Trump proclama doutrina imperialista que defende direito divino de a América se expandir territorialmente
"Tentaram matar-me há uns meses, Deus salvou-me"; "só haverá dois géneros: masculino e feminino"; "acabaram os incentivos aos carros elétricos": o discurso de Trump na íntegra
Trump faz críticas a Biden e a um governo que ofereceu "refúgio e proteção a criminosos perigosos que entraram ilegalmente no nosso país"
O "pacificador e unificador": é assim que o 47.º presidente dos Estados Unidos diz que pretende ficar conhecido na História, ele que quer expandir território e ter "o maior exército do mundo" - "pacificador e unificador", portanto. Trump tomou posse e proferiu o primeiro discurso - começou uma nova era e vai até Marte. E atenção a esta doutrina: "Destino Manifesto"
Quando Martin Luther King disse que tinha “um sonho” estava a pensar em colocar uma bandeira norte-americana em Marte, em tornar o exército dos Estados Unidos o maior do mundo, em beneficiar a exploração de petróleo ou em abrir feridas diplomáticas com vários países.
Esta será a visão de Donald Trump, que esta segunda-feira garantiu ter o mesmo sonho do ativista negro - "Vamos realizar o sonho de Martin Luther King", prometeu. Depois listou uma série de medidas e ideologias que promete aplicar para transformar os Estados Unidos e, como sempre acontece nas asas da borboleta, transformar o mundo.
Numa lógica de uma “era dourada” que agora começa para os Estados Unidos, Donald Trump acredita que regressou ao cargo de presidente, agora efetivamente seu, depois de ter sido tocado por Deus numa tarde da Pensilvânia.
“Uma bala perfurou a minha orelha, acredito que a minha vida foi salva por Deus para tornar a América grande de novo”, afirmou, perante um auditório que se levantava para aplaudir de cada vez que havia uma pausa no discurso. Todos menos Joe Biden e Kamala Harris - ele com um ar alheado e muitas vezes aparentemente ausente, ela firme no olhar e com uma expressão de quem não concordava/acreditava em nada do que estava a ser dito.
Donald Trump não foi ao ponto de dizer se foi Deus a desviá-lo da bala, se desviou o atirador ou se moveu a bala em si, mas a partir daí viu uma oportunidade para, sempre nas suas palavras, “tornar a América grande de novo”.
“Vamos ser respeitados, invejados. Não permitiremos que se aproveitem de nós num único dia da administração Trump. Vou simplesmente pôr a América primeiro”, reiterou, afirmando que o país vai “expandir-se para novos territórios”.
Mas há mais: pela primeira vez, Donald Trump introduziu no seu discurso a doutrina do Destino Manifesto, uma teoria imperialista que advoga pela inevitabilidade da expansão territorial dos Estados Unidos - e, de acordo com essa mesma teoria, os executantes foram escolhidos por Deus.
“Vamos restaurar a integridade, competência e lealdade do governo. Fui o presidente mais testado em 250 anos de história. Aqueles que querem parar a nossa causa tentaram tirar a minha liberdade e até a minha vida”, continuou, prometendo que este 20 de janeiro será o “dia da libertação”, depois de umas eleições que espera que fiquem conhecidas como as “mais importantes” da história.
E isso, disse Donald Trump, só foi possível com a contribuição das comunidades negra e hispânicas, que votaram de forma recorde no candidato republicano. “Não vou esquecer”, garantiu, para depois lhes chegar ao coração com Martin Luther King, neste que é o dia do ativista. O tal homem que tinha um “sonho”, ficando difícil de imaginar que o seu sonho fosse pela América que Donald Trump promete implementar.
Uma América em que a indústria do petróleo e do gás natural vai voltar em força - “drill, baby drill [perfura, querida, perfura]”, disse, num apelo à exploração de combustíveis fósseis -, favorecendo interesses económicos em prol da luta contra as alterações climáticas - ah, "vão acabar os incentivos à comprar de carros elétricos". Uma América que vai ver o exército na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes em situação ilegal. Uma América onde passarão a ser permitidos apenas dois sexos, masculino e feminino, num retrocesso para a liberdade individual dos seus cidadãos.
“Vamos ter a maior quantidade de petróleo e gás natural do mundo e vamos usá-la”, sublinhou Trump, prometendo exportar energia norte-americana para todo o mundo, para que os Estados Unidos possam ser “uma nação rica outra vez”, tendo o “ouro líquido” - expressão do próprio - como base para isso.
“Em vez de taxar os nossos cidadãos, vamos taxar outros países para enriquecer os nossos cidadãos”, vincou, num discurso em que deixou em aberto uma agenda externa belicista nas palavras, mas também nas ações.
É que, ainda que tenha prometido que vai acabar com as guerras existentes e impedir que outras comecem, Donald Trump também prometeu que os Estados Unidos vão voltar a ter o maior exército do mundo.
Não se percebeu se também cabe na doutrina do Destino Manifesto, mas o agora presidente dos Estados Unidos insistiu na ideia de tomar o Canal do Panamá, que agora vê completamente controlado pela China. “Fomos maltratados, as promessas foram quebradas, os navios americanos estão a ser muito taxados e tratados injustamente. A China está a operar o Canal do Panamá, a China está lá e não o demos à China, demo-lo ao Panamá. Vamos recuperálo”, prometeu, confirmando também que quer mesmo mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América.
Isto num país que tem de passar a ser o “mais ambicioso do mundo”, o que só tem paragem possível, segundo o próprio, em Marte, onde Donald Trump quer colocar uma bandeira norte-americana.
“Na América, o impossível é o que fazemos melhor”, terminou, pedindo ajuda para reconstruir um país que quer ver voltar a ser respeitado e admirado. Ele que quer ser recordado na história como o "pacificador e unificador".
