Como Trump acabou com a reputação de que "é só garganta" usando força bruta, retaliação e jogadas para dominar o mundo

CNN , Stephen Collinson
12 jan, 16:00
O presidente Donald Trump fala com repórteres antes de partir no Marine One do Jardim Sul da Casa Branca em 9 de janeiro, em Washington. Alex Brandon/AP

ANÁLISE || A primeira semana completa de 2026 foi decisiva para o segundo mandato de Trump: Venezuela, Gronelândia, Cuba, Irão, o assassínio de Renee Good e a investigação a Jerome Powell, o combate a imigrantes não documentados e a reversão da agenda progressista. Mas a sua agressividade levanta uma questão urgente: estará ele a levar os EUA e o sistema global a um ponto de ruptura?

Lá se vai o "é só garganta" na Casa Branca.

O presidente Donald Trump está a apostar ainda mais na retaliação, na dominação global e no poder interno implacável.

A primeira semana completa de 2026 foi potencialmente decisiva para o segundo mandato de Trump, depois de o ano passado ter terminado com previsões de que a sua autoridade diminuiria sob a maldição dos comandantes-em-chefe com mandato limitado.

Mas Trump nunca iria ficar parado a ver a sua aura de homem forte a desvanecer-se.

Trump derrubou o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, e planeia gerir pessoalmente as reservas de petróleo do país, enquanto procura dominar o hemisfério ocidental. Exigiu a propriedade da Gronelândia numa potencial nova apropriação imperialista de terras. E, no domingo, a administração prometeu não recuar na sua purga contra migrantes sem documentos, apesar do assassínio da mulher de Minneapolis, Renee Good, por um agente do ICE.

A segunda semana do ano começou com outro estrondo político no domingo, quando o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, revelou que os procuradores federais abriram uma investigação sobre a renovação da sede da Reserva Federal. Powell acusou o governo de persegui-lo porque ele não cedeu à pressão de Trump para grandes cortes nas taxas de juros.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da Federal Reserve, Jerome Powell, visitam o projeto de renovação da sede do Federal Reserve, em 24 de julho de 2025, em Washington, DC. Chip Somodevilla/Getty Images

As autoridades recusaram-se a dar detalhes sobre o caso, mas a alegação de Powell de ser vítima da instrumentalização do Departamento de Justiça segue o uso do poder federal por Trump para acusar aqueles que concebe como seus inimigos, incluindo o ex-chefe do FBI James Comey, em casos que nem sempre foram comprovados em tribunal.

A investigação de Powell enviará uma mensagem inequívoca ao seu substituto, que Trump deve nomear este ano: não ignore as exigências do presidente, mesmo que elas destruam a independência do banco central, que tem sido um pilar da poderosa economia dos EUA.

Trump está também a lutar com outra aventura potencial extraordinária no exterior. Assessores ofereceram-lhe opções para reforçar a sua linha vermelha com ação militar contra o Irão, depois de ele ter avisado que os EUA "começarão a atirar" se o regime reprimir os protestos crescentes. Apesar das suas ameaças, centenas de manifestantes foram mortos.

O presidente dos EUA também passou o fim de semana a ameaçar Cuba nas redes sociais. O seu governo espera que o controlo da Venezuela pressione o regime comunista, que desafia os EUA há 65 anos, a fazer um acordo com Washington ou a entrar em colapso político.

Até agora, este ano, Trump tem indicado que o seu segundo ano na Casa Branca acelerará uma tendência do primeiro: mostre-lhe uma restrição constitucional, uma lei internacional ou um status quo, e o seu instinto será destruí-lo.

O resultado é que milhões de pessoas em todo o mundo agora vêem as suas vidas intimamente ligadas aos caprichos do presidente dos EUA mais indomável e imprevisível em gerações.

Iranianos reúnem-se e bloqueiam uma rua durante um protesto em Teerão, no Irão, em 9 de janeiro. MAHSA/Middle East Images/Getty Images

Próxima grande escolha de Trump é sobre o Irão

Trump está a decidir se deve lançar-se numa crise ainda mais consequente depois de o regime clerical do ayatolla Ali Khamenei, do Irão, ter voltado as suas armas contra os manifestantes, apesar das advertências do presidente dos EUA de que isso poderia desencadear uma ação dos EUA.

As possibilidades podem parecer tentadoras para a Casa Branca.

► Poderá a ação dos EUA acelerar o fim da Revolução Islâmica Iraniana, que esmagou as liberdades durante mais de 45 anos, semeou o terrorismo e impediu o surgimento do novo e próspero Médio Oriente que Trump acredita estar ao seu alcance?

► Ou Trump e a sua equipa concluirão que o apoio direto dos EUA aos manifestantes poderá acabar por intensificar a repressão do regime, que já teria causado enormes perdas de vidas? Esta tem sido uma preocupação em vários governos anteriores. O Irão também alertou para represálias contra bases americanas e Israel se os EUA atacarem.

► A incerteza sobre o que pode acontecer a seguir no Irão também pode dissuadir o governo. Uma transição democrática é apenas um dos resultados possíveis se o regime cair. Alguns especialistas temem o surgimento de um clássico homem forte secular do Médio Oriente ou a eclosão de uma guerra civil que poderia desencadear o caos regional e fluxos de refugiados.

► Há também a questão de quanto mais as forças armadas dos EUA podem suportar. A Marinha já está sobrecarregada com a manutenção de uma enorme armada ao largo da Venezuela, que Trump planeia usar para governar Caracas à distância. Bombardeamentos de longo alcance, como os que visaram o programa nuclear do Irão no ano passado, podem causar danos consideráveis. Mas será que os EUA poderiam realmente fazer uma diferença significativa nas batalhas de rua e nos confrontos locais que eclodem em todas as cidades do Irão?

► Depois, há a questão da posição política de Trump, já que o presidente dos EUA supostamente "América Primeiro" dá aos eleitores das eleições intercalares motivos para questionar se ele se esqueceu das suas preocupações económicas. A Casa Branca sofreu várias repreensões do Congresso na semana passada por causa dos poderes de guerra exercidos na Venezuela e do fim dos subsídios reforçados do Obamacare. A disciplina do Partido Republicano na Câmara está a fragmentar-se, à medida que membros ansiosos enfrentam difíceis lutas pela reeleição. Ainda assim, como a CNN noticiou na semana passada, o poder de Trump para ordenar adversários nas primárias está a conter deserções republicanas mais amplas.

Assuntos pendentes

Os acontecimentos turbulentos do início de janeiro são consistentes com o objetivo de Trump de criar o máximo de perturbação após deixar o cargo em 2021, acreditando que as forças do establishment frustraram os seus melhores instintos.

O presidente dos EUA está a tentar reverter décadas de avanços progressistas — por exemplo, em universidades, escritórios de advocacia e empresas — através do desmantelamento de iniciativas de diversidade, equidade e inclusão. E está a tentar redefinir a relação dos Estados Unidos com os imigrantes, não apenas procurando deportar migrantes sem documentos, mas com uma série de medidas para restringir a imigração legal e até mesmo as viagens aos EUA de cidadãos de nações não brancas.

Não há recuo.

 

Agentes federais detêm uma pessoa em Minneapolis, Minnesota, no domingo. Victor J. Blue/Bloomberg/Getty Images

A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, sinalizou no domingo que a tragédia em Minnesota não fará nada para conter a linha dura do governo em relação aos imigrantes. Ela reforçou a sua narrativa de que Good cometeu um ato de terrorismo doméstico, apesar de vários vídeos da cena colocarem em dúvida esse cenário. "Os factos da situação são que o veículo foi transformado em arma e atacou o agente da lei. Ele defendeu-se e defendeu as pessoas ao seu redor", disse Noem a Jake Tapper, da CNN, no programa "State of the Union".

Mas o presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, disse no mesmo programa que o agente que atirou em Good era “um agente federal que usou o poder de forma imprudente, o que resultou na morte de alguém”.

"Sou tendencioso nisto? Claro. Sou tendencioso, porque tenho dois olhos. Qualquer pessoa pode ver estes vídeos, qualquer pessoa pode ver que esta vítima não é um terrorista doméstico", disse Frey.

Trump, o agitador, está a provocar uma discórdia semelhante no exterior.

A nova estratégia de segurança nacional do presidente norte-americano mostra como ele planeia remodelar o hemisfério ocidental à sua própria imagem MAGA e para que os EUA o dominem. A promessa de Trump de controlar pessoalmente as exportações de petróleo da Venezuela representa um retorno notável ao imperialismo, mesmo que ele insista que usará os lucros para beneficiar o povo do país. O seu fracasso em abraçar a oposição democrática após a destituição de Maduro levanta a possibilidade de que ele planeie presidir uma petro-ditadura durante anos antes que a Venezuela passe por uma transição política.

Entretanto, a apropriação da Gronelândia por Trump ameaça destruir a NATO se os europeus não capitularem às suas ambições coloniais, uma vez que ninguém jamais contemplou um ataque a um membro por outro membro — muito menos pelo seu país mais importante. O vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, causou comoção numa entrevista com Tapper no programa “The Lead” na semana passada, quando descreveu o novo princípio organizador da política externa americana como baseado na força, no poder e na potência.

Mas outra declaração menos notada de Miller apontou para as implicações das ambições internacionais em rápida expansão de Trump: ele quer acabar com a ordem pós-Segunda Guerra Mundial liderada pelos Estados Unidos de forma tão abrangente quanto as suas tarifas procuraram fraturar o sistema global de livre comércio.

"O futuro do mundo livre, Jake, depende da capacidade dos Estados Unidos de afirmarem-se e aos seus interesses sem pedir desculpas", disse Miller, apelando ao fim de "todo este período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, em que o Ocidente começou a pedir desculpas, a rastejar, a implorar e a envolver-se nestes esquemas de reparações em massa".

A presidência de Trump está, de certa forma, a ser bem-sucedida, mas corre enormes riscos

Em muitos aspetos, a segunda presidência de Trump tem sido um sucesso até agora, avaliada em seus próprios termos.

Os índices de aprovação do presidente podem estar abaixo de 40%, com muitos americanos desesperados com o seu fracasso até agora em tornar os alimentos, a habitação e os cuidados médicos mais acessíveis. Mas Trump protegeu a fronteira e cumpriu suas promessas de perseguir migrantes não documentados e pressionar as jurisdições democratas que contrariam a Casa Branca. Ele está a dar passos largos na imposição da sua ideologia cultural em instituições como o Kennedy Center for the Performing Arts e o Smithsonian, e tem usado a sua plataforma para atacar o jornalismo baseado em factos — todos objetivos que são apoiados pelos seus apoiantes mais leais.

Donald Trump responde a perguntas da imprensa a bordo do Air Force One no domingo, a caminho da Casa Branca, vindo de Palm Beach, na Flórida. Samuel Corum/Getty Images

As tentativas cada vez mais vorazes de Trump de obter poder global são vistas por alguns apoiantes como uma ruptura com os princípios do "América Primeiro". Mas Trump foi pioneiro no uso de poder militar forte e avassalador em operações no Irão e na Venezuela, sem se envolver em guerras terrestres longas e sangrentas que sua base abomina.

No entanto, a sua agressividade levanta uma questão cada vez mais urgente: estará ele a levar o país e o sistema global a um ponto de ruptura?

O instinto da administração de intensificar as rusgas e destacamentos do ICE para o Minnesota após o assassínio de Good parece certo que irá alimentar mais antagonismo político e aumentar a possibilidade de mais mortes ou feridos que poderão virar os americanos uns contra os outros.

A arrogância de Trump pode tornar-se um problema, especialmente se a sua crescente tolerância ao risco em operações militares resultar numa tragédia para militares dos EUA. E o colonialismo do século XXI de Trump e a sua pressa em dominar regiões e recursos naturais correm o risco de criar um mundo que recompensa homens fortes e impérios, enquanto esmaga a autonomia das nações mais pequenas. Ao longo da história, tais condições desencadearam guerras terríveis, que foram evitadas pela ordem liderada pelos EUA após 1945.

O início bruto de Trump em 2026 pode ter dissipado as impressões de seu poder em declínio por enquanto. Mas isso acarreta riscos enormes. E os Estados Unidos e o mundo podem parecer muito diferentes quando ele deixar a sua secretária, a "Resolute Desk".

 

N.T.: a expressão original de "lame duck", que à letra significa "pato coxo", foi aqui traduzida como "é só garganta", por se adaptar como a alguém que promete muita ambição mas a não concretiza.

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