem geopolítica que tenham na região, mas ao mesmo tempo sabem que terão que ceder em algum ponto, sobretudo se quiserem que os chineses tentem utilizar a sua influência para ajudar a avançar as negociações no Irão e para tentar estabilizar a economia."
"Ambos os países têm vulnerabilidades e ambos têm vantagens. Acho que Donald Trump chega aqui a esta cimeira percebendo que as condições mudaram desde o ano passado. Se Donald Trump acreditava que tinha uma arma potentíssima, as tarifas, para fazer frente à China e para combater o que ele via como déficit comercial entre a China e os Estados Unidos, essa ferramenta já não está disponível para Donald Trump da mesma maneira, como sabemos", explica Daniela Melo, lembrando que o Supremo Tribunal de Justiça "acabou por ditar que as tarifas que tinham sido impostas no último ano não eram legais e, na verdade, neste momento a administração criou um fundo de cerca de 160 mil milhões de dólares para devolver muitos desses fundos que foram cobrados ilegalmente".
"Esta cimeira, essencialmente vai ser mais uma cimeira de alertas relativamente às grandes questões que afetam os dois países, do que propriamente de acordos importantes ou processos de pacificação de alguma coisa", concorda o tenente-general Marco Serronha. "É evidente que se espera que na parte comercial haja ganhos para os dois lados, especialmente do lado dos Estados Unidos, que traz ali uma potente equipa de donos e dirigentes de empresas americanas. E do lado da China espera-se uma pacificação das tarifas.
E depois ainda há a questão do Irão: "Publicamente o presidente Trump fala na questão do Irão como sendo um maior problema para a China do que é para os Estados Unidos, mas na verdade a China tinha outros recursos e conseguiu que a sua economia não fosse tão afetada, fosse mais isolada contra este choque económico de preço de petróleo", diz Daniela Melo.
