Trump diz que acabou com sete guerras. Duas nem começaram, uma não parou e outras duas não são guerras

Pedro Falardo , atualizado às 19:46
23 set 2025, 18:58
Donald Trump (AP/Evan Vucci)

Lembra-se de uma guerra entre a Etiópia e o Egito? Ou entre Sérvia e Kosovo desde a declaração de independência deste segundo país?

Donald Trump pode ter dito que acabou com sete guerras desde que chegou à presidência dos EUA, mas a versão do líder americano não corresponde à realidade.

“Eu terminei sete guerras, lidei com os líderes de cada um desses países e nunca recebi sequer um telefonema das Nações Unidas a oferecer ajuda para finalizar o acordo”, disse Trump, que listou as seguintes "guerras" entre países: Arménia e Azerbaijão; Irão e Israel; Ruanda e República Democrática do Congo; Índia e Paquistão; Camboja e Tailândia; Etiópia e Egito; Sérvia e Kosovo.

Comecemos pelas guerras em que Donald Trump teve, efetivamente, um papel ativo.

Arménia e Azerbaijão

Arménia e Azerbaijão travaram, desde a independência da União Soviética, vários conflitos, incluindo duas guerras, entre 1988 e 1994 e em 2020. Em causa estava a região do Nagorno-Karabakh, controlada pelos arménios desde o final dessa primeira guerra até à ofensiva de setembro de 2023 lançada pelo Azerbaijão.

Embora o conflito ainda não tenha cessado formalmente, os dois países comprometeram-se, no dia 8 de agosto deste ano, a tomar os passos necessários para uma paz definitiva. O primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, e o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, assinaram uma declaração conjunta de 17 pontos na Casa Branca, sob o olhar atento de Donald Trump.

A mediação dos EUA foi uma solução que agradou às três partes: Arménia e Azerbaijão não pretendiam que um eventual acordo tivesse a Rússia como garante da paz, e os EUA conseguiram “sacudir” alguma influência de Moscovo no Cáucaso.

A declaração conjunta é especialmente lisonjeira para o presidente americano. Os dois países acordaram em estabelecer um corredor, informalmente designado como corredor de Zangezur, para ligar o Azerbaijão ao seu exclave de Naquichevão, passando pela Arménia. O nome formal? Trump Route for International Peace and Prosperity (TRIPP), ou “Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais”. Os EUA conseguiram, também, os direitos de exploração económica deste corredor para os próximos 99 anos.

Irão e Israel

A guerra começou nas primeiras horas do dia 13 de junho, quando Israel atacou dezenas de infraestruturas nucleares e militares, bem como alguns dos principais responsáveis militares do Irão, que respondeu no próprio dia com uma salva de drones Shahed.

Nos dias seguintes, os dois países atacaram-se mutuamente numa guerra que tirou a vida a mais de mil pessoas no Irão e a algumas dezenas em Israel.

Os EUA entraram no conflito como beligerantes a 22 de junho. Recorrendo a mísseis Tomahawk e a bombardeiros B-2, os EUA atacaram as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan.

No dia seguinte, Trump anunciou um cessar-fogo na Truth Social e deu um nome ao conflito: Guerra dos Doze Dias. Inicialmente, o Irão contestou a declaração, alegando que não tinha dado luz verde a qualquer pausa nas hostilidades. Porém, e apesar de algumas violações no período inicial, Israel e Irão não voltaram a atacar-se após 24 de junho. O antagonismo geopolítico e a tensão, contudo, permanecem inalteradas.

Ruanda e República Democrática do Congo

É aqui que as contas começam a complicar-se para Donald Trump. O conflito entre as tropas governamentais e o Movimento 23 de Março (M23) começou em 2022, quando tropas ruandesas entraram na RD Congo para prestar apoio ao M23.

A República Democrática do Congo e o Ruanda assinaram, de facto, um acordo de paz em Washington DC no dia 27 de junho deste ano. Ruandeses comprometeram-se a abandonar o território do país vizinho no prazo de 90 dias, e a RD Congo ficou com a obrigação de cessar o seu apoio à milícia rebelde das Forças Democráticas de Libertação do Ruanda (FDLR).

Contudo, o M23 não foi parte desse acordo e, consequentemente, não parou as suas operações no terreno. O movimento controla as duas cidades mais importantes do leste da RD Congo, Goma e Bukavu, e quer avançar até à capital Kinshasa, segundo o que disse Corneille Nangaa, líder das forças rebeldes, à CNN Internacional.

Também à CNN Internacional, um trabalhador humanitário, que não se quis identificar por medo de represálias, afirma que “há combates todos os dias” na região de Kivu do Norte. As negociações entre as partes, principalmente entre o M23 e a RD Congo, estão paradas.

Índia e Paquistão

O mundo temeu o eclodir de uma nova guerra quando, a 7 de maio deste ano, a Índia lançou a Operação Sindoor, que visou atingir infraestruturas dos grupos terroristas Jaish-e-Mohammed e Lashkar-e-Taiba. Esta operação foi a resposta do governo de Narendra Modi aos ataques terroristas de Pahalgam, em abril, perpetrados por esta última força.

O Paquistão retaliou e, nos dias seguintes, os dois países trocaram ataques a infraestruturas militares. Felizmente, ambos os lados exerceram alguma contenção e não partiram para a guerra declarada.

O cessar-fogo entrou em vigor na tarde de 10 de maio e teve a participação ativa dos EUA. JD Vance e Marco Rubio – não Donald Trump – desmultiplicaram-se em chamadas aos principais responsáveis políticos e militares de Índia e Paquistão. O cessar-fogo foi anunciado por Trump na sua rede social.

“Eu não quero dizer que o fiz, mas de certeza absoluta que ajudei a pôr termo ao problema entre a Índia e o Paquistão”, disse Trump uma semana mais tarde, a 16 de maio, durante um discurso a tropas americanas no Catar.

Camboja e Tailândia

Outra “guerra” que Trump terminou, mas que não chegou a ser guerra. Os dois países têm disputas territoriais ao longo de toda a sua fronteira que remontam aos anos 50, quando o Camboja se tornou independente.

As escaramuças são frequentes entre as partes, mas atingiram o seu nível mais grave este ano, entre 24 e 27 de julho, após meses de tensões. O que começou com apenas alguns tiros entre soldados evoluiu para uma crise internacional que provocou centenas de milhares de deslocados em ambos os países.

Donald Trump entrou na equação no dia 26 de julho, quando telefonou aos líderes de ambos os países para os pressionar a terminar o conflito. O presidente dos EUA alertou que, caso a disputa não terminasse, não haveria lugar a negociações sobre tarifas.

Camboja e Tailândia acabaram por acordar um cessar-fogo no dia 27 e encetaram negociações na Malásia. Como forma de agradecimento, o primeiro-ministro do Camboja, Hun Manet, nomeou Trump para o Prémio Nobel da Paz por ter “evitado um potencial conflito devastador”. Tal como o conflito anterior, não chegou a ser uma guerra.

Etiópia e Egito

Com certeza que muitos leitores nunca ouviram falar numa guerra entre a Etiópia e o Egito. E é normal: a primeira e última aconteceu no séc. XIX.

O que há entre os dois países é uma disputa pela água do Nilo Azul, um dos afluentes do rio mais extenso do mundo. A Etiópia há muito que queria a construção de uma barragem para colmatar as falhas no abastecimento energético do país. A construção da Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD, na sigla em inglês) teve início em 2011 e fim doze anos depois. A inauguração oficial ocorreu este mês, no dia 9.

A construção da barragem gerou grande preocupação no Egito, cuja economia depende largamente do Nilo - quase toda a sua população vive nas margens do rio. Governantes e habitantes temem uma redução drástica do caudal, na ordem dos milhares de milhões de litros cúbicos.

Em julho, Trump anunciou que queria pôr termo à disputa, numa declaração bem recebida pelo presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi.

Sérvia e Kosovo

Esta é a reivindicação mais absurda do presidente americano. Apesar da tensão constante e de algumas disputas, como as ocorridas no verão de 2022, os dois países nunca estiveram em guerra desde a declaração de independência do Kosovo, em 2008.

Aquilo a que Donald Trump se está a referir é, provavelmente, ao acordo de normalização das relações económicas entre os dois países, assinado na Sala Oval da Casa Branca a 4 de setembro pelo primeiro-ministro do Kosovo, Avdullah Hoti, e pelo presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, na presença do presidente dos EUA. Daí a dizer que acabou uma guerra vai um grande esticão.

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