A retaliação tarifária de Trump contra o Brasil, em resposta ao julgamento de Jair Bolsonaro, marca uma escalada do combate internacional ao lulismo — entendido aqui não só como um programa político, mas como símbolo global de uma ordem progressista ameaçada. Para entender este embate, é preciso recuar na história das relações entre os Estados Unidos e o Brasil, fomentada por questões geográficas e afinidades históricas. A partir da chamada “era dos nacionalismos”, durante a vigência de Getúlio Vargas (1930-1945) e depois na quarta república brasileira, com Eurico Gaspar Dutra (1946–1951), o Brasil inicia o seu longo trajeto de alinhamento político com os EUA. Com o “governo Dutra”, tem início a doutrina do Brasil como peça-chave do “quintal” americano na América Latina, dentro da lógica da Guerra Fria. A interferência americana no Brasil ganha novos contornos com o golpe militar de 1964 que derrubou João Goulart, o qual contou com o apoio ativo e logístico americano por ordem do presidente Lyndon B. Johnson – a “Operação Brother Sam”.
Esta ingerência americana tinha por base a política de combate à expansão do comunismo, em especial os receios americanos no seu “jardim” a sul, justificando-se a política externa da “doutrina Monroe”, da hegemonia hemisférica dos EUA, e a doutrina da Segurança Nacional, que legitimava a interferência noutros Estados soberanos sob o argumento de defesa avançada dos EUA e da democracia contra o comunismo.
Com a queda do muro de Berlim e o avanço das vagas de democratização pelo globo, o Brasil inicia uma nova etapa nas relações com os EUA, durante os governos de José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, com uma lógica de cooperação. A abertura comercial e a adesão aos princípios do Consenso de Washington marcaram esse período, inserindo o Brasil num projeto de globalização liberal.
A era de Lula da Silva significa um período novo, com um capital simbólico especial adquirido pelo Brasil no contexto tanto dos BRICs, em que o Brasil emerge como potência económica global e símbolo do “Sul global”, quanto da vigência de Barack Obama, em que Lula da Silva é visto como um símbolo do progressismo democrático brasileiro de inspiração “trabalhista”.
A ascensão de Donald Trump, num contexto de vaga do iliberalismo de direita (ou do populismo de direita radical, como preferirem) em todo o Ocidente, abriu o caminho para a ascensão de Jair Bolsonaro, criando um novo eixo americano-brasileiro, agora de natureza ideológica iliberal, agudizada, no caso brasileiro, pela nostalgia explícita da ditadura militar e pela reabilitação simbólica do autoritarismo como ferramenta de “ordem” e “patriotismo”.
É neste quadro de um eixo iliberal e autocrático de direita que é preciso inscrever as novas trarifas de 50% sobre todos os bens importados do Brasil, aplicável a partir de 1 de agosto de 2025, que surgem como retaliação contra o processo movido ao ex-presidente Bolsonaro, que Trump apelidou de “caça às bruxas”.
Esta iniciativa económica é, portanto, política e possui duas dimensões interligadas: por um lado, traduz a guerra cultural contra o multiculturalismo e o “marxismo cultural” de que Lula da Silva é um dos representantes mais relevantes na cena global, com o Brasil a posicionar-se como um terreno especialmente favorável neste embate ideológico; por outro, fomenta um potencial golpe que permita o regresso de Bolsonaro, uma figura política totalmente subordinada a Donald Trump, favorecendo o eixo americano de hegemonia cultural e política no continente americano, num quadro de redesenho da política mundial. A instrumentalização de sanções comerciais como arma de pressão ideológica revela a crescente fusão entre guerra económica e guerra cultural nos regimes iliberais.
Assim, o Brasil volta a ser palco de disputas ideológicas globais. De um lado o eixo autocrático e nacionalista da direita iliberal, que une Trump, Orbán, Le Pen (e que noutro cenário poderia incluir Putin e Xi), do outro, o multiculturalismo e a agenda globalista, que vai sobrevivendo pelas instituições e menos por rostos. Nesta dinâmica, o Brasil emerge não apenas como espelho, mas como laboratório, onde as batalhas da democracia liberal contra o autoritarismo contemporâneo se tornam mais visíveis e agudas.