ANÁLISE | As apostas de Trump são enormes e cheias de risco - e já começou a ser engolido pelas sondagens
Trump está em alta há muito. Mas isso pode estar a mudar
por Stephen Collinson, CNN
Está no auge das suas vitórias políticas de longo alcance. Está no auge dos seus incontestáveis jogos de poder pessoal. Está a invadir todos os cantos da vida americana para impor a sua vontade e a sua visão do mundo. É assim que está o presidente norte-americano, Donald Trump, sete meses depois de iniciar o seu segundo mandato.
Contudo, a sua presidência pode estar prestes a entrar numa nova fase, à medida que as consequências da sua política e das suas políticas de um ritmo implacável começam a revelar-se e que as vidas dos americanos, bem como de milhões de outros países, sentem o impacto da sua implacável ambição.
Trump fez tudo, depressa, ao mesmo tempo.
O presidente dos EUA está obcecado em matar os seus maiores dragões, como o comércio livre global. E também em objetivos mais improvisados, com os quais a maioria dos presidentes não se costuma preocupar: como restabelecer um Teste de Aptidão Física Presidencial nas escolas ou imprimir a sua marca arquitetónica na Casa Branca.
A investida comercial é a típica em Trump: impôs as tarifas mais punitivas sobre as importações desde a Grande Depressão, com base numa obsessão pessoal de longa data por uma teoria económica que é ridicularizada pelos especialistas. Trump diz que está a reativar a indústria, mas o sector perdeu um total líquido de 14 mil empregos em maio e junho, segundo dados federais.
E as tarifas — um imposto sobre todos os que compram produtos — podem fazer disparar a inflação.
O presidente cumpriu a sua palavra e garantiu a segurança da fronteira sul, honrando uma promessa que o ajudou a reconquistar a Casa Branca.
Mas será que os americanos vão agora recuar perante os seus métodos draconianos de deportação, enquanto agentes federais mascarados varrem os vizinhos das ruas e o governo constrói campos armados para deter imigrantes sem documentos?
Trump teve um triunfo legislativo ao aprovar o seu "grande e belo projeto de lei" e ao estender os cortes de impostos vindos do primeiro mandato. A Casa Branca insiste que a medida desencadeará um crescimento económico estrondoso, bem como a criação de emprego. Contudo, em que ponto fica esta benesse para os ricos se vierem a fechar hospitais rurais e milhares de pessoas perderem o Medicaid?
O secretário de Saúde e Serviços Humanos de Trump, Robert Kennedy Jr., prometeu "Tornar a América Saudável de Novo". Todavia, os riscos são enormes. Sobretudo se Kennedy cancelar mais de 500 mil milhões de dólares de financiamento para vacinas, como aquelas que puseram fim à pandemia de covid-19, expondo os EUA a uma nova crise de saúde pública que poderá custar milhares de vidas.
Entretanto, Trump está a postos para a sua ação de política externa mais importante até à data, ao receber o presidente russo, Vladimir Putin, no Alasca, na próxima sexta-feira, numa tentativa de reparar a sua tentativa falhada de pôr fim à guerra na Ucrânia. Este avanço pode salvar milhares de vidas e até mesmo valer a Trump o tão esperado Prémio Nobel. Ainda assim, se ceder às exigências de Putin, poderá cometer um erro histórico que abre caminho a um futuro expansionismo russo e destrói a imagem, criada pela Casa Branca, do "presidente da paz".
Exibir o poder com bases duvidosas
Há um fio condutor na maioria das ações de Trump, seja intimidando inimigos políticos e instrumentalizando o sistema jurídico, seja forçando concessões comerciais de nações pequenas e vulneráveis. Trump está sempre a avaliar a sua influência sobre um adversário e a tentar impor a sua vontade pessoal.
Contudo, mesmo que exibir o poderio americano possa ser eficaz, Trump está ao mesmo tempo a afastar aliados, que eram multiplicadores da força e do poder global dos EUA. O que é que vai acontecer da próxima vez que os Estados Unidos quiserem a ajuda dos aliados — por exemplo, após um ataque ao estilo do 11 de Setembro? Será que as populações, descontentes com a forma como Trump intimidou os seus líderes, vão permitir que os seus países corram em defesa dos Estados Unidos? Nos entretantos, Trump pode estar também a empurrar aliados que deixou furiosos para os braços de uma nova superpotência: a China. O fracasso de Trump até agora está em arrancar concessões comerciais a Pequim, que continua a utilizar o trunfo dos metais de terras raras. Deste modo, o presidente dos EUA arrisca tornar vazia a própria agenda comercial.
É certo que as apostas de Trump são enormes e cheias de risco. Há muitas que poderão acabar a dar resultados. Contudo, a história está repleta de presidentes que interpretaram mal os seus mandatos e se excederam.
Se algumas das políticas mais ambiciosas de Trump gerarem resultados adversos, os próximos meses poderão ditar se esta postura é mesmo para manter.
O presidente já está a ser engolido pelas sondagens: a taxa de aprovação está na faixa dos 40% a 45% na maioria delas. O fracasso do governo em conter o escândalo sobre a recusa em divulgar os ficheiros de Jeffrey Epstein expôs, entretanto, uma divisão na base de Trump pela primeira vez.
Se a opinião pública se virar em força contra Trump, poderá estar em causa um momento perigoso a nível nacional, com os republicanos a pagarem o preço nas eleições intercalares do próximo ano. Afinal, este é um presidente que acredita ter um poder quase ilimitado - e que tentou roubar uma eleição que perdeu em 2020.
A crescente veia autoritária de Trump transparece na sua abordagem de desbloquear poderes executivos através de emergências nacionais duvidosas. Os ataques que tem feito ao poder judicial, aos meios de comunicação social, às universidades e às autoridades ameaçam os princípios do governo republicano. E tudo isto acontece um ano antes de Trump presidir ao 250.º aniversário da Revolução Americana, que libertou os EUA dos caprichos inexplicáveis dos reis — com quem Trump se parece cada vez mais.
O presidente dos EUA já se está a proteger de uma reação política negativa.
Algumas das suas ações recentes, incluindo a demissão do funcionário governamental responsável pelos dados do desemprego e a sua tentativa de conquistar cinco novos lugares na Câmara dos Representantes dos EUA a partir de uma manipulação eleitoral sem precedentes no Texas, parecem tentativas de subverter a realidade e evitar pagar o preço político caso a economia se agrave.
As transformações políticas mais notáveis de Trump
As tarifas são o exemplo mais impressionante do sucesso de Trump na alteração das convenções políticas e económicas. Os Estados Unidos passaram décadas a construir um sistema global de comércio livre. Trump destruiu-o em semanas.
"Estamos a arrecadar biliões de dólares", reagiu Trump numa entrevista à CNBC na semana passada, falando sobre as receitas encaixadas pelo governo com os impostos de importação. Contudo, embora Trump nunca o admita, o preço final das tarifas acabará por ser pago pelos consumidores americanos, que já se mostram cansados dos custos mais elevados da alimentação e da habitação.
O governo alega que a economia global vai ajustar-se às tarifas, que começam nos 10% e que podem atingir valores muito superiores em alguns países. Trump defende mesmo que todos os americanos vão ficar melhor. Até agora tem escapado às piores consequências da reforma, à qual quase todos os economistas se opõem.
"Neste momento, as tarifas não estão necessariamente a criar o tipo de caos económico que foi previsto", afirmou Kristen Soltis Anderson, investigadora e estratega republicana e comentadora política da CNN, no programa "State of the Union", no domingo. Ainda assim, as coisas vão mudar se os consumidores acabarem a pagar preços mais altos. "É difícil encontrar uma saída para a situação se os preços estiverem mesmo a subir, se os retalhistas acabarem a dizer que não podem mais absorver as subidas. Há um potencial real de reação política.”
Trump surge num périplo vitorioso, promovendo acordos comerciais depois de intimidar parceiros como o Japão, a Indonésia e a União Europeia, para acordos que beneficiaram, de forma desequilibrada, os EUA. Todavia, os detalhes destes acordos sugerem que são menos impressionantes do que parecem. As centenas de milhares de milhões de dólares em investimentos estrangeiros que são prometidos nos EUA revelam-se questionáveis. Os governos estrangeiros não podem obrigar as empresas dos seus países a investir nos EUA. E a maioria dos acordos não abre, como afirma Trump, setores protegidos dos mercados estrangeiros aos produtos americanos.
Na melhor das hipóteses, os acordos incluem promessas para que os EUA e os seus adversários comerciais trabalhem em conjunto para encontrar soluções. E embora o comércio com os EUA seja tarifado, outras nações ainda podem negociar livremente entre si, o que significa que têm um incentivo para encontrar mercados não americanos. Outra área perigosa para Trump é a imigração — o seu tema emblemático, que o ajudou a vencer a presidência por duas vezes mas que levou a esforços de fiscalização extremos, afastando os moderados no seu primeiro mandato. A abordagem tem sido ainda mais punitiva agora no segundo mandato. Voos de migrantes indocumentados partiram para El Salvador e para uma prisão opressiva. Foram violados os direitos ao devido processo legal de alguns migrantes. E o governo planeia mais campos para migrantes, como o já famoso "Alligator Alcatraz", na Flórida. Tudo isto tem sido acompanhado por uma postura firme e performativa para atrair os eleitores da linha mais dura de Trump.
O senador do estado fronteiriço Arizona, Mark Kelly, que é democrata, avisou este domingo que Trump foi demasiado longe. "A segurança na fronteira não estava a funcionar durante o mandato do presidente Biden. Eu pressionei o governo sobre o assunto", afirmou Kelly no programa "Face the Nation", da CBS. "Contudo, agora foi uma mudança drástica noutra direção. Não acho que seja isto que o povo norte-americano quer”.
Numa sondagem da CNN realizada em julho, 55% dos inquiridos consideraram que o presidente tinha ido demasiado longe na deportação de imigrantes que vivem ilegalmente nos EUA. É um número que subiu 10 pontos percentuais desde fevereiro. A maioria também se opõe à construção de grandes centros de detenção para acolher migrantes presos e aos milhares de milhões de dólares em despesas incluídas no grande projeto de lei de Trump para o corte de despesa pública.
A aprovação deste projeto de lei foi a maior conquista legislativa de Trump nos seus dois mandatos. É algo ainda mais impressionante tendo em conta a pequena maioria do Partido Republicano na Câmara. Todavia, é também uma das coisas menos populares que Trump já fez. Cerca de seis em cada 10 americanos opõem-se ao projeto de lei e a maioria espera que prejudique a economia.
Trump é um político singular. Foi ajudado por um Partido Republicano que marcha ao ritmo dele. E por um Partido Democrata que nem sequer tem ritmo.
Todavia, a menos que Trump tenha quebrado a lógica política ao romper com o molde da presidência, um ajuste de contas pode estar a aproximar-se.
O que acontecer a seguir vai definir como a história se irá lembrar do seu segundo mandato.
