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Comentador da CNN Portugal

A Cruzada de Trump

16 abr, 07:30
Donald Trump, presidente dos EUA, e o Papa Leão XIV (AP)
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"A fé deixa de ser vivida e passa a ser performativa. Serve para marcar território, para distinguir os “nossos” dos “outros”, para transformar a política numa forma de moralização da sociedade"

Conta-se que, antes de partirem para Jerusalém, muitos dos cruzados não sabiam exatamente onde ficava a cidade. Não conheciam a geografia, não compreendiam o contexto político, não dominavam sequer o mundo que pretendiam conquistar. Mas sabiam, com uma clareza quase absoluta, quem eram os seus inimigos. Essa certeza bastava. Não era o mapa que os guiava, era a narrativa. Não era o conhecimento que os movia, era a fé transformada em identidade e, sobretudo, em instrumento de combate. As Cruzadas não foram apenas expedições militares, foram exercícios de simplificação moral do mundo, uma redução da complexidade a uma linha divisória entre os que pertenciam e os que deviam ser combatidos.

É precisamente essa lógica, adaptada aos códigos do século XXI, que começa a emergir na política americana sob a liderança de Donald Trump.

Não foi um deslize. Não foi um impulso. E, sobretudo, não foi um ataque ao acaso. Quando Donald Trump decide atingir o Papa, não está a reagir, está a agir. Não está a comentar, está a construir. O gesto deve ser lido como aquilo que é, um movimento político deliberado num momento de necessidade estratégica. A política, neste ponto, deixa de ser apenas disputa de poder e passa a ser definição de pertença. Já não se trata apenas de vencer a narrativa política ou eleições de novembro, trata-se de determinar quem faz parte da comunidade e quem fica fora dela.

Trump percebeu algo que muitos dos seus adversários ainda recusam admitir. Quando a base começa a tremer, não se responde com nuance, responde-se com identidade. Quando o terreno político se torna instável, não se procura o centro, redefine-se o campo de batalha. A guerra no Irão, com o desgaste natural que qualquer envolvimento externo produz no eleitorado americano, introduziu ruído e desconfiança. Não necessariamente uma ruptura, mas um desconforto suficiente para exigir uma resposta. E essa resposta não poderia ser técnica, teria de ser emocional, simbólica, mobilizadora.

É aqui que a religião entra, não como fé, mas como linguagem de poder.

O ataque ao Papa não é teológico, é estrutural. Não é uma divergência sobre doutrina, é uma operação de delimitação moral. Ao escolher o Papa como alvo, Trump não está a confrontar o catolicismo enquanto religião, está a questionar uma autoridade moral que não controla. E, ao fazê-lo, está a enviar um sinal claro à sua base, a autoridade legítima não é universal, é interna. Não é transcendental, é política. Não vem de fora, constrói-se dentro da comunidade que o reconhece como líder.

Neste enquadramento, a religião deixa de ser um espaço de transcendência para se tornar um critério de pertença. Não interessa aquilo em que se acredita, interessa aquilo que se representa. A fé deixa de ser vivida e passa a ser performativa. Serve para marcar território, para distinguir os “nossos” dos “outros”, para transformar a política numa forma de moralização da sociedade. De um lado, aqueles que defendem a ordem, a tradição, os valores conservadores, a família, a identidade nacional. Do outro, todos os que, por ação ou por pensamento, se afastam desse modelo e passam a ser percebidos como ameaça.

É neste ponto que a análise ganha profundidade. Porque não estamos apenas perante um fenómeno de polarização política, estamos perante um processo de reorganização simbólica da sociedade. A política deixa de ser o espaço onde se negoceiam interesses e passa a ser o espaço onde se define o bem e o mal. E quando isso acontece, o adversário deixa de ser legítimo. Passa a ser intolerável.

A base sociológica que sustenta este movimento ajuda a perceber a eficácia da estratégia. Nos Estados Unidos, os católicos representam cerca de um quinto da população. São uma presença relevante, mas não dominante. Mais importante ainda, não constituem um bloco político homogéneo. Dividem-se, dispersam-se, não oferecem a coesão necessária para servir de núcleo duro a um movimento como o MAGA. Esse núcleo encontra-se noutro lugar, no universo evangélico e protestante conservador, que não só tem maior capacidade de mobilização como apresenta níveis de lealdade política significativamente mais elevados.

Isto permite a Trump operar com uma margem de manobra que, à primeira vista, poderia parecer arriscada. Atacar o Papa não significa alienar a sua base. Pelo contrário, significa reforçar a distinção que mais lhe interessa. Entre um cristianismo institucional, universalista, frequentemente associado a valores sociais mais moderados, e um cristianismo identitário, profundamente ligado à ideia de nação, de ordem, de conservadorismo e de hierarquia moral. Não se trata de rejeitar a religião, trata-se de a redefinir.

A presença de J. D. Vance neste processo é particularmente reveladora. Sendo católico, funciona como elemento de mediação simbólica. A sua participação permite enquadrar o ataque não como uma ruptura com o catolicismo, mas como uma correção interna. Não estamos perante uma rejeição da fé, mas perante uma disputa sobre o seu significado e o enfraquecimento do seu líder máximo, que ousou criticar o líder político. Esta distinção é essencial, porque protege a narrativa e impede que o conflito seja percecionado como uma guerra religiosa aberta. Em vez disso, transforma-o numa discussão sobre autenticidade moral.

O paralelo com Jair Bolsonaro surge aqui não como centro da análise, mas como instrumento de leitura. Bolsonaro compreendeu, talvez de forma intuitiva, que a religião podia ser usada como cimento político. Não apenas como identidade cultural, mas como mecanismo de divisão. O Brasil foi apresentado como um campo de batalha moral, onde os “bons” tinham de se afirmar contra os “outros”. A política deixou de ser uma disputa programática e passou a ser uma luta existencial. Trump não replica esse modelo de forma mecânica, mas opera dentro da mesma lógica. A religião torna-se linguagem, código e arma.

O momento em que isto acontece não é irrelevante. A guerra no Irão criou a necessidade de reequilibrar a relação com a base. Num contexto de desgaste, o líder populista não recua, intensifica. Não modera, radicaliza. E fá-lo deslocando o debate para um plano onde tem vantagem, o plano da identidade, da moral, da pertença. Ao fazê-lo, reduz a margem de dúvida. Porque duvidar de uma política é legítimo, mas duvidar de uma identidade pode ser interpretado como traição. E é nessa traição em que o Papa foi identificado, através do modelo moral por Trump criado. 

O Papa, neste contexto, torna-se um alvo quase inevitável. Não apenas pela sua visibilidade global, mas porque representa uma visão do mundo que escapa à lógica do movimento. Uma visão universal, aberta, assente na dignidade humana e não na hierarquia identitária. Atacá-lo é, portanto, uma forma de obrigar a escolha. Não entre propostas políticas, mas entre pertenças morais e de grupo. Ou está connosco ou está contra nós. 

É aqui que a teoria se fecha.

Trump não está apenas a fazer política. Está a construir uma forma de religião civil, uma comunidade definida não por crenças espirituais, mas por lealdades políticas revestidas de linguagem moral. Uma comunidade onde a fidelidade ao líder se aproxima de um acto de fé, onde a dissidência se aproxima de uma heresia e onde o adversário deixa de ser apenas alguém com uma opinião diferente para se tornar alguém que deve ser excluído.

A história ensina-nos que quando a política adopta a linguagem da fé, tende a perder a capacidade de compromisso. A negociação torna-se suspeita, a pluralidade torna-se fraqueza, a diferença torna-se ameaça. O espaço comum encolhe. E quando o espaço comum desaparece, o conflito deixa de ser regulado e passa a ser permanente. E é esta a intenção de Trump. Uma luta moral de uma América e de um mundo por si criado e definido contra os infiéis. 

O ataque ao Papa deve ser lido à luz desta transformação. Não como um episódio isolado, mas como um sinal. Um indício de que a política americana está a entrar numa fase em que a disputa pelo poder se confunde com a disputa pela definição entre o bem e o mal.

Trump não está apenas a tentar recuperar o apoio da sua base, normalizando as relações depois de um desaire na questão iraniana. Está a novamente a rotular quem são os fiéis. E quem são os infiéis.

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