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Doutorado em Filosofia da Ciência, Mestre em Relações Internacionais e autor em ciência política

Não há volta atrás

13 jul, 11:34
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A Europa continua a tentar preservar uma relação transatlântica que mudou profundamente. Entre ameaças às alianças, pressão sobre os aliados e o risco de uma nova crise constitucional nos EUA, Bruxelas aproxima-se do momento em que terá de traçar as suas próprias linhas vermelhas. A questão já não é saber se Trump mudará. É saber quando a UE aceitará que já não há volta atrás

O “ovo espacial” (Space Egg, no original) é o nome coloquial em Bruxelas para o Europa Building, o quartel-general do Conselho Europeu e do Conselho da União Europeia (EU). No seu interior encontra-se a famosa sala onde os líderes dos Estados-membros se reúnem: um amplo espaço dominado por uma mesa circular e por um chão e um teto multicoloridos, criando a sensação de se observar o espaço através de um caleidoscópio.

Em janeiro deste ano, esses mesmos líderes juntaram-se nesta sala, sem imprensa, sem câmaras, inclusive sem telefones, para que pudesse ocorrer uma troca franca de opiniões. O tema da conversa era em partes iguais surreal e urgente: o presidente dos Estados Unidos não só mostrava a intenção de degradar alianças construídas ao longo de mais de meio século, como ameaçava tomar pela força um território pertencente a um dos Estados-membros da EU e da NATO.

Segundo relatos, o presidente francês aventou que era preciso “traçar uma linha” e que “não havia volta atrás” na relação com os Estados Unidos (USA), ao mesmo tempo que tropas francesas se juntavam às dinamarquesas na Gronelândia para defender o território de qualquer incursão militar a mando da Casa Branca. O primeiro-ministro belga avisou que, não havendo uma inversão na atitude europeia, esta tornar-se-ia um “escravo miserável” dos USA.

Desde então, não é que o presidente americano tenha dado muitos sinais de que os seus congéneres estavam errados. Pelo contrário, insultou repetidamente o primeiro-ministro britânico e o espanhol, o chanceler alemão e o presidente francês; criou tensões com a primeira-ministra dinamarquesa e, nas últimas semanas, teve atitudes repreensíveis e misóginas para com a primeira-ministra italiana, chegando ao ridículo de a acusar de ser uma groupie que não o largava com pedidos de fotografias em conjunto. Uma birra inqualificável que lhe fez perder não só um dos poucos aliados na UE, como também criar uma crise diplomática com a Itália.

Por outro lado, por volta da mesma altura da conversa no “Ovo”, Mark Carney, também ele familiarizado com ataques, ofensas e ameaças, andava a usar o seu telefone com número britânico (de recordar que foi governador do Banco da Inglaterra) para enviar mensagens aos líderes europeus com um aviso simples: “a velha América não voltará”. Esta posição foi articulada de forma elegante e persuasiva no Fórum Económico de Davos, através do discurso do primeiro-ministro sobre os “poderes do meio”, que está agora a ganhar expressão sob a designação de “Doutrina Carney”.

Várias explicações podem ser avançadas para justificar a tentativa de manter o status quo com os EUA sob a liderança de Trump e de um Partido Republicano refém do movimento MAGA: desde a Presidente da Comissão Europeia, que continua a ser um dos principais travões a posições de maior firmeza face a Washington; ao Parlamento Europeu, que ratifica acordos económicos assentes na aplicação de tarifas cuja base legal assenta em poderes que o presidente Trump não detém por serem não constitucionais; à tentativa de ganhar tempo para a UE reforçar as suas capacidades de defesa; à necessidade de evitar que Washington suspenda o já reduzido apoio à Ucrânia; até à tentativa, por vezes patética, do secretário-geral da NATO de manter os EUA como um agente ativo da aliança.

É aqui que o vosso cronista se junta ao coro, cada vez maior, dos que defendem que há linhas que devem ser traçadas. Para Trump, a humilhação dos líderes das democracias liberais parece não ter fim à vista. As tarifas são para alterar cada vez que lhe apetecer. Os acordos são para rasgar cada vez que um Estado-membro da UE não se subjugar. O dinheiro que tem de ser gasto em armamento nunca é suficiente e, quando o é, tem de servir para compras efetuadas aos EUA. A NATO é para servir de exército pessoal em conflitos nos quais o presidente decide envolver-se. A Ucrânia deve aceitar termos favoráveis a Putin. A Gronelândia deve estar sob controlo americano.

E continua-se com este triste espetáculo: o presidente americano a envergonhar-se a si próprio e à sua nação; os líderes europeus a tentar gerir uma situação insustentável; os europeus a registarem níveis historicamente baixos de confiança nos EUA; crises energéticas, económicas e militares alimentadas pela crise no Estreito de Ormuz, e a eventual erosão de um dos princípios fundamentais do direito internacional: a livre circulação em águas internacionais.

À medida que nos aproximarmos de novembro, é bom que a UE entenda que o presidente dos EUA vai ficar cada vez mais errático, mais excessivo e mais descontrolado. O espectro de uma derrota eleitoral do Partido Republicano nas duas câmaras do Capitólio fará com que o nível de tensão interna comece a fraturar o país de uma forma não vista desde a Guerra Civil de 1861-1865, com consequências imprevisíveis. Se vier a ocorrer uma crise constitucional semelhante à observada em 6 de janeiro de 2021, com a Casa Branca e o governo federal a recusarem aceitar o resultado das eleições intercalares, essa será mais uma linha que os líderes europeus não poderão fingir não ver. O “não voltar atrás” está apenas a começar.

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