As hipóteses cada vez menores de um cessar-fogo e de um acordo de paz em breve dependerão, em vez disso, de saber se Trump encontra finalmente coragem para reforçar com ações a sua crítica verbal ao presidente Vladimir Putin, feita no fim de semana.
O Kremlin aposta que ele não o fará.
Desvalorizou a frustração de Trump face aos mais intensos ataques de drones russos contra a Ucrânia como um sintoma de “sobrecarga emocional”. E a experiência sugere que Putin pode continuar a desafiar o presidente dos EUA. Afinal, a crítica de Trump a Putin na Truth Social, chamando-o de “louco” na segunda-feira, foi acompanhada por uma típica repreensão à vítima — a Ucrânia e o presidente Volodymyr Zelensky.
Ainda assim, os ataques russos cada vez mais intensos contra civis ucranianos parecem ser um teste deliberado a Trump, uma semana depois da tão promovida chamada entre ele e Putin, que não trouxe qualquer avanço para a paz, apesar da narrativa da Casa Branca.
Existem dois caminhos que Trump pode seguir, assumindo que está pronto para abandonar a humilhante posição de ser constantemente manipulado por Putin.
Poderá impor novas sanções à Rússia, algo que anteriormente argumentou poder dificultar a diplomacia. Disse a jornalistas em Nova Jérsia, no domingo, que isso era “absolutamente” uma possibilidade. Trump poderia também salvar vidas na Ucrânia ao seguir o exemplo do seu antecessor, Joe Biden, e pedir ao Congresso a aprovação de novos envios de armas e munições para o país.
Um argumento para uma resposta mais firme
Há um bom motivo para Trump mudar de ideias: a sua credibilidade está em jogo depois das ousadas promessas de que poderia acabar com a guerra em 24 horas se terem revelado fantasiosas.
Uma opção seria Trump introduzir as chamadas sanções secundárias à Rússia, que por vezes sugeriu. Estas visariam instituições financeiras, empresas e outras entidades que continuam a fazer negócios com Moscovo.
Os senadores Lindsey Graham (republicano) e Richard Blumenthal (democrata) têm um novo projeto de lei que prevê sanções severas a países que ainda mantêm relações com a Rússia. Isso poderia afetar adversários dos EUA, como a China. Mas também poderia prejudicar as relações de Trump com aliados como a Índia — um grande comprador de petróleo russo a preços reduzidos. Os senadores já contam com 81 copatrocinadores, o que significa que a proposta poderia ser rapidamente aprovada, se Trump quisesse, enviando uma mensagem firme à Rússia.
Trump também poderia reforçar as defesas aéreas da Ucrânia, doando ou vendendo mais mísseis Patriot a Kiev, para combater os mísseis de cruzeiro que complementam os mortíferos ataques noturnos com drones.
Os perigos de uma escalada da guerra para um confronto mais direto entre a Rússia e o Ocidente não devem ser ignorados. Este foi também um fator importante para Biden, e a hesitação de Trump perante as linhas vermelhas russas era uma constante frustração para os seus críticos. Mas a cautela de Trump faz com que Biden pareça um intervencionista agressivo.
Ainda assim, talvez Putin tenha finalmente forçado Trump a uma epifania há muito adiada.
“Houve já declarações e manifestações de irritação e frustração por parte do presidente Trump e de outros na administração, até ameaças de sanções, mas até agora nada,” disse o antigo embaixador dos EUA na Ucrânia, William Taylor, à jornalista Isa Soares da CNN International na segunda-feira. “A questão é: será que desta vez bastará para impor essas sanções? E não apenas as sanções; tem de haver apoio ao exército ucraniano também.”
O major reformado do Exército dos EUA, Mike Lyons, acredita que Trump poderá estar a criar espaço político para si próprio.
“Para quem é aquela publicação na Truth Social? Está obviamente a dirigir-se a Vladimir Putin, mas penso que também está a testá-la junto da opinião pública americana, para perceber se seria popular envolver-se mais e levar o país a participar mais diretamente na Ucrânia neste momento”, disse Lyons à CNN. “Gostaria de acreditar que aquilo que ele considerava uma equação simples quando tomou posse... percebe agora que é uma equação muito difícil de resolver.”
Os aliados europeus dos EUA estão atentos.
O presidente francês, Emmanuel Macron, disse numa visita ao Vietname na segunda-feira que, depois de falar recentemente com Trump, acredita que o líder norte-americano agora entende que, embora “o presidente Putin lhe tenha dito por telefone que estava pronto para a paz” — e tenha dito o mesmo a enviados dos EUA — “estava a mentir”.
O chanceler alemão Friedrich Merz também endureceu o tom. Disse que já não há limites para o alcance das armas europeias usadas pela Ucrânia — o que significa que podem agora atingir alvos no interior da Rússia. Não ficou claro de imediato, no entanto, se se referia a uma mudança real na estratégia operacional.
Os aliados parecem pressentir um momento em que Trump poderá mudar de opinião, após meses a vê-lo minar os seus esforços para forçar Putin a aceitar um cessar-fogo imediato.
Mas, como sempre, ninguém sabe ao certo qual será a sua decisão. Um diplomata europeu afirmou que ainda é difícil dizer se as condenações de Trump a Putin indicam realmente uma nova abordagem, mas observou que a Europa está claramente interessada em mais sanções.
O que o Kremlin pensa de Trump
Há dois problemas com a ideia de que Trump finalmente percebeu quem é realmente o líder russo.
Primeiro, ele nunca mostrou grande vontade de criticar Putin.
Segundo, a brutalidade do líder russo na condução da guerra não é novidade, três anos após uma invasão não provocada e ilegal que matou dezenas de milhares de civis e levou à emissão de mandados internacionais de prisão por crimes de guerra.
É por isso que é arriscado levar as palavras de Trump do fim de semana à letra. Os seus comentários serviram um propósito político: desviar as perguntas dos jornalistas sobre a sua opinião sobre a mais recente atrocidade na Ucrânia. E conseguiu boas manchetes no Dia da Memória (Memorial Day) por se mostrar firme com Putin. Mas a história recente mostra que, uma vez passado o momento, o presidente frequentemente passa a outro tema.
“Falar é fácil, e temos estado à espera de ação”, disse Beth Sanner, antiga alta responsável dos serviços de informação dos EUA, à CNN. “É preciso pressionar quem está a criar o problema.”
“Putin não acredita que Trump vá agir”, afirmou Sanner. Mas essa opção exigiria uma reviravolta política significativa e embaraçosa, já que a oposição de Trump a gastar milhares de milhões na Ucrânia é uma das bases da sua segunda campanha presidencial. E significaria admitir que, como aconteceu com muitos dos seus antecessores, a sua crença de que conseguiria controlar Putin estava errada.
Há ainda outra possibilidade, aquela que a Ucrânia e os seus aliados europeus mais temem. Trump pode simplesmente lavar as mãos e alegar que nenhum dos lados quer realmente a paz, e que está na hora de os EUA se retirarem. A Rússia então prosseguiria com a sua guerra de desgaste e os ataques a civis. A sua anexação territorial seria validada, criando um precedente desastroso para a segurança europeia e para o papel dos EUA no mundo.
Isto não é um cenário meramente teórico. A tendência isolacionista que atravessa o movimento MAGA faz com que as recentes insinuações do secretário de Estado Marco Rubio e do vice-presidente JD Vance de que os EUA poderão recuar pareçam mais do que meras táticas de negociação.
E uma forma de interpretar a publicação de Trump na Truth Social, na segunda-feira, é como uma cortina de fumo para uma retirada americana. “Esta é uma guerra que nunca teria começado se eu fosse presidente. Esta é a guerra de Zelensky, de Putin e de Biden, não é ‘de Trump’”, escreveu Trump.
