"A ofensiva de Trump contra a Europa pode estar a sair pela culatra" - e as presidenciais na Polónia servirão de teste

31 mai 2025, 08:30
O presidente Donald Trump discursa durante a cerimónia de tomada de posse da procuradora-geral dos EUA interina em Washington, D.C., Jeanine Pirro, no Salão Oval da Casa Branca, a 28 de maio de 2025 (Getty Images/ Andrew Harnik)

ENTREVISTA || Em vésperas da segunda volta das eleições presidenciais polacas, a secretária de Segurança Nacional norte-americana foi recebida na Polónia como uma estrela de rock, tirando fotografias com fãs e dando apoio formal, em nome da administração Trump, ao conservador Karol Nawrocki. Para Pawel Zerka, analista polaco do European Council on Foreign Relations (ECFR), é "algo sem precedentes ter a América a interferir de forma tão direta nos assuntos internos de um país". As sondagens apontam para uma divisão do eleitorado polaco pela metade, entre os que apoiam o candidato do PiS "com um passado obscuro" e Rafal Trzaskowski, o candidato centrista apoiado pelo governo de Tusk. É por isso, diz Zerka, que os resultados deste domingo "vão ter muita importância na forma como todos pensamos sobre Trump"

Falando de perceções de ameaças, comecemos pela sondagem do ECFR em 24 países, cujos resultados veio apresentar na conferência "Admirável Nova (Des)ordem" em Lisboa, sobre o sentimento de europeus e não-europeus em relação a Donald Trump.

Deixe-me começar por dizer isto, para que não haja mal-entendidos: no ECFR conduzimos sondagens regularmente e a sondagem da qual posso falar é a que conduzimos entre novembro e dezembro do ano passado em países da União Europeia (UE), da Europa e de outras partes do mundo.

Portanto, há meio ano, a seguir às eleições presidenciais americanas?

Sim, depois das eleições, mas antes da tomada de posse de Donald Trump. No fundo, esta sondagem é uma espécie de foto instantânea que nos mostra quais eram as expectativas de pessoas em várias partes do mundo em relação à presidência Trump e ao seu impacto no resto do mundo no final do ano passado. Mas não podemos assumir que esses dados estão a dizer-nos o que quer que seja sobre o atual sentimento, porque não só Trump já tomou posse como já implementou uma série de políticas chocantes com muito impacto...

Qual era então o sentimento há seis meses, antes de ele implementar essas políticas?

Há seis meses, a maior parte do mundo – mas não a Europa – estava muito otimista quanto ao que Trump iria trazer, quanto à eleição de Trump ser ou não uma coisa boa para a paz mundial, para os seus próprios países, bem como para os cidadãos americanos. Da mesma forma, muitas pessoas em todo o mundo – mas não na Europa – achavam que ele ia ser um pacificador, que a sua presidência aumentaria as probabilidades de haver paz na Ucrânia, paz no Médio Oriente, e uma desescalada nas relações com a China, entre os EUA e a China.

Entendo porque fez questão de fazer essa ressalva no início da entrevista…

Sim, porque as pessoas estavam otimistas e os europeus bastante céticos em relação a tudo isso. E já agora, os portugueses estavam entre os mais céticos na Europa, o que achei interessante, porque sempre pensei em Portugal como um país com fortes relações transatlânticas, apesar da sua forte alma europeia.

Analista sénior do ECFR, Zerka veio a Lisboa apresentar os resultados de uma sondagem conduzida pelo instituto em 24 países da Europa e do mundo no final do ano passado, depois das presidenciais americanas mas antes da tomada de posse de Trump. Dentro de um mês, uma nova sondagem do ECFR ajudará a perceber de que forma o sentimento europeu mudou ou não no seguimento de seis meses de políticas "chocantes" da nova administração dos EUA foto: seesaw-foto.com

Sim, e temos, ou tínhamos, costumávamos partilhar uma base militar importante nos Açores e as nossa relações bilaterais datam de há muito tempo…

Daí a minha surpresa com o quão críticos os portugueses eram em relação a Donald Trump, ou se calhar não tanto críticos, mais pessimistas quanto ao que a reeleição de Trump iria significar em diversas áreas. Entretanto, há duas semanas, conduzimos uma nova sondagem, não global, mas na Europa, em 12 países europeus, para entender como está agora o sentimento europeu em relação a Donald Trump e aos EUA, mas também em relação à guerra na Ucrânia, à Defesa, para entender o que mudou durante este período, desde que Trump se tornou presidente. Mas ainda não posso discutir os resultados dessa sondagem.

Quando serão divulgados? 

No final de junho. Nos próximos dias, a minha equipa e eu vamos focar-nos na análise e compreensão dos novos dados. 

O que espera que os dados lhe mostrem?

A minha hipótese é que o sentimento não vai ser igual ao de há seis meses.

Em que sentido? Acha que terá piorado desde janeiro?

Seria diferente fora da Europa, mas na Europa dificilmente poderia ser pior. Por isso, de certa forma, talvez os europeus simplesmente tenham percebido ou tenham demonstrado ‘Veem, tínhamos razão em relação a Donald Trump”. Penso que o que eu estaria mais inclinado a procurar nos dados é se os sentimentos em relação à Europa melhoraram ou não. O Eurobarómetro publicou recentemente a sua sondagem, que parece mostrar que existe algo a que se poderá chamar uma união em torno da bandeira europeia. A sondagem aponta que o apoio à Europa e a confiança na União Europeia estão num auge histórico. E se este for realmente o caso, então talvez isto possa estar de alguma forma relacionado com o facto de os europeus se sentirem ofendidos pela América em várias frentes. 

Fala da guerra comercial, da defesa, do desdém e chantagem em relação à Europa?

Sim, podem sentir-se ofendidos por Donald Trump e pela América na frente comercial, onde há subitamente uma guerra comercial ou uma ameaça de guerra comercial. Em segundo lugar, na frente da segurança, onde já não sentimos que podemos confiar nos EUA tanto quanto antes. E especialmente no que toca ao apoio à Ucrânia e à manutenção do esforço de luta contra a Rússia. Mas talvez alguns europeus também se sintam ameaçados pela América no domínio cultural, e aqui refiro-me sobretudo, por exemplo, a coisas como o discurso de JD Vance na Conferência de Segurança de Munique, onde acusou a Europa de já não ser o continente da liberdade e sugeriu que a América é o único defensor de uma verdadeira liberdade.

À margem dessa conferência, Vance também teve um encontro oficial com a líder da extrema-direita alemã e foi acusado de interferência na política interna da Alemanha. E, na verdade, acabámos de ter elementos ligados à administração Trump a criticar a Polónia pela forma como está a conduzir as suas eleições presidenciais…

Sim, alguns políticos do Partido Republicano teceram críticas e, pior do que isso, uma representante do governo americano, a secretária de Segurança Nacional, Kristi Noem, foi à Polónia dar apoio formal ao candidato presidencial conservador.

Kristi Noem, secretária de Segurança Nacional da administração Trump, foi à Polónia apoiar formalmente o candidato nacionalista conservador Karol Nawrocki a cinco dias da segunda e última volta das eleições presidenciais foto: Alex Brandon, Pool/AP

Isso aconteceu antes ou depois da primeira volta das presidenciais?

Foi há três dias, portanto, entre a primeira e a segunda volta [no próximo domingo, 1 de junho]. Deu o seu apoio explícito a um dos candidatos, o que é algo sem precedentes, ter a América a interferir de forma tão forte e direta nos assuntos internos de um país, a dar apoio formal a um candidato e, de certa forma, a queimar pontes com o outro candidato, que tem exatamente as mesmas chances de ganhar estas eleições. E portanto, não sei se muitos europeus não vão sentir-se ofendidos com isso, mas consigo perfeitamente imaginar que, se juntarmos todas estas diferentes camadas, a económica, a de segurança e a cultural, tudo isso poderá contribuir para a sensação de que existe uma tensão transatlântica, senão mesmo um choque transatlântico. E isso poderia reforçar os laços dentro da Europa, porque nada reforça mais o sentimento patriótico do que uma ameaça externa.

No fundo, suspeita que esta “tempestade Trump” veio reforçar a união na UE?

De certa forma, embora não creia que Trump tenha essa intenção. Pode ser a consequência não intencional do que Trump está a fazer. A sua ofensiva contra a Europa pode estar a sair pela culatra. Mas devo dizer que não devemos ser demasiado auto-congratulatórios face a isto, porque esse até pode ser o sentimento neste momento, mas, no final do dia, se os europeus podem realmente sentir-se orgulhosos da Europa e se podem sentir uma ligação com a Europa, dependerá da capacidade da Europa de realmente se apresentar e marcar posição num mundo onde já não depende dos EUA.

Neste momento, é possível que os europeus possam estar a mostrar que apoiam a Europa porque se sentem ofendidos. Mas os países europeus, bem como as instituições, têm de ser capazes de mostrar que, apesar do enfraquecimento do apoio dos EUA na área da segurança, ainda podem apoiar a Ucrânia e a sua soberania, que podem evitar a catástrofe económica que poderia estar relacionada com o anterior compromisso com a América. Penso que, neste momento, o sentimento é esse. Mas, daqui a alguns meses, veremos qual é o sentimento com base nos efeitos reais de tudo isto no mundo.

Voltando às presidenciais da Polónia. As sondagens mostram que está tudo em aberto, mas há pouco dizia-me que se mantém relativamente otimista. Porquê? Depois de oito anos com o PiS no poder, de um governo eurocético e nacionalista, o centro-direita voltou a ganhar em 2023, num aparente indicador de que os polacos querem mesmo fazer parte da UE e que o sentimento pró-europeu está reforçado… Mas, ao mesmo tempo, esta divisão nas presidenciais parece pôr essa ideia em dúvida.

Eu diria que o país, neste momento, está perfeitamente dividido em duas metades, polarizado com base na filiação política. Pessoalmente, estou chocado com o facto de, apesar do passado muito obscuro de um dos candidatos que só agora estamos a conhecer, o candidato da direita, apesar desses elementos…

A que elementos se refere?

O de que em tempos trabalhou como proxeneta. Ou seja, fornecia prostitutas num hotel onde trabalhava como segurança. Ficámos a saber que adquiriu um dos seus apartamentos de forma obscura. Ficámos a saber que participava em lutas de hooligans…

E o que o choca é que nada disso tenha mudado a opinião pública entre os que votam nele?

Exato. Fico chocado que isto não tenha alterado o apoio de parte dos polacos, que ele ainda tenha 50% de hipóteses de ganhar estas eleições. Mas, acima de tudo, acho que a Polónia é um caso de estudo sobre algo maior.

Rafal Trzaskowski, presidente da Câmara de Varsóvia apoiado pela Coligação Cívica do primeiro-ministro Tusk, surge com um ligeiro avanço sobre o rival conservador nas sondagens, mas dentro da margem de erro. "Vai ser como atirar uma moeda ao ar", diz Pawel Zerka sobre a votação do próximo domingo foto: EPA

Maior a nível europeu?

Sim, neste contexto do que estávamos a discutir sobre como Trump é visto na Europa, como Trump impacta a política europeia, diria que o resultado das eleições polacas vão ter muita importância.

Vão servir como uma espécie de bitola, é isso?

Sim, e isto não sou eu que o digo, é um colega com quem concordo, que diz que, no fundo, estas eleições na Polónia vão dar-nos um enquadramento…

Que tipo de enquadramento?

Então, há variados motivos pelos quais as pessoas votam em Trzaskowski ou em Nawrocki ou ficam em casa e não votam, certo? Mas, no final do dia, assim que conhecermos os resultados, haverá um enquadramento para todas as pessoas em toda a Europa e no resto do mundo perceberem o que pode acontecer daqui para a frente. Se Nawrocki ganhar, o enquadramento será que o apoio de Trump a este candidato teve real importância.

Que fez a diferença…

Sim, que Trump continua a fazer a diferença na política interna de outros países.

E se Trzaskowski ganhar?

Se Trzaskowski ganhar e se, apesar deste apoio da administração americana, Nawrocki perder as eleições, então os candidatos de ultradireita por toda a Europa e o resto do mundo talvez devam ser mais cautelosos em relação ao apoio que obtêm de Washington. Porque aí verão que esse apoio não só não lhes garante [a vitória], como funciona para contra mobilizar os outros, o lado liberal.

Enquanto cidadão polaco, estou obviamente muito interessado no resultado destas eleições, mas também enquanto europeu – acho mesmo que o resultado vai ter muita importância para a forma como todos pensamos sobre Trump e sobre o seu poder de inlfuência na política interna de outros países.

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