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Trump diz que o fim da guerra em Gaza está mais próximo do que nunca. A realidade é mais complicada

CNN , Kevin Liptak, Oren Liebermann
30 set 2025, 11:38
Membros da comunicação social tentam colocar questões enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, apertam as mãos numa conferência de imprensa conjunta na Casa Branca, na segunda-feira.
Jonathan Ernst/Reuters

 

 

 

O plano prevê a libertação de todos os reféns restantes detidos pelo Hamas – vivos e mortos – no prazo de 72 horas após Israel aceitar publicamente o acordo, o que significa que o relógio já está a contar para que o grupo aceite

O presidente Donald Trump saiu das conversações com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, na segunda-feira, declarando que o fim da guerra em Gaza estava mais próximo do que nunca, depois de Netanyahu ter concordado com um plano de 20 pontos que define os parâmetros de um cessar-fogo.

A proposta, que Trump revelou publicamente pela primeira vez, ainda requer a aprovação do Hamas. E existem várias disposições contidas no plano que o grupo terrorista já rejeitou anteriormente.

Ainda assim, Trump mostrou-se esperançoso de que, após quase dois anos de guerra, um fim do conflito – que deixou dezenas de milhares de mortos e Gaza em ruínas – possa estar próximo.

“Acho que estamos para lá de muito próximos,” disse Trump no início da sua intervenção com Netanyahu na Sala de Jantar de Estado da Casa Branca. “Ainda não acabámos completamente. Temos de conseguir o Hamas.”

O plano prevê a libertação de todos os reféns restantes detidos pelo Hamas – vivos e mortos – no prazo de 72 horas após Israel aceitar publicamente o acordo, o que significa que o relógio já está a contar para que o grupo aceite.

Tanto Trump como Netanyahu alertaram para consequências graves caso o Hamas recuse a proposta.

“Espero que venhamos a ter um acordo de paz, e se o Hamas rejeitar o acordo, o que é sempre possível – só faltam eles, todos os outros aceitaram – mas tenho a sensação de que vamos ter uma resposta positiva,” afirmou Trump durante declarações na Casa Branca.

“Se o Hamas rejeitar o seu plano, Sr. Presidente, ou se supostamente o aceitar e depois fizer tudo para o contrariar, então Israel fará o trabalho sozinho,” garantiu Netanyahu. “Isto pode ser feito da forma fácil ou da forma difícil, mas será feito.”

Trump afirmou que Israel teria o seu “total apoio” para continuar a agir contra o Hamas caso o grupo rejeite o acordo.

Nenhum dos dois respondeu a perguntas no final da sua intervenção, afirmando que seria melhor esperar até que o plano fosse finalizado e acordado por todas as partes.

Tanques avançam em Gaza, vistos do lado israelita da fronteira, a 22 de setembro Maya Levin/AFP/Getty Images

Embora ainda não tenha havido uma resposta do Hamas, outro grupo militante palestiniano, o Jihad Islâmico, condenou o plano de Trump, alertando que se tratava de uma “receita para uma explosão regional” e de “continuação da agressão contra o povo palestiniano”.

O Secretário-Geral do grupo, Ziyad al-Nakhalah, afirmou que Israel estava a tentar alcançar através do plano norte-americano o que não conseguiu durante a guerra.

O fórum das famílias, que representa os familiares dos reféns capturados pelo Hamas nos ataques de 7 de outubro, apelou ao governo israelita para “avançar… no sentido de completar este acordo”, afirmando que era “agora ou nunca”. O grupo tem sido abertamente crítico de Netanyahu e acusou-o de “sabotagem” e de ser um “obstáculo” ao fim da guerra.

O impulso de Trump por um acordo

Um acordo para pôr fim à guerra em Gaza, que dura há quase dois anos, representaria uma grande vitória diplomática para Trump, que se tem publicamente candidatado ao Prémio Nobel da Paz e se mostrava cada vez mais frustrado pela sua incapacidade de acabar com o conflito. Poderia também – na perspetiva de responsáveis norte-americanos – desbloquear um plano mais amplo que transformaria o Médio Oriente, potencialmente abrindo a porta à expansão dos Acordos de Abraão, que permitiram a Israel normalizar relações com os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain. Estes acordos foram a realização mais emblemática da política externa de Trump no seu primeiro mandato.

Antes do anúncio de segunda-feira, Trump projetava publicamente confiança de que um acordo estava iminente, mesmo que Netanyahu não tivesse apoiado totalmente a proposta. “Estamos a trabalhar nisso”, disse Netanyahu durante o fim de semana. “Ainda não está finalizado.” Funcionários da Casa Branca descreveram a proposta como o melhor plano que Israel ou o Hamas poderiam esperar.

O renovado esforço da administração Trump por um cessar-fogo em Gaza surge enquanto vários países ocidentais reconheceram o Estado palestiniano na Assembleia Geral das Nações Unidas da semana passada.

Um plano anterior que circulou pela administração nos últimos dias previa a libertação de todos os 48 reféns restantes – 20 dos quais se acredita ainda estarem vivos – em troca do fim da guerra e de uma retirada faseada das tropas israelitas de Gaza. Esse plano, tal como o divulgado na segunda-feira, negava ao Hamas qualquer papel futuro na governação de Gaza, prevendo antes dois níveis de governação interina: um órgão internacional e um comité palestiniano.

O plano de segunda-feira descreve o órgão internacional como sendo chamado “Conselho da Paz”, presidido por Trump, “com outros membros e chefes de Estado a anunciar”, incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Trump disse que não foi sua a decisão de chefiar o organismo - “Acreditem, estou muito ocupado” - mas disse que concordou na mesma. “Os líderes do mundo árabe e de Israel e todos os envolvidos pediram-me para fazer isto”, afirmou.

A última ronda de negociações, no final de julho, que também se caracterizou por grande otimismo, desmoronou quando os EUA se retiraram inesperadamente das conversações, seguidos de perto por Israel. Ambos os países culparam o Hamas por não negociar de boa-fé.

Durante meses, Trump mostrou-se exasperado com a resistência de Netanyahu em acabar com a guerra e com a expansão das operações militares no Médio Oriente, revelaram fontes da Casa Branca. Confiante de que a sua relação pessoal com Netanyahu iria pressionar o líder israelita a encontrar uma solução, Trump terá questionado publicamente nos últimos meses se estaria a ser enganado por um homem que ele descreveu como amigo.

Uma fotografia tirada à distância mostra um edifício danificado no Qatar, à esquerda, no complexo que abriga membros do gabinete político do grupo militante palestiniano Hamas. Foi alvo de um ataque israelita no dia anterior, a 10 de setembro. AFP/Getty Images

Esses sentimentos aprofundaram-se quando Israel lançou ataques na capital do Qatar, Doha, para eliminar líderes do Hamas, no início deste mês. Trump ficou furioso com a operação, preocupado de que pudesse dificultar os esforços para mediar o fim da guerra, especialmente poucos dias depois da administração Trump ter apresentado uma proposta anterior de cessar-fogo, segundo fontes familiarizadas com o assunto. Na segunda-feira, antes do anúncio de Trump e Netanyahu, Netanyahu “expressou o seu profundo pesar” numa chamada telefónica com o primeiro-ministro do Qatar pelo facto de o ataque ter causado a morte de um militar qatari, segundo a Casa Branca.

Ainda assim, até agora, Trump não cortou publicamente relações com Netanyahu, nem suspendeu o apoio militar ou financeiro dos EUA a Israel, que poderia servir de alavanca junto do seu homólogo.

Trump tem sido abertamente otimista quanto a um cessar-fogo, prevendo várias vezes que a cessação das hostilidades estaria a poucos dias ou uma semana de distância. Mas até agora, as suas previsões não se concretizaram e a guerra continuou sem abrandar.

Os aliados de extrema-direita de Netanyahu, o Ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir e o Ministro das Finanças Bezalel Smotrich, ameaçaram derrubar o governo israelita se a guerra terminar e a proposta de Trump incluir disposições que eles já disseram anteriormente que rejeitam.

Antes do anúncio, Smotrich emitiu uma lista de exigências inegociáveis, incluindo que a Autoridade Palestiniana (AP) não tivesse qualquer envolvimento em Gaza. O plano de Trump, no entanto, prevê que o controlo de Gaza voltaria para a AP depois de esta implementar um programa de reformas.

Netanyahu estava previsto falar com ambos na segunda-feira à noite e deveria dizer-lhes que está céptico quanto à aceitação da proposta pelo Hamas, permitindo que Israel continue a guerra, disse uma fonte israelita à CNN.

Continua o assalto à Cidade de Gaza

Em agosto, o gabinete de segurança de Israel aprovou a tomada e ocupação da Cidade de Gaza, que Netanyahu disse ser um dos últimos redutos do Hamas.

O massivo assalto militar à maior área urbana de Gaza esmagou as esperanças de um fim iminente da guerra.

Palestinianos deslocados viajam para sul com os seus pertences numa estrada no campo de refugiados de Nuseirat, na região central de Gaza, a 20 de setembro. Eyad Baba/AFP/Getty Images

Este mês, uma investigação independente da ONU concluiu, pela primeira vez, que Israel cometeu genocídio contra os palestinianos em Gaza, uma constatação que ecoa outras de especialistas em genocídio e grupos de direitos humanos, mas que o governo israelita rejeitou.

Mais de 66.000 palestinianos foram mortos desde o início da guerra, segundo o Ministério da Saúde palestiniano, incluindo mais de 17.000 crianças. No ataque que deu início à guerra a 7 de outubro de 2023, o Hamas e outros grupos militantes mataram cerca de 1.200 pessoas em Israel e raptaram mais de 250 outras.

Desde então, só houve dois cessar-fogos. O primeiro entrou em vigor em novembro de 2023, mas durou apenas uma semana. Nesse período, 105 reféns foram libertados de Gaza, em troca de dezenas de prisioneiros palestinianos.

Um segundo cessar-fogo só foi estabelecido em janeiro de 2025, pouco antes do regresso de Trump à Casa Branca. Em pouco mais de oito semanas – a primeira “fase” do cessar-fogo – o Hamas libertou 33 reféns, com Israel a libertar cerca de 50 prisioneiros palestinianos por cada israelita libertado.

Na segunda fase planeada, Israel deveria ter aceite um cessar-fogo permanente. Mas Israel retomou a ofensiva a 18 de março, quebrando o cessar-fogo e desviando as negociações, afirmando que o fez para pressionar o Hamas a libertar os reféns restantes.

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