Donald Trump sai “fortalecido” deste ataque - um momento descrito por americanos como “icónico”. Tudo depende de como irá “construir o seu discurso”, mas especialistas apontam que ter sobrevivido a um atentado poderá ter feito com que ganhe as eleições
"Provavelmente esta noite Donald Trump ganhou as eleições". Depois do antigo presidente dos EUA ter sobrevivido a uma tentativa de assassínio durante um comício na Pensilvânia, Cristina Reyna, especialista em relações internacionais, marca este acontecimento como um momento decisivo nas eleições americanas de 2024.
O atentado à vida do candidato à Casa Branca, que teve lugar em Butler na Pensilvânia, este sábado, tornou-se num momento descrito por cidadãos americanos como "icónico". Donald Trump, coberto de sangue, destemido e provocador, rodeado por agentes dos Serviços Secretos dos EUA, gritando repetidamente a palavra "luta" enquanto é levado para um local seguro.
“Este evento criou um momento para Trump”, diz a especialista em relações internacionais, Sónia Sénica. Pouco depois do tiroteio, comerciantes não perderam tempo em vender t-shirts online com fotografias do momento.
they already got the picture of Trump getting shot at on t shirts in stores 😭😭😭 pic.twitter.com/KJDo47hRVV
— FearBuck (@FearedBuck) July 14, 2024
Em análise ao tiroteio, Joana Ricarte, também especialista em relações internacionais, sublinha que há uma clara “deterioração do debate político americano”, que tem vindo a ficar cada vez mais polarizado ao longo dos anos. A especialista destaca que nos EUA “há um apelo à violência política” que, “ironicamente ganhou muita força e atração com os discursos e ações de campanha de Donald Trump". Há três anos, o mundo assistiu a uma multidão furiosa, instada pelo ex-presidente, avançar contra as forças de segurança e invadir à força o Capitólio, sede do poder legislativo americano, em Washington, lembra.
Neste sentido, Ricarte afirma que a primeira leitura que faz é que “certos tipos de discurso, que têm vindo a ser normalizados junto das elites políticas, têm impacto”. No caso em concreto, “chegou a vitimar duas pessoas e quase que também Trump”. O antigo presidente sobreviveu, mas se a bala tivesse voado um ou dois centímetros mais para a direita, as coisas podiam ter sido diferentes. De acordo com o Major-General Agostinho Costa, comentador da CNN Portugal, foi o teleponto que o salvou. Isto porque, o facto de estar constamente a olhar para a direita e a esquerda dificulta o trabalho do atirador, identificado pelo FBI: Thomas Matthew Crooks, 20 anos.
As eleições americanas realizar-se-ão em novembro, este episódio poderá marcar a corrida à Casa Branca, mas tudo depende de como ambas as campanhas irão tirar proveito deste evento. Joana Ricarte acredita que nos próximos quatro meses iremos ver “como tudo isto vai ser utilizado” e de que forma irá Donald Trump “construir o seu discurso”. “Trump sai fortalecido”, inclusive saiu pelo próprio pé, frisa.
"Este incidente é uma variável que altera tudo”, acrescenta a especialista, lembrando que em 2018, no Brasil, Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante um comício que promovia a sua campanha eleitoral. “Esse momento transformou o candidato numa vítima e isso foi instrumentalizado através do discurso político que propiciou a sua vitória”. Por esta razão, a especialista defende que podemos estar perante “um momento de viragem” na campanha de Trump.
“Não há dúvida que Trump tem uma maior possibilidade de regressar à Casa Branca do que tinha antes”, defende Sónia Sénica, antevendo que “as sondagens irão materializar esta tese”. Na sua ótica, o ex-presidente americano sai deste episódio “revitalizado”. O tenente-general Marco Serronha, comentador da CNN Portugal, vai na mesma linha: “Esta dinâmica vai favorecer a campanha de Donald Trump”.
Por todo o mundo não tardaram a chegar as reações de todos os espectros políticos. Rapidamente houve uma manifestação de “repúdio e contestação”, quer internamente como internacionalmente, aponta Sónia Sénica. “O próprio Trump foi prontamente para as redes sociais dizer que tinha sido atacado, estava bem mas tinha força para continuar”.
Daniela Nunes, especialista em relações internacionais, argumenta que apesar de Trump ser conhecido como “tempestivo”, este incidente acaba por tornar “humanizar a campanha”. Tendo em conta outros alvos políticos de ataques, Nunes afirma que as vítimas deste tipo de atentados “recolhem a compaixão das pessoas e aqueles que não morrem são eleitos”. “Não temos uma bola de cristal e estamos longe das eleições, mas ainda assim podemos prever uma vitória de Trump”.
A imagem que sai deste episódio é de um Trump “a demonstrar força”, destaca Joana Ricarte, notando o contraste que faz com o “estado de saúde de Joe Biden, que tem apresentado alguma fraqueza”, levando a que até os seus apoiantes democratas duvidem da sua capacidade de manter o cargo. Assim, Ricarte defende que “intencionalmente ou não” Trump passa uma imagem, "saindo fortalecido".
Nas últimas semanas, o foco estava na debilidade e gafes de Joe Biden, que têm vindo a dividir a opinião pública. O deslize mais recente do atual presidente norte-americano foi ter se referido a Volodymyr Zelensky como Putin, na Cimeira da NATO. Será que debate em torno da sua idade e capacidade para manter o cargo deverá ficar para segundo plano? José Palmeira, especialista em relações internacionais, defende que a "forma vigorosa com que Trump reagiu fisicamente" irá acentuar o contraste com a debilidade que Biden revela.
Segundo o tenente-general Marco Serronha, podemos vir a ter mais um candidato às eleições americanas debilitado.“Este incidente causará um impacto psicológico para Donald Trump no futuro”. O comentador da CNN Portugal prevê que Trump possa passar a estar "mais recatado no seu discurso de ódio” e “é certo que terá mais segurança”. Serronha acrescenta ainda que se Trump vier a “controlar o seu discurso de ódio”, poderá causar alguma contrariedade dentro dos republicanos, correndo o risco de sofrer outros atentados.
Os olhos estão postos na Convenção Nacional Republicana que terá início esta segunda-feira, em Milwaukee, no estado do Wisconsin. A campanha de Trump garantiu que o candidato estará presente e espera-se que anuncie a sua escolha para vice-presidente.