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Analista de política internacional

O primeiro ano de Trump tem de coincidir com o fim da inocência europeia

19 jan, 13:15

A analogia com os anos 1930 não é um exercício retórico fácil, nem deve ser usada levianamente. Mas o paralelismo é inquietante

O primeiro ano da nova presidência de Donald Trump confirmou aquilo que muitos líderes europeus tentaram evitar: a relação transatlântica entrou numa fase estruturalmente diferente. Não se trata de um desvio retórico nem de um ciclo político passageiro. É uma questão definitiva. Há uma mudança de fundo na forma como os Estados Unidos encaram aliados, compromissos e limites. Persistir na tentação da conciliação já não é prudência diplomática, compreensível num primeiro momento; é repetir, com novos protagonistas, os erros do apaziguamento dos anos 1930.

A tensão em torno da Ucrânia foi o primeiro e evidente sinal. A Europa continua a assumir o grosso do esforço político, económico e militar para conter a agressão russa, enquanto Washington oscila entre um muito hesitante apoio à Ucrânia (que se resume a continuar as vendas de material militar) e o alinhamento com a Rússia. Muitos líderes europeus guiaram a sua posição pelo receio de provocar a irritação da Casa Branca. O resultado foi o oposto: quanto mais a Europa tentou acomodar, menos previsível se tornou a posição americana.

Se, numa fase inicial, uma Europa impreparada dificilmente poderia optar por um rumo diferente, o padrão é agora claro: a contenção não gera reciprocidade quando o outro lado interpreta prudência como fraqueza.

Sobre a Gronelândia, a citação atribuída a Marx de que “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” é bastante válida, mas por ordem inversa. Quando Trump, ainda em 2019, mostrou interesse em ‘adquirir’ a Gronelândia, a reação dos líderes europeus foi de gozo. Mas em 2025, a farsa virou tragédia: a Gronelândia (parte do Reino da Dinamarca, país membro da NATO) passou a ser tratada pela administração Trump como um ativo geoestratégico passível de apropriação, “de uma forma ou de outra”.

A resposta europeia incluiu o envio simbólico de tropas para afirmar a integridade territorial dinamarquesa. Citando uma expressão de um programa de comentário desportivo, “diga um”. O Reino Unido disse um. Mandou um soldado.

Qual é o problema desta atitude temerária? Não é o risco de uma guerra tarifária com os Estados Unidos. Esse risco existe de qualquer forma, seja por que razão for. O problema é aumentar desnecessariamente o custo de uma tensão aberta sem capacidade real de dissuasão. O Reino Unido, cuja economia já conheceu melhores dias, quer mesmo arriscar represálias comerciais severas por causa de um (1) soldado? Colocado assim, parece ridículo. Mas o verdadeiro erro não está em desafiar Washington; está em fazê-lo de forma performativa, vazia e estrategicamente inconsistente.

A política externa de Trump oscila entre dois polos: FAFO e TACO, se quisermos usar o jargão cínico do momento. O que a Europa parece ainda não ter compreendido é que a tentativa de conciliação, nesta fase, conduz ao pior dos cenários: uma Europa vergada, economicamente vulnerável, militarmente dependente e politicamente irrelevante. Um continente que aceita tarifas como punição e vê os Estados Unidos fazerem o que entendem com a Gronelândia.

A analogia com os anos 1930 não é um exercício retórico fácil, nem deve ser usada levianamente. Mas o paralelismo é inquietante: potências democráticas a convencerem-se de que concessões sucessivas evitarão conflitos maiores; líderes a confundirem prudência com apaziguamento; economias frágeis a aceitarem custos crescentes em nome de uma paz ilusória. Sabemos como essa história acabou.

A Europa não precisa de gestos simbólicos nem de moralismo vazio. Precisa de assumir, com lucidez, que a era da conciliação automática com os Estados Unidos terminou. Isso implica investir seriamente na sua capacidade de defesa, alinhar posições económicas para responder a pressões tarifárias e falar a uma só voz quando a soberania de um Estado europeu (ou de um território sob a sua responsabilidade) é posta em causa. Ignorar isto é aumentar o problema, que não desaparecerá nos restantes três anos desta administração.

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