A guerra dos Estados Unidos contra o Irão tem gerado várias afirmações polémicas do presidente dos Estados Unidos, algumas chocantes, e um pouco por todo o lado já se fala em demência. Mas como se separa o que é personalidade de eventual perda cognitiva?
“Uma civilização inteira vai morrer esta noite para nunca mais voltar”, escreveu Donald Trump na sua rede social com o objetivo de pressionar o Irão a ceder na guerra.
Dois dias antes desta ameaça, o presidente norte-americano já tinha elevado o tom dos avisos e deixado o alerta: “Abram o raio do Estreito, seus sacanas malucos, ou viverão no inferno - ESPEREM SÓ!”.
Estas são apenas duas declarações - para além dos memes - que reacenderam o debate em torno da saúde de Donald Trump, levando muitos a questionar se o líder dos norte-americanos reúne todas as condições para desempenhar o cargo. Isto numa altura em que vários críticos, incluindo republicanos, alegam que Trump já demonstrou estar mentalmente inapto para continuar em funções.
Partindo do princípio de que “qualquer tipo de alteração cognitiva que possa ser declarada, tem de ser sempre acompanhada de uma avaliação feita diretamente com o paciente”, e não havendo acesso a informação oficial, é difícil responder às suspeitas que recaem sobre o presidente dos Estados Unidos. Ainda assim, para a psicóloga Carolina de Freitas Nunes, “não parece provável” que Donald Trump esteja debilitado intelectualmente.
“Obviamente que nós temos alguns tipos de atitudes que podem, eventualmente, dar a entender que a pessoa está demente, mas também podem ser elas próprias, por si só, a sua própria personalidade”, explica.
Lembrando que uma condição como a demência - que tem sido destacada como uma possível patologia de Trump - não pode ser totalmente afastada até serem realizados exames médicos, há dois fatores que têm merecido a atenção dos especialistas.
“Com a idade há uma coisa que acontece: o nosso córtex frontal deixa de ter uma capacidade de julgamento tão grande. Tendemos a reduzi-la e o dito filtro deixa de ser tão forte”, sublinha a psicóloga. Recorde-se que o presidente norte-americano fará 80 anos em junho.
Por outro lado, explica Carolina de Freitas Nunes, as características ligadas à própria personalidade podem ser amplificadas, tendo em conta que Trump “sempre foi polarizador, impulsivo, megalómano, narcisista e egocêntrico”, embora esteja “obviamente pior”.
“As pessoas, normalmente, quando envelhecem têm uma tendência para amplificar todas aquelas características que tinham. Por exemplo, se a pessoa é impaciente, fica mais impaciente; se a pessoa é mais megalómana e narcisista, no caso dele, torna-se mais narcisista com o tempo, obviamente.”
"Decisões insensatas não constituem, por si só, um diagnóstico"
Não é a primeira vez que as faculdades de um presidente são questionadas. Aconteceu com o anterior presidente Joe Biden que, na reta final do seu mandato, nomeadamente durante a campanha eleitoral para nova corrida à Casa Branca, mostrava “alterações e défices cognitivos visíveis”, observa a psicóloga.
Do atual presidente “é difícil dizer o mesmo, uma vez que ele ainda se mantém relativamente funcional e tendo em conta que é difícil separar o que é da sua personalidade e o que pode ser perda cognitiva”.
O mesmo defende a psiquiatra Carolina Rocha Almeida, que reforça: “Decisões insensatas não constituem, por si só, um diagnóstico.”
“O que parece ser claro é que neste momento ele não parece estar num surto de doença aguda, ou seja, apesar do comportamento errático, hostil e pouco diplomático, apesar de alguns comportamentos difíceis de enquadrar, como fazer retratar-se por imagens de inteligência artificial como Jesus Cristo, não se pode dizer que ele está psicótico, não está fora da realidade”, esclarece.
Mas apesar de o comportamento de Trump “não ser marcadamente disruptivo”, a médica não exclui a probabilidade científica de uma pessoa com a idade do presidente ser afetada pela doença.
“Naturalmente que a hipótese da demência se pode colocar, tendo em conta que é um homem de 79 anos, não é um jovem”, realça.
Americanos não estão reféns
Nos últimos dias, nas redes sociais sobretudo, há quem apele à declaração da 25.ª emenda, que prevê o afastamento do presidente dos Estados Unidos do cargo e a sua substituição por incapacidade para desempenhar funções.
Mas a ser verdade que Donald Trump tenha algum tipo de inaptidão, “já teríamos cá fora algo absolutamente extraordinário que o pudesse ir afastando das funções de responsabilidade”, considera o tenente-general Rafael Martins.
“Eu não acredito que a nação americana esteja assim tão refém do seu poder que não pudesse iniciar um processo destes, se os médicos o considerarem desequilibrado e até perigoso”, sublinha, acrescentando que um diagnóstico seria naturalmente desejável “se de facto o chefe de Estado não estivesse em condições para mandar pessoas para a guerra matar, destruir e ameaçar civilizações”.
Apesar do frágil cessar-fogo no Médio Oriente, estendido esta quinta-feira ao Líbano, as forças armadas dos Estados Unidos permanecem em estado de prontidão e uma operação militar com tropas no terrenos ainda não pode ser excluída por completo.
A questão é que, face à escalada do discurso de Trump, “só nos bastidores é que eventualmente alguém pode fazer algum reparo”, afirma o especialista militar da CNN Portugal, explicando que, em contexto militar, “a uma ordem obedece-se primeiro, e só se discute depois de ser cumprida”.
Rafael Martins lembra que quem corre o risco de sofrer represálias é quem questiona ordens e não quem as impõe. Na lógica militar, quem põe em causa as ordens do chefe supremo das Forças Armadas, neste caso Trump, “especialmente em circunstâncias desta natureza, que é a guerra, é que ficará em maus lençóis”. “Pode fazê-lo sempre, mas nunca no momento em que a ordem lhe é dada.”
No limite, explica o tenente-general, quem não se situar no regulamento da disciplina militar “deve prescindir dessa condição, chegar-se à frente e sair”, podendo invocar o facto de ser “objetor de consciência”.
O especialista militar recorda ainda a purga que teve lugar no ínicio do mandato de Trump, onde o secretário de Defesa Pete Hegseth “reuniu todos os generais, fez um discurso e passou-lhes um conjunto de ideias”. Nesse momento, vários militares foram afastados por não se reverem na matriz da administração Trump, tendo os restantes aceitado as suas condições.
Eleições intercalares podem ser "ponto de viragem"
Uma coisa é certa: a única instituição que pode retirar Trump de funções é o Congresso, salienta o embaixador António Martins Cruz.
“A única instituição que pode terminar com o mandato do presidente não é a opinião pública nem a imprensa, é o Congresso, ou seja, a Câmara dos Representantes e o Senado. Podem votar o 'impeachment' do presidente se for possível reunir a maioria necessária para isso.”
De resto, são muito poucas as ferramentas que mesmo o Partido Republicano tem ao seu alcance para travar qualquer ação do chefe de Estado.
Mas António Monteiro, também embaixador, acredita que estamos mais próximos de um “ponto de viragem” nos EUA com as eleições intercalares de novembro. “É um ponto de viragem se os democratas ganharem as eleições, e depois é possível ver se têm força suficiente para desencadear a massa antipresidencial.”
Caso o partido de Donald Trump venha a perder a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, “a administração - não só o presidente - ficaria numa posição muito mais difícil para governar, e até para a própria política externa, sem ter essa maioria no Congresso”, completa Martins Cruz.