Factos Primeiro: 14 afirmações falsas e enganadoras de Trump no discurso de recandidatura à presidência

CNN , Daniel Dale e Paul LeBlanc
16 nov, 20:00

NOTA DO EDITOR | Este artigo será atualizado com alegações adicionais

O antigo presidente Donald Trump começou a sua campanha presidencial para 2024 da mesma forma que terminou a sua presidência em 2021: com muita imprecisão.

Tal como muitos dos discursos de Trump enquanto presidente, o anúncio de candidatura na Florida, na terça-feira, estava repleto de alegações falsas e enganosas sobre vários tópicos - desde o seu histórico no cargo, passando pelos adversários democratas, pela economia, o ambiente e a política externa.

Eis uma verificação de algumas das coisas que Trump disse em Mar-a-Lago:

Retirada do Afeganistão

Trump afirmou na noite de terça-feira que os EUA deixaram no Afeganistão 85 mil milhões de dólares em equipamento militar quando se retiraram em 2021.

“Talvez tenha sido o momento mais humilhante da história do nosso país. Perdemos vidas, deixámos americanos para trás e entregámos de mão beijada 85 mil milhões de dólares em equipamento militar, do melhor do mundo”, disse Trump no seu resort em Mar-a-Lago.

Os Factos: os números de Trump são falsos. Embora uma quantidade importante de equipamento militar que tinha sido fornecido pelos EUA às forças do governo afegão tenha realmente ficado para trás à mercê dos talibãs, após a retirada dos EUA, o Departamento de Defesa estimou que o equipamento valia cerca de 7,1 mil milhões de dólares – uma parcela dos 18,6 mil milhões de dólares em equipamento fornecido às forças afegãs entre 2005 e 2021. E algum do equipamento abandonado já não estava a funcionar antes da retirada das forças americanas.

Não há qualquer fundamento para a afirmação de Trump de que 85 mil milhões de dólares em equipamentos foram deixados para trás. Tal como outras verificações de factos já explicaram anteriormente, esse foi um número arredondado (até mais próximo dos 83 mil milhões) para a quantia total de dinheiro que o congresso destinou, durante a guerra, para um fundo de apoio às forças de segurança afegãs. Apenas parte desse financiamento foi para o equipamento.

Reserva Estratégica de Petróleo

Trump afirmou que a sua administração “encheu” a Reserva Estratégica de Petróleo, mas que agora a mesma foi “virtualmente esvaziada” pela administração Biden.

Os Factos: as duas partes da afirmação de Trump são falsas. Ele não encheu a reserva e a reserva não está “virtualmente vazia”.

Embora Trump se tenha repetidamente gabado de ter enchido a Reserva, a verdade é que continha menos barris de petróleo quando ele deixou o cargo, no início de 2021, do que quando o assumiu, em 2017. Nem tudo por culpa dele. A lei exige algumas vendas obrigatórias de parte da reserva, por razões orçamentais, e os democratas do congresso bloquearam o financiamento necessário para executar a diretiva de Trump em 2020 para comprar dezenas de milhões de barris e encher a Reserva até à sua capacidade máxima. Não obstante, não ficou cheia.

Como Matt Egan e Phil Mattingly, da CNN, relataram em meados de outubro, a Reserva dos EUA continua a ser a maior do mundo, embora tenha atingido o nível mais baixo dos últimos 38 anos quando o presidente Joe Biden libertou uma grande parte para ajudar a manter os preços do petróleo baixos, após a invasão da Ucrânia pela Rússia (e, por coincidência ou não, antes das eleições intercalares). A Reserva tinha mais de 396 milhões de barris de petróleo bruto na semana que acabou a 4 de novembro.

Tarifas à China

Trump também se gabou das tarifas aduaneiras aplicadas à China, alegando que “nenhum presidente tinha procurado receber sequer 1 dólar da China" até ele chegar.

Os Factos: como já escrevemos várias vezes, não é verdade que nenhum presidente antes de Trump não tenha gerado receitas através de tarifas sobre os produtos vindos da China. Na realidade, os EUA aplicam tarifas aos produtos vindos da China há mais de dois séculos, e o FactCheck.org informou em 2019 que os EUA geraram uma “média de 12,3 mil milhões de dólares em tarifas alfandegárias", por ano, entre 2007 e 2016, segundo a Comissão de Comércio Internacional dos EUA DataWeb.

Além disso, são os importadores norte-americanos e não os exportadores chineses que pagam as tarifas - e estudo após estudo, durante a presidência de Trump, revelou que os norte-americanos é que acabavam por arcar com o custo das tarifas.

Subida do nível do mar

Trump afirmou que certas pessoas não falam sobre a ameaça das armas nucleares porque estão obcecadas com as questões ambientais que, segundo Trump: “Dizem que nos podem afetar daqui a 300 anos.” E acrescentou: “Dizem que o nível dos oceanos vai subir 0,30 cm nos próximos 200 a 300 anos. Mas não se preocupem com as armas nucleares que podem destruir países inteiros de uma só vez.”

Os Factos: as alegações de Trump são falsas - mesmo que ignoremos a alegação absurda de que as pessoas não estão a prestar atenção às ameaças nucleares porque estão focadas no ambiente. Espera-se que o nível do mar suba muito mais depressa do que Trump afirmou. O Serviço Nacional de Oceanos do Governo dos EUA disse na sua página que “o nível do mar ao longo da costa dos EUA deve aumentar, em média, entre 0,25 a 0,30 metros nos próximos 30 anos (2020 a 2050), o equivalente à subida registada nos últimos 100 anos (1920 - 2020)".

E embora Trump não tenha usado as palavras “alterações climáticas” na sua alegação, deixou a sugestão forte de que as pessoas dizem que as alterações climáticas podem afetar-nos só daqui a 300 anos. Isso é uma imprecisão grosseira. As alterações climáticas já estão a afetar os EUA atualmente. O Departamento de Defesa disse num relatório de 2021: “As temperaturas crescentes, as mudanças nos padrões de precipitação e as situações meteorológicas extremas mais frequentes, intensas e imprevisíveis causadas pelas alterações climáticas, estão a exacerbar os riscos existentes e a criar novos desafios de segurança para os interesses dos EUA.”

Consumo de drogas e punições na China

Trump afirmou que o líder chinês Xi Jinping lhe disse que a China não tem nenhum “problema com as drogas” porque lida de forma severa com os traficantes. O próprio Trump repetiu depois a afirmação, dizendo: “Quem for apanhado a traficar drogas na China, terá um julgamento imediato e rápido e, no final do dia, será executado. É uma coisa terrível, mas a verdade é que não têm problemas com as drogas.”

Os Factos: a afirmação de Trump não é verdadeira, tal como não era quando ele a fez durante a sua presidência. Joe Amon, diretor de saúde global da Faculdade de Saúde Pública Dornsife da Universidade de Drexel, disse que “sim, a China tem um problema com as drogas” e que “a China, como os EUA, tem um grande número de pessoas que consomem (uma ampla gama de) drogas”. O próprio governo chinês informou que “havia 1,49 milhões de consumidores de drogas registados em todo o país”, no final de 2021. No passado, as autoridades chinesas reconheceram que o número de consumidores de droga registados é uma subestimação significativa do verdadeiro consumo no país.

E embora Trump dê todo o crédito às punições severas pelo que ele afirma ser o sucesso da China no combate às drogas, o governo chinês também elogia os esforços de reabilitação, educação e combate à pobreza.

Registos presidenciais

Queixando-se de estar sob investigação criminal por levar documentos presidenciais para a sua casa e resort na Florida, Trump repetiu uma alegação já desmascarada sobre a forma como o antigo presidente Barack Obama manuseava os documentos presidenciais.

“Obama levou muitas coisas com ele”, disse Trump.

Os Factos: é falso – tal como foi sublinhado pela Administração Nacional de Arquivos e Registos, ou NARA, em agosto, quando Trump fez essa afirmação pela primeira vez. Embora Trump tenha afirmado que Obama tinha levado milhões de registos para Chicago, a NARA explicou numa declaração pública que tinha sido a própria a levar esses registos para um complexo gerido pela NARA na zona de Chicago - que fica perto de onde será a futura biblioteca presidencial de Obama. A NARA afirmou que, pela lei federal, “o antigo presidente Obama não tem controlo sobre onde e como a NARA armazena os registos presidenciais da administração dele”.

A NARA também desmentiu as recentes alegações de Trump sobre vários outros presidentes terem supostamente levado documentos para os seus Estados de origem. Também nesses casos foi a NARA que moveu os documentos, não os antigos presidentes. É costume a NARA criar instalações temporárias perto de onde serão localizadas as bibliotecas permanentes dos antigos presidentes.

Preços da gasolina

Como fez noutras ocasiões durante o mandato de Biden, Trump usou números enganadores para falar sobre o preço dos combustíveis. “Estávamos a 0,49 dólares por litro de gasolina e agora estamos nos 1,3 dólares, nos 1,5 dólares, até 2 dólares por litro, e vai ficar muito mau”, disse.

Os Factos: isto é enganoso. Embora o preço de um litro de gasolina normal tenha caído temporariamente para os 0,49 dólares (ou menos) durante o pico da pandemia de covid-19, em 2020, a média nacional do preço da gasolina no último dia do mandato de Trump, a 20 de janeiro de 2021, era muito superior – 0,63 dólares por litro, segundo dados fornecidos à CNN pela Associação Automóvel Americana. E embora existam alguns postos de gasolina remotos onde os preços são sempre muito mais altos do que a média nacional, a 15 de novembro de 2022, a média nacional era de 0,99 dólares por litro, segundo dados da AAA, e não de 1,3 até aos 2 dólares. A Califórnia, o Estado que, normalmente, tem os preços mais altos, tem uma média de 1,43 dólares.

Deportações na administração Obama

Trump afirmou na noite de terça-feira que a administração dele, ao contrário da administração Obama, convenceu países como a Guatemala e as Honduras a aceitar de volta os membros de gangues que tinham vindo para os EUA.

“Os piores gangues são os MS-13. E durante a administração de Barack Hussein Obama, não conseguiram acabar com eles. Porque os países de onde eles vieram não os aceitavam de volta”, disse Trump em Mar-a-Lago.

Os Factos: não é verdade que, como regra, a Guatemala e as Honduras não aceitassem os seus cidadãos de volta durante a administração Obama, embora tenha havido algumas exceções individuais.

Em 2016, pouco antes da presidência de Trump, nem a Guatemala nem as Honduras estavam na lista de países que o Serviço de Imigração e Fronteiras considerava “recalcitrantes” ou pouco cooperativos em aceitar o regresso dos seus cidadãos.

No ano fiscal de 2016, o último ano fiscal completo de Obama na presidência, o Serviço de Imigração e Fronteiras informou que a Guatemala e as Honduras ficaram em segundo e terceiro lugares, atrás apenas do México, em termos dos países de origem das pessoas que estavam a ser deportadas dos EUA. Podem ler uma verificação de factos mais extensa, de 2019, aqui.

Queda de míssil na Polónia

Trump afirmou também que um míssil que foi “enviado provavelmente pela Rússia” caiu na Polónia, a 80 quilómetros da fronteira. “As pessoas estão a ficar loucas e não estão nada contentes”, disse.

Os Factos: esta afirmação é falsa. Embora a Polónia tenha dito que um míssil de fabrico russo tinha caído em território polaco na terça-feira, dia 15, matando dois cidadãos polacos, a explosão aconteceu a cerca de seis quilómetros a oeste da fronteira com a Ucrânia.

Além disso, ainda não se sabe de onde foi disparado o míssil e porque caiu na Polónia.

Terminar o muro da fronteira

Trump fez uma afirmação falsa sobre uma das suas diretivas mais famosas, o muro na fronteira com o México.

“Construímos o muro e agora vamos aumentá-lo. Ora, construímos o muro - completámos o muro - e depois dissemos que íamos fazer mais, e fizemos muito mais. E fizemos muito mais. E enquanto estávamos a fazê-lo, tivemos de nos preparar para uma eleição. E, quando assumiram a administração, tinham mais três semanas para completar o que faltava do muro, o que teria sido ótimo, mas eles disseram ‘não, não, não vamos fazer isso’”, disse Trump.

Os Factos: não é nem de perto verdade que Trump tenha “concluído” o muro na fronteira.

Segundo um relatório oficial sobre o “Estado do Muro Fronteiriço”, redigido pelos Serviços de Proteção das Fronteiras dois dias depois de Trump ter deixado a presidência, tinham sido construídos cerca de 737 quilómetros do muro na administração Trump - mas cerca de 450 quilómetros do muro, identificados para construção, não tinham sido concluídos. O relatório, fornecido a Priscilla Alvarez da CNN dizia que, desses 450, cerca de 119 quilómetros de barreiras estavam “em fase de pré-construção e ainda não tinham sido adjudicados, em locais onde atualmente não existem barreiras”, e que 331 quilómetros estavam “atualmente sob contrato, no lugar de projetos delapidados e desatualizados e em locais onde antes não existiam barreiras".

Líderes democratas e a guarda nacional

Segundo Trump, os governadores e os presidentes de câmara democratas recusaram-se a pedir “ajuda” mesmo durante “um colapso total da lei e da ordem” e “nunca querem pedir que se faça alguma coisa”, portanto “enviámos a Guarda Nacional para Minneapolis e para outros lugares.”

Os Factos: esta é uma afirmação falsa que Trump gostava de fazer enquanto foi presidente. Não é verdade que Trump tenha enviado a Guarda Nacional para Minneapolis e que os líderes democratas locais se tenham recusado a pedir ajuda. Na verdade, foi o governador democrata do Minnesota, Tim Walz, - e não Trump - quem enviou a Guarda Nacional do Minnesota durante os tumultos em 2020, que se seguiram ao assassinato de George Floyd pela Polícia de Minneapolis. Walz, que serviu na Guarda Nacional do Exército durante mais de duas décadas, destacou a Guarda pela primeira vez mais de sete horas antes de Trump ameaçar publicamente mobilizar ele mesmo a Guarda Nacional.

Quando Trump fez essa afirmação falsa em 2020, o gabinete de Walz disse à CNN que o governador tinha destacado a Guarda em resposta aos pedidos das autoridades de Minneapolis e de St. Paul  -cidades também administradas por Democratas.

A acuidade de Biden

Num estilo jocoso ao falar da acuidade mental de Biden, Trump disse: “Há muitas coisas más, como ir ao Idaho e dizer 'Bem-vindos ao estado da Florida, que eu adoro'.”

Os Factos: isto nunca aconteceu. Biden, tal como Trump, cometeu gafes ocasionais quando se referia a certos locais, mas este caso é ficção. Num comício no início deste mês de novembro, Trump afirmou que Biden tinha ido ao Iowa e, erroneamente, afirmou estar no Idaho. Essa alegação falsa foi publicada numa página satírica em 2020.

Imigração Ilegal

Lamentando a imigração ilegal, Trump disse: “Acredito que estão a chegar 10 milhões de pessoas e não apenas três ou quatro milhões. Estão todos a entrar no nosso país.”

Os Factos: é falso. “Não há qualquer base empírica para a ideia de que entraram no país 10 milhões de pessoas sem documentos, durante a Administração Biden”, disse por e-mail a analista de imigração Emily Ryo, professora de Direito e Sociologia na Faculdade de Direito da Universidade do Sul da Califórnia, quando a CNN a questionou sobre a afirmação de Trump no início de novembro. Julia Gelatt, especialista do grupo de reflexão Migration Policy Institute, concordou. “Com base nos dados disponíveis, não é possível que 10 milhões de imigrantes não autorizados tenham atravessado a fronteira para os EUA durante a Administração Biden. Na verdade, a realidade é uma fração disso.”

Mark Morgan, que serviu como comissário interino dos Serviços de Fronteira na administração Trump (e chefe da Patrulha Fronteiriça na administração Obama), disse ao “The Arizona Republic” num artigo do início de novembro, que o “pior cenário” para o número de travessias ilegais da fronteira na administração Biden, até outubro, “pode ser de 6,2 milhões". A estimativa de Trump não está sequer perto deste número.

E há várias subtilezas aqui. Os Serviços de Fronteiras registaram mais de 4,3 milhões de “encontros” fronteiriços em todo o país, na administração Biden, mas esse número inclui pessoas que se apresentaram às autoridades para iniciar o processo de proteção humanitária. E embora Trump tenha usado a palavra “pessoas”, Ryo sublinhou que o número de “encontros” não é igual ao número de pessoas individuais que atravessaram a fronteira. Como muitas das pessoas encontradas na fronteira são rapidamente expulsas ao abrigo da política do Título 42 - incluindo mais de metade das pessoas encontradas no ano fiscal de 2021 - muitas dessas mesmas pessoas regressam rapidamente à fronteira para voltarem a tentar atravessar. No ano fiscal de 2021, a taxa de reincidência foi de 27%, segundo dados oficiais.

Inflação nos preços do peru

Trump afirmou: “Boa sorte em conseguir um peru no Dia de Ação de Graças. Primeiro, não vão conseguir comprá-lo e, se conseguirem, pagarão três a quatro vezes mais do que no ano passado.”

Os Factos: isto não está sequer perto da verdade. Os preços do peru aumentaram desde o último Ação de Graças, mas não chegaram nem perto de triplicar ou de quadruplicar. O preço médio anunciado nos supermercados de um peru inteiro congelado é de 2 dólares por quilograma, segundo o relatório mais recente do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos - um aumento de cerca de 10% em relação ao período homólogo do ano passado. O preço de um peru inteiro congelado aumentou cerca de 7%.

E embora Trump tenha feito estes comentários enquanto criticava a administração Biden por causa  da inflação, vale a pena referir que o mercado de perus em especial foi significativamente afetado pela gripe das aves.

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