Estas são as cinco grandes questões sobre a relação de Donald Trump com Jeffrey Epstein

CNN , Aaron Blake
19 jul 2025, 17:08
Epstein

Um artigo do Wall Street Journal publicado, na noite de quinta-feira, trouxe novo escrutínio à relação de Donald Trump com o agressor sexual Jeffrey Epstein.

Segundo a notícia, Ghislaine Maxwell, associada de Epstein, pediu a Trump e a muitas outras pessoas que enviassem cartas para um álbum comemorativo do 50.º aniversário de Epstein, em 2003.

Uma carta assinada em nome de Trump incluía o esboço obsceno de uma mulher nua e uma conversa imaginada entre Trump e Epstein. Nessa conversa, os dois homens refletiam sobre como partilhavam algum tipo de conhecimento secreto sobre o facto de haver "mais na vida do que ter tudo".

"Feliz Aniversário - e que cada dia seja mais um maravilhoso segredo", conclui Trump nessa conversa imaginada.

O presidente norte-americano negou ter escrito a carta e, na sexta-feira, apresentou uma ação por difamação contra o editor do Wall Street Journal e os jornalistas que escreveram a reportagem.

“Isso não fui eu. É uma coisa falsa. É uma história falsa do Wall Street Journal”, disse Trump numa entrevista. “Nunca desenhei isso na vida. Não faço desenhos de mulheres.”

Trump acrescentou ainda numa publicação nas redes sociais: “Estas não são as minhas palavras, não é a forma como falo. Além disso, não faço desenhos.”

Não é segredo que Trump e Epstein eram próximos no período anterior a Epstein ser acusado de solicitação de prostituição em meados dos anos 2000. Existem várias fotografias dos dois juntos.

Mas o novo relatório - juntamente com os pedidos de Trump para que os seus apoiantes parem de levantar questões sobre Epstein após a má gestão das prometidas divulgações pelo seu governo - reacendeu o interesse no assunto.

Trump cedeu ligeiramente quanto à divulgação, instruindo o Departamento de Justiça a procurar levantar o sigilo de "todo e qualquer testemunho relevante do Grande Júri, sujeito à aprovação do tribunal". (O DOJ avançou com esse pedido na sexta-feira, mas é possível que isso não revele muito ou que não aconteça em breve, dado que os testemunhos do grande júri são normalmente mantidos em segredo. E esses testemunhos representam apenas uma pequena parte das informações relevantes.)

Então, o que sabemos até agora sobre a relação entre Trump e Epstein? Eis algumas das principais questões.

1. Quão próximos eram?

Existem sinais contraditórios. E os esforços de Trump para minimizar os laços entre ambos levantaram muitas dúvidas.

Depois de Epstein ter sido detido e acusado de tráfico sexual de menores em 2019, Trump afastou-se publicamente.

“Bem, eu conhecia-o como toda a gente em Palm Beach o conhecia”, disse Trump a jornalistas durante o seu primeiro mandato. “Quer dizer, as pessoas em Palm Beach conheciam-no. Afastámo-nos há muito tempo. Acho que não falo com ele há 15 anos. Nunca fui fã.”

Trump repetiu duas vezes que nunca foi “fã” de Epstein.

A sua versão, segundo a qual não falava com Epstein desde os anos 2000, é apoiada por várias reportagens. O Washington Post noticiou que os dois se desentenderam ao competirem pela mesma propriedade, que ficava de frente para o mar, em Palm Beach, em 2004.

Isto colocaria o afastamento antes de Epstein começar a ter problemas legais sérios; em 2006, Epstein foi acusado de solicitação de prostituição e, nesse mesmo ano, surgiram notícias de que estava a ser investigado por alegadamente manter relações sexuais com menores.

Mas a sugestão de Trump de que a sua relação com Epstein era apenas circunstancial, e a alegação de que “não era fã” de Epstein, têm sido postas em causa, inclusive por declarações do próprio Trump.

A relação entre ambos parece recuar aos anos 1980. Trump voou em jatos privados de Epstein entre Palm Beach e Nova Iorque, segundo registos de voo. Além disso, conviviam nas propriedades um do outro.

O New York Times noticiou que, em 1992, Mar-a-Lago acolheu uma competição de “calendar girls” em que cerca de duas dezenas de mulheres foram transportadas de avião. Mas os únicos convidados presentes eram Trump e Epstein, segundo o empresário George Houraney, que organizou o evento. (A Casa Branca de Trump não comentou a história.)

Em 2002, Trump disse à New York Magazine que Epstein era “um tipo espetacular”.

“É muito divertido estar com ele”, afirmou Trump. “Dizem até que gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são mais novas. Não há dúvidas sobre isso - Jeffrey sabe como aproveitar a sua vida social.”

Sam Nunberg, antigo assessor de Trump, disse ao Washington Post em 2019 que questionou Trump sobre os seus laços com Epstein em 2014, quando este ponderava uma candidatura presidencial.

“No fundo, o Donald convivia com o Epstein porque ele era rico”, disse Nunberg, garantindo que Trump cortara laços há muito.

Quão próximos eram exatamente Trump e Epstein continua pouco claro. Era apenas uma situação de homens poderosos a festejar ocasionalmente juntos e a partilhar o avião privado de Epstein porque é isso que fazem os ricos? São contextos sociais difíceis de compreender para a maioria dos norte-americanos.

Mesmo que Trump realmente “não fosse fã”, fez outras afirmações dúbias.

Em janeiro de 2024, afirmou nas redes sociais: “Nunca estive no avião de Epstein…” Mas os registos de voo mostram que Trump voou nele sete vezes nos anos 90.

Trump também disse em 2019 que não conhecia o príncipe André do Reino Unido, alvo de alegações ligadas a Epstein, apesar de serem conhecidas várias fotos dos dois juntos.

Trump mente e engana frequentemente nas suas declarações públicas. E certamente tem motivos para minimizar os seus laços com Epstein. Mas ir longe demais nesse sentido prejudica a sua credibilidade e alimenta suspeitas sobre o que possa estar a esconder.

2. E quanto à negação mais recente de Trump - sobre a história do Wall Street Journal?

Não está claro o que significará o artigo do Wall Street Journal daqui para a frente - embora já tenha mobilizado influenciadores MAGA críticos da gestão dos ficheiros Epstein pelo governo de Trump a seu favor.

A ideia de que Trump enviaria uma carta para o álbum de aniversário de Epstein não é surpreendente, dado que, em 2003, os dois estavam aparentemente em bons termos e foram solicitadas dezenas de outras cartas. A ideia de que Trump escreveria algo obsceno também é plausível, dado o seu passado. (Ver: A gravação de “Access Hollywood”.)

Mas Trump - e muitos dos seus apoiantes mais vocais - disseram que isso não soa a algo que ele escreveria.

A ativista de extrema-direita Laura Loomer - que pediu que fosse nomeado um procurador especial para investigar a gestão dos ficheiros Epstein - defendeu rapidamente Trump na noite de quinta-feira: “Toda a gente que realmente CONHECE o presidente Trump sabe que ele não escreve cartas. Ele escreve notas com marcadores pretos grossos”, escreveu no X.

Mas, apesar de Trump garantir que não faz desenhos, já surgiram esboços feitos por ele. Um desenho assinado do horizonte de Manhattan foi leiloado em 2017 por mais de 29 mil dólares. (O esboço seria de 2005, dois anos após a carta em questão.) Outro desenho da década de 1990 do Empire State Building também foi leiloado nesse ano.

E Trump, num livro de 2008, recordou que doava um "rabisco" autografado todos os anos para caridade.

Claro que nada disso prova que foi o presidente norte-americano que escreveu a carta e desenhou. Mas, novamente, Trump compromete a sua própria credibilidade. Porquê mentir sobre rabiscar - algo que é tão fácil de desmentir?

E é possível que venhamos a saber mais. Tem-se falado da possibilidade de Maxwell - que, segundo o Wall Street Journal, solicitou a carta - testemunhar no Congresso.

3. O nome de Trump está nos ficheiros de Epstein?

Os esforços de Trump para calar rumores sobre Epstein apenas aumentaram a suspeita em certos círculos de que o seu nome possa constar dos ficheiros que o seu governo não quis divulgar.

Já sabemos que o nome de Trump estava nos registos de voo de Epstein. Um livro de endereços pessoal de Epstein, divulgado em 2009, continha 14 números de telefone associados a Trump, Melania Trump e pessoas do círculo do presidente, segundo reportagens. Uma busca na mansão de Epstein em Palm Beach, em 2005, encontrou duas mensagens escritas sobre chamadas de Trump.

Desta forma, não é inconcebível que o nome de Trump esteja nos ficheiros que os seus apoiantes querem ver divulgados. Ter lá o seu nome, claro, não significa ter feito algo errado. Mas pode criar dores de cabeça políticas - como demonstrado pela repercussão do artigo do Wall Street Journal - e pela relutância pública de Trump em divulgar mais documentos.

Elon Musk afirmou no mês passado que o presidente estaria de facto nos ficheiros de Epstein, acrescentando: “Essa é a verdadeira razão pela qual não foram tornados públicos.”

No entanto, não apresentou provas e apagou a publicação pouco depois.

Trump foi questionado na terça-feira se a procuradora-geral Pam Bondi lhe disse que o seu nome constava dos ficheiros, e não respondeu diretamente.

“Ela deu-nos apenas uma breve atualização sobre a credibilidade das várias coisas que viram”, afirmou o presidente norte-americano.

4. O que sabia Trump sobre as inclinações de Epstein?

A declaração de Trump em 2002 sobre o gosto de Epstein por mulheres “mais novas” tem pairado sobre si, alimentando teorias de que sabia algo sobre as atividades do agressor sexual.

Contudo, isso continua a ser especulativo e não provado. Trump não falou em menores; referiu-se a “mulheres” jovens.

Mas as questões sobre quem sabia o quê quanto à conduta de Epstein persistem. Mar-a-Lago, propriedade de Trump, foi cenário de alguns dos abusos. E as ligações sociais entre Epstein e Trump giravam frequentemente em torno de mulheres.

Segundo Nunberg, em 2019, Trump terá dito que baniu Epstein de Mar-a-Lago devido a má conduta. Trump disse que o fez porque Epstein recrutou uma jovem empregada do clube para lhe fazer massagens. Isto ocorreu anos antes de a investigação sobre Epstein se tornar pública.

“É um verdadeiro pervertido, eu bani-o”, terá dito Trump, segundo Nunberg.

Várias reportagens, incluindo um livro de 2020 de jornalistas do Miami Herald e do Wall Street Journal, ligam a expulsão de Epstein de Mar-a-Lago a tentativas de se relacionar com a filha adolescente de um membro do clube.

Virginia Giuffre, vítima de Epstein, afirmou ter sido recrutada para a rede de tráfico sexual enquanto trabalhava em Mar-a-Lago em 2000.

Houraney disse também ao New York Times em 2019 que alertou Trump sobre a conduta de Epstein antes do evento das “calendar girls” de 1992.

“Disse-lhe: ‘Olha, Donald, conheço bem o Jeff, não posso tê-lo a ir atrás de raparigas mais novas’”, contou. “Ele disse: ‘Olha, estou a pôr o meu nome nisto. Não o faria se houvesse risco de escândalo.’”

Trump parece ter colaborado com quem investigava Epstein, mas sabemos pouco sobre o que disse, sendo que nunca foi formalmente interrogado. O advogado de algumas vítimas de Epstein afirmou que Trump foi, em 2009, “um entrevistado muito cooperativo”.

O advogado, Brad Edwards, disse que Trump “nunca deu qualquer indicação de estar envolvido em algo impróprio”.

5. E os comentários estranhos de Trump sobre Maxwell em 2020?

Enquanto em 2019 ,Trump rapidamente se distanciou de Epstein, os seus comentários no ano seguinte, após Maxwell ser acusada, foram diferentes - e algo bizarros.

“Desejo-lhe tudo de bom, seja o que for”, disse Trump a jornalistas em julho de 2020.

Apesar das críticas significativas - por desejar sorte a uma acusada (e depois condenada) de tráfico sexual de menores - Trump, semanas depois, reforçou a posição quando confrontado pelo jornalista Jonathan Swan, da Axios.

“Sim, desejo-lhe tudo de bom”, disse Trump. “Desejo-lhe o melhor. Boa sorte. Que provem que alguém é culpado.”

Trump acrescentou, quando pressionado novamente: “Desejo-lhe o melhor. Não quero nada de mau para ela. Nem para ninguém.”

Mesmo para um presidente conhecido por declarações estranhas, esta está entre as mais desconcertantes.

E.U.A.

Mais E.U.A.