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Analista de Política Internacional e Assuntos Europeus

O aliado de hoje pode tornar-se no inimigo amanhã. Se a Europa hesitar será relegada a mero cliente, ora de Pequim, ora de Washington

9 set 2025, 09:00

Xi Jinping pode reunir autocratas. Trump pode destruir alianças. Mas só a União Europeia parece disposta a combinar autoridade moral com influência global

Xi Jinping convoca autocratas para celebrar a “estabilidade” chinesa. Na Praça Tiananmen, mísseis e desfiles enviam uma mensagem inequívoca: a liderança global dos Estados Unidos já não é incontestável. Mas não se trata apenas de força. Trata-se da encenação de uma potência metódica, paciente e resoluta, um contraste absoluto com outra potência hoje governada através das redes sociais. Mas não é apenas em Pequim que se redesenha a paisagem internacional. Sem tanto mediatismo, Bruxelas move-se noutro tabuleiro – na América Latina – onde se define, mais do que comércio, a autonomia estratégica de Estados e continentes.

A cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, em Tianjin, e o desfile militar que assinalou o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, em Pequim, apresentaram-se como o triunfo da multipolaridade autoritária. Putin, Pezeshkian, Kim Jong Un – o “Eixo da Revolta” – desfilaram como prova de que Pequim consegue unir os desconfiados do Ocidente e os necessitados de oxigénio económico. A presença da Índia, da Turquia ou do Egito na cimeira recordou, por outro lado, que o mundo multipolar se edifica não apenas sobre afinidades ideológicas, mas sobretudo em função de interesses estratégicos concretos.

Nesse contexto, as tentativas de imposição por parte de Washington têm-se revelado insuficientes. Trump procurou forçar a submissão da Índia através de tarifas de 50%. Narendra Modi, porém, não cedeu. Visitou Pequim, participou na cimeira e reforçou laços estratégicos com Xi e Putin, deixando Washington à margem. A postura indiana – que contribui para o esforço de guerra russo – evidencia que a autonomia não é um luxo, mas uma necessidade. A multipolaridade deixou de ser teoria para se tornar uma experiência vivida: uma realidade fragmentada e contraditória na qual o Ocidente já não ocupa o centro do palco.

Xi Jinping recorre a citações e expressões cuidadosamente escolhidas para reforçar a sua autoridade, moldar a narrativa política e cimentar a sua imagem como líder supremo e visionário do Reino do Meio. E nessa construção retórica há um fio condutor inalterável: a ideia de que a China é a âncora de previsibilidade num mundo abalado pelas guerras comerciais e pela erosão de um sistema que dificilmente voltará a ser unipolar.

No entanto, ainda que os desfiles e cimeiras denotem força, o reverso é igualmente revelador. A Organização de Cooperação de Xangai não é a NATO. É um arquipélago de interesses contraditórios, unido apenas pela resistência a sanções unilaterais e pela aversão a Washington. A confiança é ténue, os cimentos frágeis. Convém regressar à Índia, ausente do desfile militar e que, apesar do afastamento dos EUA, não alinha necessariamente com a China. Ou escutar os vizinhos asiáticos, que não desejam viver sob tutela chinesa.

Essa lógica de poder e de tensões geopolíticas não se limita à Ásia. A América Latina emerge como palco de tensão e oportunidade. O Brasil, parceiro – com interregnos – dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial, tornou-se um alvo da coerção americana.

As tarifas impostas por Trump, que chegaram a 50%, transformaram o comércio num instrumento de pressão política. Alegações de uma hipotética perseguição judicial a Jair Bolsonaro e sanções a juízes do Supremo Tribunal Federal revelam a verdadeira dimensão do ataque do Presidente norte-americano à soberania brasileira. Nada mais e nada menos do que um ataque ao Estado de Direito e uma tentativa de influenciar o resultado das eleições previstas para 2026.

O efeito, porém, foi inverso. As sondagens mostram que o apoio a Lula da Silva aumentou. O Governo reagiu com pragmatismo: diversificação de parceiros, redução da dependência de Washington, a potencial aplicação da Lei de Reciprocidade Económica e novos acordos comerciais, incluindo com o Canadá. A China, previsivelmente, aproveitou a oportunidade: energia, agricultura, defesa, tecnologia e infraestruturas tornaram-se instrumentos de influência estratégica. Projetos como a “rota ferroviária bioceânica” contribuirão para recalibrar o equilíbrio regional, oferecendo alternativas tangíveis à hegemonia americana.

É neste cenário que a Europa surge como contraponto. Em Bruxelas não se exibem tanques, mas textos jurídicos – frequentemente ridicularizados, mas neste caso, subestimados. O acordo UE-Mercosul aproxima-se da conclusão. Se ratificado, abrangerá mais de 700 milhões de pessoas. Mais do que comércio, trará peso político: autonomia, reforço de uma ordem baseada em regras, compromisso com o clima – ainda que sem medidas coercivas. Enquanto Xi projeta a China como alternativa ao dólar, a UE propõe-se como alternativa à lei da selva no comércio internacional.

O processo não tem decorrido de forma pacífica. A França há muito que tem liderado a resistência ao acordo, agora acompanhada pela Polónia, pelos Países Baixos e pela Áustria, podendo ser a Itália a determinar o êxito da maioria qualificada exigida.

Consciente destas dificuldades, a Comissão optou por segmentar o acordo em duas partes: uma componente comercial, que seguirá para apreciação do Conselho da União Europeia e do Parlamento Europeu, e outra componente, sujeita à ratificação pelos parlamentos nacionais. O texto inclui igualmente uma cláusula de salvaguarda destinada a proteger os produtores europeus contra “perturbações do mercado”, medida que, até ao momento, não parece ter convencido a França.

Ainda assim, Emmanuel Macron deveria compreender que o dilema vai muito além dos interesses dos agricultores franceses. Trata-se de transformar comércio em poder político, decisões em credibilidade, retórica em autoridade. Bloquear o acordo implicaria ceder a agendas imediatistas, acelerando a erosão da coesão interna e reforçando a imagem de uma Europa incapaz de decidir – tudo aquilo que o Presidente francês diz querer evitar.

Enquanto Trump impõe uma diplomacia transacional e declaradamente hostil, erguendo na prática uma ordem mundial contrária aos interesses dos próprios EUA, apenas a União Europeia se mostra disposta a articular autoridade moral com influência global. A reação de Brasília e Nova Deli demonstra que a dependência de Washington diminuiu, que a autonomia e a diversificação de parceiros são prioridades e que a coerção americana potencia blocos que se erguem em aberto antagonismo aos interesses ocidentais. Pequim beneficia, consolidando-se assim como parceiro económico “fiável” para um Sul global desconfiado.

Se as capitais europeias hesitarem, se não agirem com visão e determinação, a Europa será relegada a mero cliente, ora de Pequim, ora de Washington. A multipolaridade avança sem pausa e a indecisão compromete a autoridade e a influência que a União Europeia ainda detém. Como na Ucrânia ou em Gaza, o que está em causa não são apenas interesses, mas também a robustez das nossas decisões, a fiabilidade da nossa política externa e a coerência dos nossos princípios.

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