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À frente dos aliados, e longe das câmaras, Trump não falou da Gronelândia, de Espanha e não ameaçou sair da NATO

CNN , Kevin Liptak
9 jul, 13:16
Donald Trump na cimeira da NATO (AP)
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Da tensão ao elogio: como Trump terminou a cimeira da NATO num ambiente inesperadamente positivo

À medida que os líderes europeus entravam, quarta-feira, na cimeira da NATO, em Ancara, o ambiente era tudo menos otimista.

O presidente norte-americano, Donald Trump, encontrava-se à porta da sala da conferência e desfiava, de forma irritada, uma lista de queixas contra a Aliança Atlântica: desde a recusa em ceder-lhe a Gronelândia até à decisão de Espanha de não permitir que as suas bases fossem utilizadas na guerra com o Irão, conflito que também ameaçou reatar.

Ao aperceberem-se das declarações de Trump aos jornalistas, os restantes líderes prepararam-se para uma reprimenda que muitos esperavam desta cimeira, mas que ainda assim esperavam evitar. O maior receio era que Trump anunciasse a retirada dos Estados Unidos da NATO.

No entanto, longe das câmaras, Trump mostrou-se menos combativo.

Sentado à mesa redonda com os restantes líderes, não fez qualquer referência à Gronelândia, segundo pessoas familiarizadas com as suas intervenções. Também não mencionou Espanha.

Queixou-se, isso sim, de os países representados na reunião não o terem apoiado em relação ao Irão. Criticou ainda o estado do acordo com Teerão, assinado há três semanas, sustentando que o entendimento estava praticamente morto depois de o Irão ter atacado vários navios no Estreito de Ormuz.

Contudo, não voltou a ameaçar retirar os Estados Unidos da NATO — algo que, de resto, não pode fazer unilateralmente, embora essa possibilidade continuasse a preocupar seriamente os responsáveis europeus.

Pelo contrário, pareceu impressionado quando os líderes descreveram os esforços para aumentar o investimento na Defesa, algo que o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, atribuiu repetidamente aos anos de pressão exercida por Trump sobre os aliados.

Uma das poucas críticas feitas pelo presidente norte-americano foi o facto de os jornalistas não terem sido autorizados a assistir à reunião.

"Eles gostam do trabalho que estou a fazer", contou Trump no final do dia. "Disseram: 'Nós adoramo-lo, senhor, adoramo-lo.' São adultos a dizer isto. Não é extraordinário?"

É provável que esta descrição exagere a forma como os líderes europeus realmente lhe falaram à porta fechada. O próprio Trump admitiu, num raro momento de autoconsciência, que talvez estivessem apenas a tentar conquistá-lo.

"Talvez estivessem a tentar agradar-me", comentou, encolhendo os ombros. "E, de certa forma, conseguiram."

A estratégia de Mark Rutte

Sob a liderança de Mark Rutte, conhecido pela forma como procura conquistar Trump com elogios, a estratégia pareceu resultar, mesmo que muitos responsáveis europeus considerem, em privado, que a dignidade da Europa tem sido sacrificada no processo.

Horas mais tarde, quando estava sentado ao lado do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, Trump chegou mesmo a deixar escapar que se preparava para permitir que Kiev produzisse os seus próprios mísseis intercetores Patriot — uma mudança significativa para um líder que, apenas 16 meses antes, tinha sido duramente criticado por Trump na Sala Oval.

"Só quero dizer que havia muito carinho naquela sala", afirmou Trump antes de abandonar a cimeira.

Quanto tempo durará esse ambiente positivo continua a ser uma incógnita.

Há apenas três semanas, durante a cimeira do G7, em França, Trump elogiava o acordo com o Irão que agora considera morto, demonstrando como os resultados destes encontros diplomáticos podem ser passageiros.

Ainda assim, se o bom ambiente for suficiente para levar Trump a reconsiderar algumas das suas ameaças — o presidente chegou a admitir, em privado, reduzir em um terço o contingente militar norte-americano estacionado na Europa antes desta reunião — muitos considerarão a cimeira um sucesso.

No fundo, era esse o melhor cenário que Mark Rutte poderia esperar, apesar do início atribulado do encontro.

Foi também o resultado que o secretário-geral da NATO procurou alcançar ao longo do último ano, desde que Trump deixou a cimeira de 2025, nos Países Baixos, com um discurso inesperadamente favorável à Aliança.

O papel de Erdoğan

Rutte contou com um aliado improvável: o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, que ao longo dos anos também provocou diversas tensões dentro da NATO.

Trump considera Erdoğan um bom amigo e afirmou repetidamente que só participou na cimeira porque esta foi organizada pelo presidente turco.

Ainda assim, a sua presença não fazia prever um encontro particularmente caloroso.

Também não ajudavam as disputas que Trump alimentou nas últimas semanas, incluindo com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, cuja fotografia publicou nas redes sociais antes da cimeira com a legenda: "RESTRAINING ORDER NEEDED" ("É preciso uma providência cautelar").

Quando ambos se sentaram para o jantar de terça-feira, rodeados de especialidades turcas como pide e manti, o ambiente permanecia tenso. Não é claro se chegaram a reconciliar-se.

"Cordial" foi a palavra usada por Meloni para descrever a relação com Trump ao regressar ao hotel.

Erdoğan, um líder frequentemente acusado de reprimir a oposição e cujo principal rival político permanece preso, está habituado a recorrer a gestos de deferência semelhantes aos apreciados por Trump.

Tal como acontece atualmente em Washington, vários edifícios em Ancara exibem faixas com o rosto do presidente turco.

À chegada a Ancara, Trump foi recebido com guarda de honra, cavaleiros acompanharam o cortejo presidencial até ao palácio de Erdoğan e aviões militares sobrevoaram um tapete de boas-vindas em tons de azul-turquesa, deixando rastos de fumo vermelho, branco e azul.

O presidente norte-americano mostrou-se particularmente impressionado com as infraestruturas da capital turca.

"Estava tudo magnífico", elogiou.

Também levou um presente político para o anfitrião: fortes sinais de que pretende permitir o regresso da Turquia ao programa de aquisição dos caças F-35, uma ambição de Erdoğan que já atravessou quatro administrações norte-americanas. Ainda assim, uma proibição aprovada pelo Congresso poderá impedir qualquer avanço.

O Irão voltou ao centro das atenções

No final, a presença de Trump em Ancara acabou por servir como um exemplo de como lidar com um presidente imprevisível e minimizar os danos políticos.

Uma lição que, aparentemente, o Irão não assimilou.

Depois de passar semanas a descrever os dirigentes iranianos como "racionais" e "inteligentes", Trump mudou radicalmente o discurso e chamou-lhes "escumalha" e "malucos", depois de o Irão voltar a disparar contra navios comerciais no Estreito de Ormuz.

Pelo menos, essa foi a explicação oficial apresentada pelo presidente.

Ao longo do dia, Trump referiu repetidamente que continua a ser o alvo número um de uma alegada lista iraniana de assassínios, uma preocupação reforçada no fim de semana, quando, durante as cerimónias fúnebres do líder supremo Ali Khamenei, se ouviram cânticos a pedir a sua morte.

Não é claro o que motivou esta renovada atenção de Trump à ameaça iraniana. Ancara situa-se a cerca de 1.600 quilómetros da fronteira com o Irão, sendo possível que a proximidade geográfica tenha contribuído para reforçar essa preocupação.

Trump deixou a Turquia a bordo da versão mais antiga do Air Force One, em vez do novo avião oferecido pelo Catar, o que levantou dúvidas sobre a eventual existência de uma ameaça à segurança.

Os jornalistas a bordo receberam instruções para manter as persianas das janelas fechadas durante a descolagem.

Questionado sobre a alteração durante a conferência de imprensa de encerramento da cimeira, Trump recusou estabelecer qualquer ligação com questões de segurança.

Disse apenas que a mudança serviu para mostrar o novo avião às tropas norte-americanas destacadas numa base aérea no Reino Unido.

Já momentos antes de embarcar rumo aos Estados Unidos, voltou a referir-se ao perigo.

"Sou o número um na lista de pessoas que o Irão quer matar. São pessoas adoráveis", ironizou, antes de concluir: "Não me preocupa muito, porque estou apenas a fazer o meu trabalho."

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