Comportamento de Trump gera novas dúvidas sobre lucidez mental e americanos mostram-se cada vez mais alarmados com atitudes do presidente
A semana ainda agora começou. Mas já foi bastante intensa para o presidente Donald Trump.
No espaço de 24 horas, pareceu adormecer novamente enquanto o principal responsável norte-americano pela saúde falava sobre os perigos da diminuição da fertilidade masculina entre adolescentes. Chamou à Casa Branca uma “casa de merda”. Especulou sobre transformar a Venezuela no 51.º estado norte-americano (depois de já ter “capturado” o respetivo líder). E teve dificuldades em identificar Curt Cignetti, treinador de futebol americano da Universidade de Indiana, apesar de estar ao lado dele e aparentemente o ter olhado diretamente momentos antes.
E, ao final da noite de segunda-feira, lançou uma avalancha caótica de publicações nas redes sociais que se destacou até pelos seus padrões frequentemente extravagantes: publicou e republicou mais de 50 vezes em menos de uma hora. Entre essas publicações estavam teorias há muito desmentidas sobre máquinas de voto da Dominion terem eliminado milhões de boletins nas eleições de 2020, referências à polémica do servidor de emails de Hillary Clinton, uma alegação falsa sobre um senador republicano retirada de um site satírico, imagens de inteligência artificial pouco favoráveis de democratas conhecidos, três vídeos depreciativos sobre pessoas negras (incluindo um com a legenda “Sempre a conspirar…”) e duas publicações distintas a defender a detenção do antigo presidente Barack Obama.
É um tipo de comportamento que suscita inevitavelmente preocupação. Mas Trump, que faz 80 anos em junho, conseguiu até agora evitar um verdadeiro escrutínio sobre isso. E isso acontece, em grande parte, porque passou mais de uma década a fazer coisas bizarras em público, muito antes de ser considerado idoso.
Na verdade, o presidente é avaliado de forma diferente nestas matérias. Enquanto se queixa frequentemente de que os seus adversários sofrem da chamada “Síndrome de Perturbação Trump”, também beneficia de uma espécie de “Síndrome de Dessensibilização Trump”.
Mas há cada vez mais sinais de que os norte-americanos estão mais preocupados com a sua conduta.
Exemplos recentes
Os episódios desta semana estão longe de ser os únicos exemplos recentes do comportamento estranho de Trump.
No mês passado, Trump afirmou repetidamente que o Irão tinha concordado com todas as suas exigências — algo que continua sem qualquer fundamento aparente. A sua retórica sobre a guerra tem sido consistentemente desligada da realidade.
A certa altura, afirmou que o próprio vice-presidente tinha partido de avião para o Paquistão para negociar o fim da guerra. Só que JD Vance continuava em território norte-americano — e acabou mesmo por não ir.
Alguns antigos aliados de Trump chegaram a sugerir a invocação da 25.ª Emenda da Constituição para o afastar do cargo, depois de este ameaçar destruir “uma civilização inteira” e aparentar defender crimes de guerra no Irão.
E, no início deste mês, Trump teve várias aparições públicas marcadas por discursos erráticos e muitas vezes confusos, incluindo um evento particularmente desconexo a 1 de maio, em The Villages, na Florida, onde insultou várias vezes e gritou devido a um microfone avariado.
Porque as pessoas relativizam
Mas Trump passou anos a construir a tolerância dos norte-americanos a este tipo de comportamento — consciente ou inconscientemente.
Há alguns anos, depois de algumas aparições públicas confusas durante a campanha de 2024, começou a falar sobre “the weave” (“o entrelaçado”) para descrever a forma como “fala sobre nove coisas diferentes e no fim tudo acaba por se ligar brilhantemente”.
Trump exagerava a coerência final do que dizia nestes discursos. Mas conseguiu apresentar os seus discursos por vezes erráticos como uma espécie de piada interna da qual fazia parte — ou até como sinal de um génio retórico secreto, para quem estivesse predisposto a acreditar nisso.
As mentiras constantes e outras falsidades de Trump — como no caso da guerra com o Irão — também foram frequentemente recebidas com indiferença à medida que se repetiam. Depois de acumular mais de 30 mil declarações falsas ou enganosas durante o primeiro mandato, os erros factuais de Trump deixaram praticamente de ser notícia.
Com o tempo, torna-se difícil distinguir o que pode ser mentira estratégica das falsidades desligadas da realidade que o presidente profere.
Trump também demonstrou ao longo da carreira uma forte tendência para procurar atenção — e, como qualquer estrela de reality show diria, a forma mais fácil de captar atenção é fazer algo estranho ou chocante.
Mas quando isso acontece repetidamente, o público torna-se menos capaz de distinguir entre provocações deliberadas e lapsos involuntários. Há uma tendência para acreditar que tudo faz parte do espetáculo.
Os norte-americanos parecem agora mais preocupados
Mas as pessoas só conseguem suspender a descrença durante algum tempo. Quando os lapsos se tornam mais evidentes e frequentes, os observadores começam inevitavelmente a questionar-se sobre o que se passa e se a idade poderá estar a desempenhar algum papel.
Além disso, os eleitores podem ter mais dificuldade em ignorar as gafes de Trump à medida que este perde popularidade — como mostram sondagens recentes.
De facto, além dos elevados índices de desaprovação, os dados mostram claramente que os norte-americanos veem cada vez mais Trump como alguém algo instável.
Uma sondagem recente da Reuters/Ipsos revelou que 61% dos norte-americanos — e até 30% dos republicanos — consideram que Trump se tornou “mais errático com a idade”.
Outra sondagem mostrou que os norte-americanos consideram, por 71% contra 26%, que Trump não é uma pessoa “equilibrada” — um valor ainda mais expressivo do que os 62% contra 37% registados pelo Pew Research Center após as eleições de 2024.
Uma sondagem Washington Post-ABC News-Ipsos, divulgada no mês passado, revelou que 59% dos norte-americanos consideram que Trump não possui a lucidez mental necessária para exercer o cargo de presidente — o valor mais elevado de sempre e 16 pontos acima do registado em 2023.
E a mesma sondagem revelou que 67% dos norte-americanos acreditam que Trump não pondera cuidadosamente as decisões importantes. Até 30% dos republicanos concordaram com essa afirmação.
Basta pensar no que isso significa: a maioria das pessoas acredita que o líder do país, responsável por tomar decisões de vida ou morte, não o faz com o devido cuidado.
É uma visão extremamente negativa de Trump enquanto presidente. E não por coincidência, consolidou-se precisamente numa altura em que a popularidade de Trump atingiu mínimos históricos.
Não é que as pessoas nunca tenham reparado nestes comportamentos — é que estão a tornar-se cada vez mais difíceis de ignorar.
