"As pessoas adoram Trump mas talvez não adorem toda a gente que ele apoia." Nomeadamente Elon Musk

3 abr 2025, 16:13
Donald Trump e Elon Musk

Os EUA tiveram esta semana um conjunto de eleições locais - numa delas, que fica para a história devido ao dinheiro envolvido, Elon Musk perdeu alguns milhões - e talvez algo mais do que isso. "Musk queria mostrar que conseguia dominar politicamente os EUA. Não conseguiu"

"Foi um noite trágica para Elon Musk. Intranquila para os republicanos. E de alerta para os democratas." Para Tiago André Lopes, especialista em política internacional, as várias eleições ocorridas terça-feira nos Estados Unidos servem para desassossegar republicanos (que tiveram vitórias poucochinhas) e democratas (que ainda assim tiveram a maior vitória da noite). Mas serviram sobretudo para delapidar património a Musk - pelo menos património porque podem ter delapidado mais qualquer coisa.

Em causa, antes de mais, está a vitória da juíza Susan Crawford na luta por um lugar no Supremo Tribunal do Wisconsin. A corrida era oficialmente apartidária mas o resultado foi celebrado pelos democratas (e até por Obama) como uma grande vitória, uma vez que a eleição foi interpretada como um referendo à popularidade de Elon Musk e de Donald Trump. Crawford, uma juíza liberal e defensora do direito ao aborto, derrotou Brad Schimel, um antigo procurador-geral republicano e juiz conservador, depois de Elon Musk e grupos associados ao bilionário da tecnologia terem gastado cerca de 20 milhões de euros para impulsionar a sua candidatura, naquela que se tornou a corrida judicial mais cara da história americana.

Por outro lado, na Florida, os eleitores de dois círculos também foram às urnas terça-feira para eleger os substitutos dos republicanos Matt Gaetz (nomeado por Trump para procurador-geral dos EUA, acabando por desistir do cargo devido a suspeitas de envolvimento com menores) e Mike Waltz (atual conselheiro de segurança nacional do presidente) na Câmara dos Representantes. Sem surpresa, foram eleitos os republicanos Jimmy Patronis e Randy Fine, embora por uma margem muito inferior à das eleições de novembro.

"Elon Musk é o grande derrotado destas eleições, mais ainda do que Trump", afirma Tiago André Lopes. "Musk queria mostrar que conseguia dominar politicamente os EUA, mas afinal não conseguiu."

"Derrotado" foi também o que os democratas chamaram a Musk nas redes sociais, numa publicação com uma fotografia do miolionário com um queijo na cabeça.

O dono da Tesla financiou a campanha de Brad Schimel com cerca de 20 milhões de euros, diretamente e através de diversos comités de ação política. Mas, no final, todos os seus milhões revelaram-se insuficientes para que os republicanos ganhassem a eleição. “Nunca podia imaginar que estaria a enfrentar o homem mais rico do mundo pela justiça no Wisconsin. E ganhámos”, concluiu Susan Crawford no discurso da vitória.

“Estou sinceramente chocada. Pensava que tínhamos tudo controlado”, comentou ao Politico Pam Van Handel, presidente do Partido Republicano do Condado de Outagamie, no Wisconsin. “Pensei que [Musk] ia ser um trunfo para esta corrida. As pessoas adoram Trump, mas talvez não adorem toda a gente que ele apoia."

Até Tim Waltz, o governador do Minnesota e parceiro de Kamala Harris nas últimas eleições presidenciais, se congratulou: "O Wisconsin derrotou o milionário", escreveu.

Durante a campanha no Wisconsin, os democratas insistiram na forma como a redução de custos do DOGE (Department of Government Efficiency) podia prejudicar as pessoas daquele estado, uma vez que Musk e os seus aliados estão a demitir milhares de trabalhadores federais e a reduzir os serviços governamentais. Depois desta derrota, os republicanos podem ficar receosos de apoiar as políticas Musk, agora que perceberam que estas representam um risco eleitoral.

Musk está a “tornar-se um veneno eleitoral”, disse ao Politico Evan Roth Smith, um especialista em sondagens democratas. “O Partido Democrata vai fazer de Elon uma questão central nas suas campanhas e os democratas já perceberam que têm de se concentrar no que importa para os eleitores, que é a ameaça que ele representa para os direitos.”

Aparentemente, o presidente dos EUA anunciou já ao seu núcleo duro  que Elon Musk vai retirar-se em breve das suas funções no DOGE. De acordo com três frontes que falaram com o Politico, sob a condição de anonimato, Trump continua satisfeito com o trabalho de Musk, mas ambos decidiram nos últimos dias que está na altura de o empresário regressar aos seus negócios e assumir um papel mais secundário de apoio à administração. JD Vance confirmou entretanto: Musk vai mesmo sair mas vão continuar todos amigos.

Cerca de metade

Para o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, as vitórias dos republicanos Jimmy Patronis, no 1º Distrito da Florida, e Randy Fine, no 6º Distrito, significam mais espaço para avançar com a agenda de Trump. A maioria de Johnson na Câmara é tão escassa que Trump foi forçado a retirar a nomeação da deputada nova-iorquina Elise Stefanik para embaixadora dos EUA nas Nações Unidas para evitar uma eleição especial num distrito solidamente vermelho. “Temos uma margem muito pequena. Não queremos correr riscos. Não queremos fazer experiências”, justificou Trump.

Uma derrota na Florida teria provocado o pânico no Capitólio - e teria dificultado ainda mais a tarefa de Johnson de manter unida uma bancada ideologicamente fraturada. Portanto, estas vitórias são boas notícias para Trump e respetivos aliados. 

O Partido Republicano evitou esse potencial desastre, mas as margens ficaram aquém do esperado e devem servir como alerta para os próximos atos eleitorais. Em dois distritos em que, há menos de cinco meses, Trump venceu por pelo menos 30 pontos, os dois candidatos democratas reduziram essas margens para cerca de metade.

"A noite não foi má para Trump, mas acaba por ter um sabor a derrota porque a ideia dos republicanos era ter o pleno e não conseguiram", diz Tiago André Lopes. Juntando o que o aconteceu no Wisconsin com as eleições especiais na Florida, "há claramente uma penalização do presidente Trump", afirma o especialista em política internacional. "Em comparação com as eleições de novembro, a margem de vitória dos republicanos é muito menor, perdeu-se terreno e isso é significativo. Há uma punição às medidas da administração."

Rohn W. Bishop, presidente da Câmara de Waupun, Wisconsin, e antigo presidente do Partido Republicano do Condado de Fond du Lac, admitiu ao Politico que o resultado de Susan Crawford “lança uma série de sinais de aviso para as eleições intercalares”. “Pensei que talvez Elon pudesse fazer com que essas pessoas saíssem para votar”, disse. O que aconteceu foi o contrário: Musk ajudou a atrair eleitores mas para votarem contra Schimel. “Donald Trump faz duas coisas maravilhosas: faz com que as pessoas votem nele e faz com que os liberais votem contra quem ele apoia”, concluiu Bishop.

Susan Crawford, uma das vencedoras da semana política nos EUA foto Getty

Re-harmonização

A vitória democrata no Wisconsin foi um primeiro teste ao eleitorado num dos estados mais importantes do país, mais de dois meses após o início da segunda presidência de Trump. A vitória de Susan Crawford "é importante porque significa um reequilibrar do sistema. Depois da derrota em toda a linha em novembro passado, este é um primeiro momento de re-harmornização do Partido Democrata com o seu eleitorado", afirma Tiago André Lopes.

O resultado é politicamente significativo porque o tribunal deverá emitir decisões sobre o aborto, ao mesmo tempo que decide sobre questões de redistribuição eleitoral que têm agora o potencial de ajudar os democratas em futuras eleições num estado onde as disputas são geralmente renhidas. Tiago André Lopes sublinha no entanto que, em termos nacionais, esta vitória "é mais simbólica do que efetiva". Afinal, trata-se apenas de uma juíza no Wisconsin. "Mas nos lugares para o congresso os democratas continuam a não conseguir furar a muralha da Florida."

O resultado do Wisconsin vem na sequência de outros sucessos que os democratas tiveram em eleições especiais neste ciclo, no Iowa e na Pensilvânia, em áreas fortemente dominadas pelo Partido Republicano. E houve ainda os resultados animadores nas eleições de terça-feira na Florida.

As próximas grandes eleições nos EUA no calendário de 2025 acontecem em novembro, quando a Virgínia e New Jersey elegem novos governadores. E é provável que o fator DOGE se revele especialmente importante nas corridas para o governo e para as assembleias legislativas do estado da Virgínia, onde vivem milhares de trabalhadores federais. E, depois, em novembro de 2026, realizam-se as "midterms", eleições intercalares, para eleger novo membros da Câmara dos Representantes e parte dos membros dos Senado.

O que aconteceu no Wisconsin e na Florida "podia ser uma espécie de momento de reacordar do Partido Democrata".  "Mas a verdade é que, nestes momentos, os democratas não têm um líder, não há um rosto, não há uma politica clara - como é que se pode fazer a galvanização dos eleitores sem um líder?", pergunta Tiago André Lopes. "A vitória dos republicanos não é tanto por mérito deles mas porque os democratas ficaram em casa, não foram votar", não estão mobilizados. "Se os democratas não acordarem não vão conseguir ganhar as 'midterms' em 2026."

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