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Chegou o filme que Trump não queria que víssemos

17 out 2024, 09:00
Donald Trump com Roy Cohn na inauguração da Trump Tower em Nova Iorque em 1983 (Sonia Moskowitz/Getty Images)
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A menos de um mês das eleições presidenciais norte-americanas, menos de uma semana depois de ter estreado nos Estados Unidos, o filme "The Apprentice - A História de Trump" chega esta quinta-feira aos cinemas portugueses

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Tony Schwartz está sentado com Donald Trump no escritório do empresário em Nova Iorque a ouvi-lo expor as suas três regras para vencer: atacar, atacar, atacar; não admitir nada; reivindicar sempre vitória e nunca admitir a derrota. Ao ouvir a terceira regra, o jornalista da revista New Yorker larga um comentário sarcástico - “Soa à política externa norte-americana do último quarto de século.” Se o encontro acontecesse hoje, o comentário seria muito provavelmente direcionado à carreira política de Trump, um simpatizante dos democratas tornado líder dos republicanos que, até hoje, mantém que as eleições de 2020 lhe foram roubadas pela campanha de Joe Biden.

A cena, ficcionada, surge na reta final de “The Apprentice - A História de Trump”, o filme que o ex-presidente dos Estados Unidos e novamente candidato à Casa Branca tentou travar a todo o custo, sob o argumento de que Hollywood está a tentar impedir a sua reeleição - e que, vitorioso e não sem algum estrondo, chega esta quinta-feira às salas de cinema portuguesas, quando falta menos de um mês para a ida às urnas nos EUA. 

O verdadeiro encontro entre Trump e o jornalista teve lugar no final dos anos 1980, a primeira de uma série de reuniões entre os dois homens para produzir a já famosa autobiografia do empresário Trump, "The Art of the Deal" (“A Arte da Negociação”), que após chegar aos escaparates em 1987 vendeu mais de um milhão de exemplares, ocupando a lista de bestsellers do New York Times durante 48 semanas, 13 delas em primeiro lugar.

Décadas depois, quando Trump desceu as escadas rolantes da torre-hotel com o seu nome para anunciar ao mundo que ia candidatar-se à presidência dos Estados Unidos, o verdadeiro Schwartz estava duplamente atento. “Precisamos de um líder como aquele que escreveu ‘A Arte da Negociação’”, disse Trump aos jornalistas concentrados no lobby do seu hotel nova-iorquino, em junho de 2015. “Muito obrigado, Donald Trump, por sugerir que eu me candidate à presidência, dado que fui que escrevi ‘A Arte da Negociação’”, ripostou Tony Schwartz no Twitter.

Há quase 10 anos – quando a X ainda era o Twitter, quando Trump ainda era motivo de chacota na cena política dentro e fora dos EUA, quando Schwartz deu uma longa entrevista à New Yorker a alertar para os riscos de o empresário se tornar líder do país mais poderoso do mundo – muitos apontaram o dedo ao jornalista por ter transformado o empresário numa celebridade com potencial de animal político. Como disse na altura Edward Kosner, nome de peso no mundo editorial nova-iorquino: “O Tony criou o Trump. É o dr. Frankenstein.” A verdade, contudo, é que o dr. Frankenstein é outro: chama-se Roy Cohn e “The Apprentice” é, também, um filme sobre ele.

Jeremy Strong (à esquerda), famoso pelo papel de Kendall Roy na série da HBO Succession, dá vida ao advogado e fixer Roy Cohn, o homem que criou o Donald Trump que hoje conhecemos, desempenhado em "The Apprentice" pelo ator Sebastian Stan, mais famoso como o herói da Marvel Bucky Barnes Foto: Victoria Will/Invision/AP

“Quando tive a ideia para este filme, era um jornalista político a cobrir a campanha presidencial de Trump em 2016 [e] uma das coisas que as pessoas que o conheciam desde os anos 80, como o Roger Stone, me diziam era: ele está a ganhar porque está a usar as lições que Roy Cohn lhe ensinou”, explicava há alguns dias Gabriel Sherman, jornalista da New Yorker e autor do guião, numa entrevista ao Financial Times. “Depois, no início da presidência Trump, lembrei-me: o Donald está a usar as lições do Roy, o Roy criou o Donald – é esse o filme. Isso explica a realidade atual que vivemos. Foi por isso que decidi centrar-me nesses anos, porque o Donald conheceu o Roy em 1973 e o filme termina com a morte de Roy em 1986.”

Aviso aos incautos: se planeia ver “The Apprentice”, guarde a leitura da entrevista de Sherman para depois. Apropriadamente intitulado “A louca história interna do biópico de Trump”, o artigo do FT explica como o filme começou por ser patrocinado por um bilionário que é mega dador da campanha republicana, como perdeu esse financiamento e foi alvo de tentativas judiciais para o travar, e como acabou por estrear no Festival de Cannes em maio porque Hollywood “ficou totalmente assustada” – no que o guionista diz ser “a coisa mais triste e patética” de toda a experiência de produção deste filme.

A longa-metragem arranca com um jovem Trump de mãos e pés atados por dois processos judiciais contra a Organização Trump, ainda ao leme do seu pai, Fred, por suspeitas de discriminação de inquilinos afroamericanos. ("Suponho que o velho Trump sabe quanto ódio racial despertou naquele pote de sangue dos corações humanos quando desenhou aquela linha de cor", já cantava a lenda da folk Woody Guthrie em 1954.)

O jogo das probabilidades parece estar contra pai e filho Trump quando um imberbe Donald (Sebastian Stan) conhece Roy Cohn (Jeremy Strong) num bar. A insistência do relativamente desconhecido jovem na casa dos 20 anos, aliada aos seus "ares de Robert Redford", acaba por assegurar que o experiente e controverso advogado os safa dos processos de discriminação – e o resto, poderia dizer-se, é história, ou fica para a história também graças a este filme, peça documental que abre uma brecha na mente do Trump que hoje todos conhecem.

Há quem diga que Trump não queria "The Apprentice" nos cinemas por revelar a sua alegada violação da primeira mulher, Ivana (Maria Bakalova), e as cirurgias estéticas a que se submeteu para reduzir a barriga e a careca. Mas esses serão os detalhes menos perniciosos do filme, baseado numa investigação de fundo de Shermann e cujo título é pedido emprestado ao programa que Trump protagonizou entre 2004 e a década passada, em que despedia candidatos a um cargo na sua empresa, e que ajudou a firmar o estilo Reality TV como jóia da coroa do pequeno ecrã.

Jeremy Strong no papel de Roy Cohn e Sebastian Stan como Donald Trump em "The Apprentice" Foto: DR

Por ser um filme focado em Trump, o público é apresentado a Cohn numa altura em que já era conhecido dos norte-americanos por ter ajudado o senador Joseph McCarthy a levar a cabo uma purga nos anos 1950 que ficou conhecida como o Segundo Sobressalto Vermelho, com interrogatórios e despedimentos em massa de funcionários federais alegadamente comunistas. McCarthy escolheu Cohn como "verdadeiro cérebro" desta operação, um gay sem escrúpulos em usar a homossexualidade de outros contra eles próprios que conseguiu condenar o casal Rosenberg à cadeira elétrica em 1953 por espiar para a URSS.

Representado no pequeno ecrã por Al Pacino em Anjos na América, minissérie da viragem do século sobre a epidemia do VIH/Sida nos EUA, Cohn foi, nas palavras da Esquire em 1978, "um carrasco judicial, o advogado mais duro, mau, leal, vil e um dos mais brilhantes da América". E tudo isso transpira na atuação de Jeremy Strong em "The Apprentice", onde um Trump inicialmente surpreendido com os métodos de extorsão e chantagem do seu advogado, um Trump que casa com Ivana "por amor", acaba viciado em metanfetaminas para perder peso e se torna o verdadeiro monstro de Frankenstein.

"Esperemos que um filme FALSO e SEM CLASSE escrito sobre mim, chamado 'The Apprentice' (eles têm sequer o direito de usar esse nome sem aprovação?), fracasse", escreveu Trump esta semana na sua Truth Social. "É um trabalho de retalho barato, difamatório e politicamente nojento, lançado mesmo antes das eleições presidenciais de 2024, para tentar ferir o maior Movimento Político da História do nosso País: MAKE AMERICA GREAT AGAIN!"

(Nota: tal como as três lições de Trump são, na verdade, as três lições de Roy Cohn, também o nome do movimento MAGA tem outros autores, no caso a campanha do republicano Ronald Reagan em 1980. E, poderão defender alguns depois de verem este filme, até o nome da sua autobiografia bebeu inspiração em Andy Warhol, que a dada altura em "The Apprentice" diz ao jovem Trump: "Fazer dinheiro é uma arte".)

Numa entrevista há poucos dias, Sebastian Stan dizia que Trump deveria estar agradecido a quem desenvolveu este filme, pessoas que o antigo presidente já classificou de "escumalha humana" mas que, para o protagonista de "The Apprentice", contribuíram para o humanizar. "Para ser honesto, acho que [Trump] devia estar-nos agradecido. Acho que lhe entregámos uma visão muito complexa e tridimensional da sua vida, e não me lembro de mais ninguém que o tenha feito."

Como refere o Politico, "o controverso filme retrata o futuro 45.º presidente como um violador, um mentiroso e um empresário duvidoso que engana praticamente toda a gente", mas "também representa uma descrição quase chocantemente simpática do jovem empreendedor que, 40 anos mais tarde, viria a dominar a política americana".

Essa será, talvez, a grande conquista de "The Apprentice", que segundo o seu realizador, o iraniano-dinamarquês Ali Abbasi, "é apenas sobre um ser humano" - neste caso dois, um mestre e o seu aprendiz, apostados em tomar uma Nova Iorque decadente e movida a cocaína, sem esquecer as outras duas regras de Cohn que Trump segue à risca até hoje: manter o nome nos jornais e estar disposto a fazer o que for preciso a quem for preciso para ganhar.

Apenas dois humanos numa selva de cimento com os seus destinos traçados, uma parelha aparentemente imbatível numa odisseia turva que termina com Trump a trair quase todos os que o rodeiam – incluindo, inevitavelmente e sem surpresas, o próprio mestre.

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