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Trump queria ser a estrela do Mundial, mas a política pode estragar a festa

CNN , Stephen Collinson
10 jun, 17:33
Trump apresenta Mundial
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Normalmente, o futebol acaba por vencer a política, mas a proximidade de Infantino a Trump pode revelar-se um erro

Donald Trump pensava que iria perder a oportunidade de pisar o maior palco desportivo do mundo. Em 2018, quando os Estados Unidos conquistaram o direito de coorganizar o Mundial de futebol deste ano, lamentou: "Eu não estarei cá", numa referência aos limites de mandato presidencial.

Mas o histórico regresso político que fez dele apenas o segundo presidente norte-americano a vencer duas eleições presidenciais não consecutivas deu-lhe tempo extra no campo político e um papel de destaque no enorme espetáculo futebolístico. 

Trump sempre teve talento para se inserir no espírito do tempo. E aproveitou a oportunidade.

Exibiu orgulhosamente uma réplica reluzente do troféu do Mundial, que combinava com a decoração dourada da Sala Oval; acolheu o presidente da FIFA, Gianni Infantino, na sua órbita global do movimento MAGA; e, depois de entregar o troféu ao Chelsea num torneio de clubes da FIFA realizado nos Estados Unidos no ano passado, celebrou com a equipa como se tivesse marcado o golo da vitória. 

O Presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado do presidente da FIFA, Gianni Infantino, na Casa Branca, a 17 de novembro de 2025. Evelyn Hockstein/Reuters

Mas o Mundial de 2026, que arranca na quinta-feira, poderá servir mais para evidenciar as divisões associadas à sua política do que o seu entusiasmo pelo futebol. Embora Trump possa estar à procura de mais uma oportunidade para promover a sua omnipresença global, muitos críticos estrangeiros tendem a sentir-se afastados por atitudes que simbolizam a turbulência e a discórdia do seu segundo mandato.

A competição chega numa altura em que a estrela política de Trump parece perder brilho devido ao aumento da impopularidade interna e a alguns reveses internacionais.

A atribuição a Trump do primeiro Prémio da Paz da FIFA por parte de Infantino — depois de o seu amigo ter ficado de fora do Nobel da Paz — parece agora embaraçosa, depois de o presidente ter ordenado ataques militares contra o Irão, também ele apurado para o Mundial. 

As políticas de imigração restritivas de Trump, que deixaram alguns adeptos estrangeiros com a sensação de não serem bem-vindos nos Estados Unidos, estão a ensombrar a contagem decrescente para o início da prova. Um respeitado árbitro somali viu a entrada recusada numa altura em que a administração acusa membros da comunidade somali no Minnesota de fraude — acusações rejeitadas pela própria comunidade. A seleção do Senegal terá enfrentado controlos de segurança rigorosos à chegada ao estágio de preparação para o Mundial, embora a federação tenha afirmado que esperava esse procedimento e o considerou normal. Já o Irão anunciou na terça-feira que a sua quota de bilhetes para os três jogos da fase de grupos nos Estados Unidos foi cancelada. 

A isto somam-se receios de que agentes do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE) possam realizar operações de controlo de imigrantes sem documentos em jogos envolvendo seleções sul-americanas com forte apoio nos Estados Unidos, embora a administração tenha tentado minimizar essas preocupações.

Entretanto, o aumento dos preços dos bilhetes afastou muitos adeptos dos estádios, alimentando acusações de que a FIFA encara o Mundial mais como uma fonte de receitas do que como uma celebração dos adeptos tradicionalmente ligados às classes trabalhadoras. Os preços proibitivos tornaram-se uma metáfora das crises de custo de vida que afetam as sociedades ocidentais e das desigualdades económicas enfrentadas pelos países do Sul Global. Até Trump criticou os bilhetes de cerca de 870 euros para o primeiro jogo da seleção norte-americana.

"Gostaria certamente de estar lá, mas, para ser sincero, também não pagaria esse valor", disse ao New York Post. 

De forma mais ampla, o intenso segundo mandato de Trump, marcado pela imposição de tarifas sobre economias concorrentes e por críticas duras a sociedades de países aliados, criou um ambiente de tensão global que contrasta com a imagem de unidade e alegria que a FIFA procura promover. Durante algum tempo chegou mesmo a falar-se de um boicote europeu depois de Trump ter exigido que a Dinamarca cedesse a Gronelândia. 

Não é a primeira vez que um grande evento desportivo internacional é afetado por uma tempestade política. Os Estados Unidos lideraram o boicote aos Jogos Olímpicos de Moscovo devido à invasão soviética do Afeganistão. O último Mundial, no Qatar, ficou marcado por acusações de violações dos direitos humanos, incluindo a morte de trabalhadores migrantes envolvidos na construção dos estádios.

Antes do início de qualquer grande competição, é comum surgirem manchetes negativas relacionadas com política, comercialização excessiva ou acessibilidade. Mas a forte politização do Mundial de 2026, organizado em conjunto pelos Estados Unidos, Canadá e México num momento de tensões no hemisfério ocidental, tem um ingrediente adicional quase garantido para gerar divisões: Donald Trump. 

A proximidade de Infantino a Trump pode revelar-se um erro

O Presidente dos EUA, Donald Trump, discursa ao lado do presidente da FIFA, Gianni Infantino, após receber o recém-criado Prémio da Paz da FIFA durante o sorteio oficial do Mundial de 2026, em Washington, a 5 de dezembro de 2025. Kyodo News/Getty Images

A capacidade do presidente norte-americano para gerar reações extremas, tanto positivas como negativas, colocou sob escrutínio a decisão de Gianni Infantino de se aproximar tanto da Casa Branca.

O presidente da FIFA tornou-se uma presença frequente em Washington e em Mar-a-Lago. Chegou mesmo a participar numa cimeira de paz sobre Gaza realizada no Egito no ano passado. Após a cerimónia de tomada de posse do segundo mandato de Trump, escreveu no Instagram:

"Juntos, tornaremos não apenas a América grande novamente, mas também o mundo inteiro." 

Esta aparente demonstração de apoio pareceu colidir com os estatutos da FIFA, que sublinham que a organização permanece "neutra em matérias políticas". Ainda assim, Infantino defendeu a sua amizade com Trump durante uma reunião na Irlanda do Norte no ano passado.

"Penso que é absolutamente crucial para o sucesso de um Mundial ter uma relação próxima com o presidente", afirmou, citado pela agência France-Presse. 

Mesmo assim, as polémicas que antecedem o torneio levantam dúvidas sobre até que ponto a FIFA conseguiu realmente influenciar Trump.

"Infantino pode dizer: 'O que tenho de fazer enquanto presidente desta organização para garantir apoio político e assegurar que tudo corre bem?'", afirmou Alexander Cooley, investigador sénior do Chicago Council on Global Affairs. Mas, segundo o académico, a FIFA pode ter caído numa armadilha política.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, ouve o hino nacional antes do início do Jogo 3 das Finais da NBA entre os New York Knicks e os San Antonio Spurs, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, a 8 de junho de 2026. Samuel Corum/Getty Images

"Penso que o que estamos a ver é que a administração Trump simplesmente não se preocupa com a opinião pública global." 

Cooley argumenta ainda que a equipa de Trump poderá estar a utilizar o tratamento dado a adeptos, delegações e árbitros estrangeiros como uma estratégia clássica de imigração destinada a agradar à sua base eleitoral.

"Se o resto do mundo ficar indignado ou desapontado com isso, quem se importa?", resumiu, descrevendo aquilo que poderá ser a lógica da administração. 

Normalmente, o futebol acaba por vencer a política

O Mundial é amplamente considerado o maior evento desportivo do planeta. Segundo a FIFA, a final do Qatar 2022 foi vista por 1,5 mil milhões de pessoas.

Trump costuma destacar a dimensão da competição. No ano passado, afirmou na Sala Oval:

"É como ter três Super Bowls por dia durante um mês." 

Fã assumido de desporto, Trump aprecia grandes audiências e a intensidade da exposição mediática. Por isso, não surpreende que se sinta atraído por um espetáculo desta dimensão.

Espera-se que intervenha frequentemente ao longo do torneio, seja nas redes sociais, seja comentando polémicas dentro ou fora dos relvados, mantendo a sua tradição de usar o desporto para transmitir mensagens sociais, culturais e políticas. No primeiro mandato, por exemplo, criticou repetidamente Colin Kaepernick e outros jogadores da NFL que se ajoelhavam durante o hino nacional em protesto contra a violência policial.

Mas misturar desporto e política pode ter consequências negativas. Trump foi fortemente assobiado quando apareceu num jogo das finais da NBA, em Nova Iorque, na segunda-feira. Além disso, a sua tendência para se associar aos sucessos dos outros pode acabar por eclipsar os próprios protagonistas. A vitória dos Estados Unidos sobre o Canadá na final dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano transformou-se num momento de divisão política depois de Trump e o diretor do FBI, Kash Patel, se terem associado às celebrações da equipa. 

Ao longo da história, vários líderes mundiais tentaram tirar proveito político dos Mundiais. Alguns, como o primeiro-ministro britânico Harold Wilson após o triunfo inglês em 1966, envolveram-se simbolicamente na bandeira nacional. A junta militar argentina usou a vitória de 1978 como instrumento de propaganda. Vladimir Putin procurou recuperar prestígio internacional através da organização do Mundial de 2018, depois de ter sido isolado diplomaticamente devido à anexação da Crimeia. E críticos consideram que tanto o Mundial do Qatar como o de 2034, na Arábia Saudita, fazem parte de estratégias de "sportswashing" destinadas a melhorar a imagem de regimes autoritários. 

Estas circunstâncias levaram alguns críticos a argumentar que Infantino se vê tanto como uma figura geopolítica quanto como um dirigente do futebol. A sua proximidade com líderes como Trump e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman reflete uma época em que multimilionários e fundos soberanos do Médio Oriente controlam muitos dos maiores clubes do mundo.

Ainda assim, os grandes eventos desportivos costumam resistir às tentativas dos políticos de os instrumentalizar. Os Mundiais ficam na memória por momentos de génio futebolístico, como a célebre finta de Johan Cruyff em 1974 ou os golos de Paolo Rossi que conduziram a Itália ao título em 1982.

Diego Maradona, da Argentina, marca o primeiro golo com a sua célebre "Mão de Deus", ultrapassando o guarda-redes inglês Peter Shilton, durante os quartos de final do Mundial do México, a 22 de junho de 1986. Bob Thomas/Getty Images

As polémicas mais recordadas costumam acontecer dentro de campo, como a famosa "Mão de Deus" de Diego Maradona nos quartos de final de 1986 frente à Inglaterra, ou a célebre cabeçada de Zinedine Zidane na final de 2006. 

Algures durante o próximo mês, um momento de genialidade ou um gesto impulsivo voltará a recordar porque é que os Mundiais, mesmo na sua versão moderna, altamente comercializada e politizada, conseguem parar o mundo.

Infantino, profundamente envolvido na política do futebol, sabe-o melhor do que ninguém. No Fórum Económico Mundial de Davos, este ano, recordou que no Qatar toda a polémica política desapareceu assim que a bola começou a rolar.

"Quando a bola começou a rolar e a magia começou, praticamente não tivemos incidentes", afirmou.

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