Se estivéssemos em 2019 tudo seria diferente. Mas não estamos e agora há uma guerra no meio da Europa, que preferiu não abrir um novo conflito e continuar a contar com duas coisas que só os Estados Unidos podem dar por agora
À beira-mar e sob os holofotes da política mundial, Donald Trump e Ursula von der Leyen chegaram no domingo a um consenso sobre aquele que ambos classificam como “um acordo histórico”: tarifas fixas de 15% sobre todos os produtos da União Europeia exportados para os EUA, acompanhadas de um pacote europeu de investimento externo que ultrapassa os 500 mil milhões de euros, aos quais se somam quase 650 mil milhões em importações de energia americana e um reforço substancial das compras militares.
A presidente da Comissão Europeia diz que o acordo comercial trará estabilidade. O presidente norte-americano fala no “maior negócio de sempre”. Mas o continente europeu acordou esta segunda-feira profundamente dividido, com líderes políticos, industriais e especialistas a questionarem se a Europa não terá, na verdade, cedido demasiado.
"É uma derrota. Mas era o acordo possível"
Francisco Pereira Coutinho, especialista em Relações Internacionais, não tem dúvidas: “É uma derrota. Mas era o acordo possível”. E explica porquê: “As tarifas decretadas pelos EUA à Europa eram de 1,5%. Agora passam para 15%. Multiplicam-se por dez.” Ainda assim, reconhece que o cenário podia ser pior: “Havia a ameaça de tarifas de 30%. Entre o mal e o péssimo, ficou-se pelo mal menor.”
Para Pedro Trovão do Rosário, há uma palavra que se destaca: "alívio". Não entusiasmo, não celebração, apenas alívio. “Relativamente àquilo que era a expectativa há dois dias, o sentimento é de alguma folga. Evitou-se o pior.”
O especialista em Direito Internacional chama, no entanto, a atenção para a incerteza jurídica e política em torno do acordo comercial.
“Fala-se em 15%, mas esse número ainda está em aberto. Há setores onde a tarifa vai descer, mas há obviamente um agravamento generalizado. Muitos detalhes continuam indefinidos: bens, serviços, matérias-primas.”
"Donald Trump comeu Ursula von der Leyen ao pequeno-almoço"
Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Órban criticou o acordo comercial de forma brutalmente direta.
“Não foi Donald Trump que concluiu um acordo com Ursula von der Leyen, foi antes Donald Trump que comeu Ursula von der Leyen ao pequeno-almoço. Foi isso que aconteceu", declarou numa entrevista.
Para o líder húngaro, a União Europeia saiu "derrotada" e o acordo "é pior" que o obtido pelo Reino Unido em maio.
Francisco Pereira Coutinho considera que o verdadeiro problema é estrutural: “É acima de tudo uma derrota que resulta das dependências que nós temos dos EUA no domínio da Segurança e da Energia - e que só se vão agravar com este acordo. Essa dependência foi explorada por Donald Trump para maximizar os ganhos negociais.”
O especialista também aponta o dedo à falta de coesão entre os países europeus: “Trump só reage a posições de força. Só que houve um grande dissenso entre os Estados europeus para chegar a uma posição comum para enfrentar os EUA. Aquilo que observámos foram posições muito diferentes. Cada Estado puxou para o seu lado. Não conseguimos um acordo melhor porque não conseguimos uma posição comum forte.”
Resultado? Um acordo inferior ao desejado. “O Reino Unido conseguiu 10% e tinha sido essa a base negociada no inicio de julho. Houve outros países que conseguiram 19%, mas nós somos uma das maiores potências económicas mundiais. Esses países são uma potência económica como é a União Europeia? Não, não são. Como é que nós não conseguimos um acordo melhor? É verdade que o Japão também teve um acordo de 15%, mas a economia japonesa é mais pequena do que a europeia", acrescenta.
Paris juntou-se ao coro de críticas. O ministro francês do Comércio Externo, Laurent Saint-Martin, considerou o acordo “desequilibrado” e alertou que “a Europa precisa de se afirmar como potência económica”. O primeiro-ministro, François Bayrou, foi ainda mais duro: “É um dia sombrio quando uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar os seus valores comuns e defender os seus interesses comuns, se resigna à submissão", escreveu no X.
Von der Leyen jogou pelo seguro
Apesar das críticas, Pereira Coutinho entende a estratégia da presidente da Comissão Europeia: “Acima de tudo, von der Leyen quis manter as relações estáveis com os EUA. Temos uma guerra na Europa e precisamos de um aliado do outro lado do Atlântico, não de um adversário. Quis evitar uma guerra comercial."
Terá a Europa escolhido estabilidade a qualquer custo? Francisco Pereira Coutinho defende que sim.
O acordo, acredita, mais do que uma concessão económica, é uma tentativa de evitar um conflito político maior: “Estivéssemos nós em 2019 e possivelmente não seria este o acordo, seria um acordo muito diferente, mas a situação geopolítica na Europa é o que é e von der Leyen preferiu um mau acordo a uma situação muito instável e muito problemática".
A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, embora mais comedida, deixou claro que “o acordo não é juridicamente vinculativo” e “carece de detalhes”, principalmente no que toca a investimentos em gás natural. Ainda assim, preferiu focar-se no facto de se ter evitado “um agravamento devastador das relações comerciais”.
Para Pedro Trovão do Rosário, a Europa entrou nesta negociação em clara desvantagem estrutural. Enquanto os EUA atuam com a unidade e centralização de um Estado federal, a UE apresentou-se dividida.
"O presidente norte-americano atua com uma margem de manobra superior. Já a UE precisa de navegar entre uma diversidade de sensibilidades políticas e diplomáticas muito diversas. Há diversas formas de compreensão da relação com os EUA. O Reino Unido, por exemplo, obviamente que tem uma sensibilidade completamente diferente daquela que países como a Alemanha, Espanha ou França têm porque há laços históricos envolvidos", argumenta.
A Alemanha, que tem na indústria automóvel uma das suas colunas vitais, já se mostrou preocupada. Hildegard Mueller, presidente da federação dos fabricantes de automóveis (VDA), estima que as tarifas de 15% “custarão milhares de milhões de euros por ano” às empresas alemãs. Os fabricantes alemães tinham até agora uma vantagem estratégica no acesso ao mercado norte-americano, vantagem que agora fica enfraquecida.
Já a ministra da Economia do país, Katherine Reiche, afirmou que o acordo comercial oferece segurança em tempos difíceis, embora a taxa tarifária de 15% represente um desafio para as empresas.
"O acordo, com a tarifa base de 15%, é certamente algo que nos vai desafiar. Mas o que tem de bom é que oferece segurança", declarou.
A ministra acrescentou ainda que é importante esclarecer a forma como o acordo será implementado. Algo que o especialista em Relações Internacionais considera "essencial".
“Ainda há muito por definir. O acordo não é um documento fechado. É uma etapa", afirma Pedro Trovão do Rosário. A aplicação concreta vai depender das decisões que forem tomadas nas próximas semanas, tanto em Washington, DC como em Bruxelas.
Europa dividida, posições desalinhadas
O comissário europeu para o Comércio, Maros Sefcovic, declarou esta segunda-feira estar 100% seguro de que o acordo traz estabilidade e é melhor do que uma guerra comercial.
“Se eu tivesse de resumir este acordo UE-EUA numa frase, diria que traz uma estabilidade renovada e abre a porta à colaboração estratégica”, afirmou em conferência de imprensa.
Em Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez adotou uma posição de apoio tático, mas "sem entusiasmo".
"Valorizo o esforço construtivo da Comissão Europeia, mas apoio este acordo sem entusiasmo", declarou Sánchez, sublinhando a distância entre o que foi alcançado e as expetativas iniciais.
Em Portugal, o secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, defende que o Governo português deve realizar rapidamente uma avaliação dos impactos em setores como o calçado, vestuário, metalomecânica e saúde.
“É essencial perceber o efeito direto destas tarifas na economia nacional, mas também o seu impacto indireto no quadro europeu, já que vendemos mais de 70% para a Europa,” afirmou.
Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal agradece à Comissão Europeia “o empenho para conseguir esta plataforma de estabilização das relações comerciais” e promete apoiar as empresas portuguesas na mitigação de "efeitos negativos" e na facilitação do "acesso a novos mercados".
