Na fotografia principal deste artigo, o presidente dos EUA, Donald Trump, exibe uma imagem do salão de baile que planeia construir no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, D.C., a 22 de outubro de 2025
Quando a história da presidência de Donald Trump for escrita, é muito provável que uma palavra se destaque: arrogância.
Basta ver como tem tentado aplicar o seu nome — e a sua estética — por toda o governo e por toda a América.
Num período de assinalável crise económica, Trump decidiu, do nada, demolir a Ala Leste da Casa Branca para construir um grande e luxuoso salão de baile, com o objetivo de realizar festas com pessoas poderosas.
Mesmo com a sua popularidade em queda livre, atingindo níveis raramente vistos na história recente dos Estados Unidos, Trump insiste em esforços pouco convencionais para estampar o seu nome e imagem em todo o tipo de edifícios e produtos governamentais — desde o Kennedy Center e o Instituto da Paz dos EUA, passando por bilhetes para parques nacionais, contas de poupança, um site de medicamentos, uma nova classe de navios de guerra, caças, vistos para ricos, moedas de ouro, notas de dólar e, mais recentemente, passaportes.
Até agora, tínhamos poucas pesquisas estatísticas para avaliar como estas iniciativas foram recebidas pelo povo americano. Contudo, ao que parece, os americanos consideram que estas coisas são tão horríveis quanto parecem.
As primeiras sondagens de opinião sobre o salão de baile mostram que era extremamente impopular.
Todavia, mesmo naquela altura, era compreensível que se pensasse que era uma ideia temporária. Talvez fosse só chocante para os americanos ver a demolição de uma grande parte da Casa Branca. Talvez percebessem o valor de um espaço mais amplo para acolher eventos num complexo como a Casa Branca – e que Trump diz ser financiado com recursos privados.
Ou talvez não.
Uma nova sondagem do Washington Post-ABC News revelou que os norte-americanos detestam a ideia, tanto hoje como em outubro.
Se na altura se opunham à demolição da Ala Leste e ao projeto do novo salão de baile com uma distribuição de 56% contra 28%, hoje a oposição é (também) de 56% contra 28%.
Os republicanos parecem ter percebido que há aqui uma oportunidade. Lançaram-se, de cabeça, numa campanha a favor do salão de baile após o tiroteio no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, no hotel Washington Hilton.
Segundo a apresentação inicial da ideia, um salão de baile seria um local mais seguro para este tipo de eventos – mesmo que, na realidade, não funcione para o referido jantar, por uma série de razoes. Chegou-se mesmo a ponderar gastar 400 milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes – e não os donativos privados que Trump sempre alegou que financiariam o evento.
A sondagem do Washington Post-ABC News foi realizada tanto antes como depois do tiroteio. E embora tenha constatado um aumento modesto do apoio republicano ao salão de baile após o sucedido, uma análise estatística mostrou que, no geral, “não houve uma mudança significativa de opinião associada ao tiroteio”.
Os americanos continuam a opor-se ao projeto, numa escala de 2 para 1. Aqueles com opiniões fortes sobre o assunto ainda se opõem por uma margem de 3 para 1 – tal como antes do tiroteio.
O veredicto da sondagem foi ainda pior para outras duas tentativas de decoração de Trump.
O plano de Trump para construir um arco do triunfo de 76 metros entre o Lincoln Memorial e o Cemitério Nacional de Arlington?
Há 52% dos americanos que se opõem, contra 21%.
Só uma pequena maioria dos republicanos (51%) apoia a proposta. Os independentes opõem-se a ela numa escala de quase 5 para 1 (57% contra 12%).
A proposta para o arco, tal como o salão de baile, também recebeu um retorno público extremamente negativo junto da comissão reguladora competente.
E em relação à decisão do Tesouro dos EUA de colocar a assinatura de Trump nas notas? É a primeira vez que isto acontece com um presidente em exercício.
Os americanos opõem-se ainda mais: 68% contra 12%.
Até os republicanos se opõem a esta proposta por uma margem de dois dígitos, 42% contra 28%. E praticamente não há suporte fora dos apoiantes republicanos de Trump. Os republicanos não apoiantes de Trump opõem-se numa escala de 64% contra 10%.
Há também novos dados do Pew Research Center a mostrar que só 9% dos norte-americanos consideram apropriado dar o nome de Trump aos edifícios governamentais enquanto ele ainda é presidente.
Outros 21% disseram que seria aceitável depois de Trump deixar o cargo. Há 50% a dizer que não seria aceitável nem de uma forma nem de outra. Os restantes 19% não emitiram o seu veredito.
Além destas sondagens, não existem muitos outros dados sobre os esforços de Trump para estampar o seu nome em tudo.
Uma sondagem da CNN realizada em janeiro, depois de o conselho de administração do Kennedy Center ter votado a favor da colocação do nome de Trump no edifício, parece confirmar que os norte-americanos não gostam, de um modo geral, destas “mudanças em instituições culturais” como o Kennedy Center e o Smithsonian.
Foram 62% os norte-americanos — incluindo 30% de republicanos — a dizer que Trump tinha “ido longe demais” com estas mudanças.
Das oito iniciativas de Trump que foram sujeitas ao escrutínio, esta foi aquela que mais foi reconhecida com o carimbo “ultrapassou os limites”.
No mundo da análise política, às vezes parece que Trump não é prejudicado por nada daquilo que faz. Afinal de contas, a sua taxa de aprovação revelou-se resiliente, ainda que baixa, durante um longo período.
Contudo, por vezes, as ações que parecem algo loucas a olho nu acabam por ser percebidas dessa forma pelo povo americano.
Agora que o presidente dos EUA está a perder apoios como nunca, por causa da guerra com o Irão e dos elevados preços da gasolina, é evidente que dourar Washington e adornar o governo dos EUA com mais Trump não está a ajudar nada.
