O presidente norte-americano prepara-se para pôr um travão nos esforços do seu antecessor, Joe Biden, em tornar a indústria norte-americana “mais verde”, com fortes apoios a energias renováveis e a fabricantes de carros elétricos.
Donald Trump não perdeu tempo e, logo no seu primeiro discurso enquanto presidente do Estados Unidos da América (EUA), anunciou que vai declarar uma emergência energética nacional com o objetivo de fazer disparar a produção de petróleo e de gás natural no país, para baixar o preço aos consumidores americanos. As medidas de Trump para a energia não vão ficar por aqui e os especialistas alertam que Portugal poderá ser uma das principais vítimas destas medidas.
De acordo com o Gabinete de Estatísticas do Trabalho dos EUA, desde que Joe Biden entrou em funções, os custos da energia aumentaram 39%, o óleo para aquecimento doméstico aumentou 44%, a gasolina aumentou 48%, a eletricidade aumentou 29% e o gás natural aumentou 27%.
“O impacto destas medidas é muito mau. Esta medida aumenta significativamente o dióxido de carbono na atmosfera e vai continuar a acelerar as alterações climáticas em todo o mundo. O "drill, baby, drill" de Trump vai colocar milhões de pessoas em risco de eventos climáticos extremos e Portugal é um dos países mais vulneráveis”, alerta o professor Filipe Duarte Santos, um dos pioneiros em Portugal na área das alterações climáticas.
O presidente norte-americano prepara-se para pôr um travão nos esforços do seu antecessor, Joe Biden, em tornar a indústria norte-americana “mais verde”, com fortes apoios a energias renováveis e a fabricantes de carros elétricos. O principal alvo de Donald Trump vai ser o Inflation Reduction Act, de 2022, que injetou mais de 390 mil milhões de dólares nestas indústrias.
E Donald Trump chega à presidência norte-americana precisamente num momento crucial do combate às alterações climáticas. Os cientistas insistem que as principais economias mundiais têm até 2030 para reduzir as suas emissões de gás com efeito de estufa para metade para evitar catapultar o planeta para um cenário onde sentirá com mais intensidade e regularidade os impactos de fenómenos climáticos extremos, do aquecimento, tempestades, fome e deslocação de populações em diversas partes do mundo.
“Se formos pelo caminho do aumento o impacto vai ser devastador. Vamos começar a ver incêndios como os da Califórnia com muito mais frequência e tempestades cada vez maiores. A grandeza destes fenómenos e a sua dimensão vai ser cada vez maior”, explica o geofísico, lembrando os recentes fogos no condado de Los Angeles, poucos meses depois de o Norte e Centro de Portugal também terem sido fustigados pelo fogo.
O presidente Joe Biden estava a caminho de conseguir cortar 40% das suas emissões até ao fim de 2024. Mas Donald Trump já deu a entender que isso é para acabar, até porque insiste que os Estados Unidos estão “numa corrida às armas” contra a China no campo da Inteligência Artificial, uma área que requer enormes quantidades de energia e que esteve em peso na tomada de posse - além de Elon Musk (fundador da Tesla), pessoas como Mark Zuckerberg (dono da Meta), Sundar Pichai (CEO da Google) ou Sam Altman (fundador do ChatGPT) foram vistos no local. De acordo com o Departamento de Energia norte-americano, a procura energética pode triplicar em apenas três anos, devido às necessidades dos centros de dados que suportam esta tecnologia.
Ainda não existem dados oficiais dos níveis de emissões de dióxido de carbono em 2024, mas é possível comparar o número de emissões dos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump e o de Joe Biden. A América de Trump emitia 4,9 Gt de CO2 por ano, com exceção de 2018, quando esse número subiu para 5 Gt, antes de cair no ano da pandemia para 4.4 Gt de CO2. Nos dois primeiros anos de Biden, o país emitiu menos CO2, com apenas 4.7 Gt e, em 2023, esse número caiu para 4.5 Gt. (um Gt corresponde a mil milhões de toneladas de dióxido de carbono).
Apesar de muitas promessas de Joe Biden, uma coisa que o homem que agora deixou de ser presidente não fez foi reduzir a produção de petróleo no país, particularmente após o início da guerra na Ucrânia. Biden sai da Casa Branca com a produção de gás e de petróleo a baterem recordes. No entanto, o presidente democrata colocou um travão em perfurações em regiões do Golfo do México e no Alasca. Trump quer utilizar uma "avalanche" de ordens executivas para impulsionar a produção. Lá está: "Drill, baby drill".
Estas medidas podem levar a um "boom" na construção de novos gasodutos, terminais de exportação de gás liquefeito e de centrais elétricas. O objetivo, segundo Chris Wright, o escolhido de Trump para o Departamento de Energia, é restaurar o "domínio energético" da América.
Segundo uma análise do Carbon Brief, um website especializado em política energética, as políticas de Donald Trump podem fazer disparar as emissões em quatro mil milhões de toneladas de dióxido de carbono até 2030. Este valor é o equivalente às emissões combinadas entre todos os países da União Europeia e o Japão, sendo que estas medidas teriam um custo estimado em danos de 900 mil milhões de dólares em todo o mundo, segundo uma avaliação do executivo americano.
No seu primeiro mandato, Donald Trump reverteu 125 medidas ambientais do anterior executivo e abandonou o Acordo de Paris, onde 195 países se comprometiam a esforços para manter o aumento da temperatura média global abaixo dos dois graus Celsius. Com Joe Biden na Casa Branca, os Estados Unidos voltaram a fazer parte do tratado, mas esse esforço pode ter sido em vão, já que a saída está novamente iminente.
E agora, o novo presidente quer ir muito mais longe. Além de reverter os esforços de Biden para que os norte-americanos fizessem a transição para veículos elétricos, Trump planeia reverter a regulação que pretende reduzir as emissões de centrais elétricas, bem como algumas legislações que protegem espécies em vias de extinção e tentam limitar atividades que poluam o ar e a água.
E Portugal é mesmo um dos países mais afetados da Europa pelas alterações climáticas. De acordo com um estudo publicado na revista Nature Ecology, que analisou 21 anos de informação obtida por satélites da NASA, o nosso país tem visto a intensidade dos incêndios aumentar 2,3 vezes, com os incêndios mais extremos a acontecer em 2017, quando morreram mais de 100 pessoas. Isto faz de Portugal um dos países mais afetados pelas alterações climáticas na União Europeia, dando razão a Filipe Duarte Santos. Isto não só afeta as populações locais, que têm prejuzídos de milhões, como o próprio incêndio emite quantidades de fumo e gases com efeito de estufa significativos, que acabam por contribuir para o problema do aquecimento global.
Além dos incêndios, Portugal é cada vez mais afetado pela falta de água, particularmente no sul do país. O armazenamento de água nas barragens está aquém do desejado, com poucas exceções. No final de maio, quase metade do país estava em seca severa e os especialistas acreditam que a tendência é para piorar. Particularmente no sul do país.
“Para Portugal isto é assustador. Somos dos países mais vulneráveis da Europa. Nós temos uma tendência de diminuição da média da precipitação anual. Quando se faz a média a dez anos da precipitação acumulada, esse valor tem estado a diminuir. Isso é extremamente evidente no Algarve, onde as seis principais barragens no fim de 2024 as principais seis barragens tinham um enchimento de 35% e no ano anterior de 25%. As medidas de Trump agravam este cenário”, alerta o especialista Filipe Duarte Santos.