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Doutorado em Filosofia da Ciência, Mestre em Relações Internacionais e autor em ciência política

Um 'five-alarm fire'

8 jun, 10:02
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Continuando a prática de promover pessoas incompetentes para posições de relevo na Administração apenas pela sua lealdade, Trump decidiu agora "pegar fogo" a uma das instituições mais poderosas e capazes dos Estados Unidos: os serviços de informação e segurança. O objetivo será ganhar mais um instrumento para a perseguição de adversários políticos e manter alinhados aqueles que o seguem. O efeito secundário poderá ser igualmente grave: destruir a confiança dos aliados europeus numa colaboração de décadas que continua a ser essencial para a segurança de ambos os lados do Atlântico

No sistema de combate a incêndios nos Estados Unidos (EUA), o nível de gravidade de um fogo é medido por "alarmes" (alarms), sendo um "five-alarm fire" o nível máximo, como um arranha-céus em chamas ou um quarteirão inteiro a arder. Esta expressão é também frequentemente usada no comentário político para descrever situações preocupantes e aflitivas que estão, ou podem vir a estar, em desenvolvimento.

Sabe-se que, quando Trump chegou pela primeira vez à presidência dos EUA, a Administração de então foi, na sua maioria, constituída por pessoas capazes e responsáveis. Vindas do “aparelho” conservador, serviram de guardiões de algumas das normas e princípios de governação, conseguindo, a custo, suprimir alguns dos impulsos mais estouvados do Presidente.

No entanto, e como muitos tinham avisado (entre os quais o cronista se inclui), um segundo mandato acabaria por conduzir ao desmoronamento desse preceito, resultando no que hoje se observa: um círculo interno de governação composto por incapazes, fanáticos e subservientes, não só incapazes de contrariar o Presidente, como também incumbidos da enjoativa e degradante obrigação de o elogiar constantemente, em rituais que fariam, possivelmente, Kim Jong-un corar de embaraço.

Em mais uma demonstração de que o decoro, o bom senso e a responsabilidade associada ao cargo não são coisas que o motivem, o Presidente continua a destruir a sua reputação, ou o que dela resta, e, com isso, a da própria Casa Branca. Não existe uma agenda política coerente: o Irão e Israel têm-no vindo a expor no palco internacional, a sua popularidade encontra-se em mínimos históricos e a sua cruzada para punir inimigos pessoais e políticos está praticamente paralisada.

Porém, se se pensava que escolhas como as de Pete Hegseth, antigo apresentador televisivo de fim de semana, para Secretário da Defesa, ou de Sean Duffy, ex-participante de um reality show da MTV, para Secretário dos Transportes, ou de Linda McMahon, antiga CEO de uma empresa de espetáculos de luta livre, para Secretária da Educação, ou ainda de Robert F. Kennedy Jr., figura antivacinas e anticiência, à frente do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, representariam o auge da disfunção governativa, entra agora em cena Bill Pulte.

Sendo o presidente da Agência Federal de Financiamento da Habitação (FHFA no orginal), ocupa um cargo para o qual não é qualificado. O único “contributo” que lhe é atribuído foi a sugestão de serem criados empréstimos à habitação a 50 anos, o que obrigou a Casa Branca a entrar em “controlo de danos” depois de o próprio Presidente ter apresentado essa medida como uma opção viável. O outro momento de “fama” ocorreu quando Pulte mostrou a Trump uma imagem deste como Jesus Cristo, que, como seria de esperar, acabou por ser partilhada pelo Presidente na sua rede social.

Pulte vai ser agora, interinamente, Diretor dos Serviços de Informação e Segurança dos EUA (Director of National Intelligence - DNI), uma escolha inacreditavelmente absurda para a liderança dos serviços de informação e segurança. Não tem qualquer experiência em áreas relacionadas com segurança nacional, o que contraria os próprios requisitos legais do cargo, que estabelecem que qualquer nomeado deve possuir vasta experiência nesse domínio. De facto, Pulte nem sequer seria capaz de passar um controlo de segurança (e o cronista sabe bem o quão exaustivos esses processos são) para ser admitido como membro dos serviços de informação e segurança, muito menos para os liderar.

Contudo, fez algo que agradou profundamente a Trump: perseguiu os inimigos do Presidente com ferocidade, tenacidade e despudor. Na FHFA, Pulte dedicou-se a encontrar formas de usar os instrumentos ao seu dispor para rever pedidos de crédito federais apresentados por opositores políticos de Trump, em busca de alegadas discrepâncias que pudesse denunciar como fraude e transformar em queixas criminais. Pulte lançou as bases para investigações de fraude contra o então congressista Eric Swalwell, o agora senador Adam Schiff, a governadora da Reserva Federal Lisa Cook e a procuradora-geral de Nova Iorque Letitia James.

A nomeação de Pulte sugere que Trump pretende continuar a sua agenda de vingança, ou de controlo de legisladores republicanos, recorrendo à poderosa máquina dos serviços de informação e segurança sob a alçada do DNI. O ODNI (Office of the Director of National Intelligence) foi criado para liderar, fiscalizar e integrar a Comunidade de Informações (IC), que hoje engloba 18 agências, incluindo o FBI, a CIA, a National Security Agency e a Defense Intelligence Agency, entre outras. Agora imaginem um sectário, com o único propósito de agradar ao Presidente e sem reservas para o fazer, e, presumivelmente, com um perdão por qualquer crime federal, a utilizar este aparato para replicar o que fez na FHFA.

Porém, e este será um tema a que voltaremos repetidamente neste espaço, um dos principais receios é o que possa acontecer na eleição intercalar de novembro. O Presidente afirmou numa declaração pública que uma das funções de Pulte será investigar eleições que Trump alega falsamente terem sido viciadas. Como já referido anteriormente, Tulsi Gabbard, que ocupou o mesmo cargo que Pulte agora assume, esteve envolvida na promoção de teorias da conspiração relacionadas com as eleições de 2020.

E essas tentativas vão ser cada vez mais insistentes. Quando Trump acorda de uma sesta durante conferências de imprensa na Sala Oval e afirma que as eleições primárias para governador e para presidente da câmara de Los Angeles são fraudulentas, o aparelho jurídico dos EUA é imediatamente mobilizado, mesmo que não haja o mínimo indício de irregularidades. Tudo para tentar, sempre e sempre, tornar real o imaginário do Presidente.

Porém, também são de esperar efeitos de segunda ordem, um dos quais nos envolve diretamente. Agências europeias como a Direction Générale de la Sécurité Extérieure francesa, o Bundesnachrichtendienst alemão, ou o Serviço de Informação de Segurança português partilham informação sensível com os EUA sobre terrorismo, movimentos de tropas russas ou ciberespionagem chinesa. Um receio natural é que Pulte possa usar relatórios secretos europeus para benefício político interno de Trump ou, pior, para expor opositores. Ou, caso os serviços de informação e segurança europeus deixem de confiar, ou confiem ainda menos, na integridade do DNI, a reação natural será a autoproteção, com a redução da partilha dos dados mais sensíveis com Washington. Este é mais um argumento a favor do reforço do European Union Intelligence and Situation Centre (INTCEN) da União Europeia (UE).

Cada vez que se diz que “as coisas parecem que não poderão piorar” com a Administração Trump no controlo do governo dos EUA, descobre-se mais um nível de irresponsabilidade e disfunção. Como dito repetidamente neste espaço, é importante que a Europa e a UE compreendam os riscos deste momento perigoso em que nos encontramos.

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