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Agora é tempo de falar sobre a idade de Trump (que até troca o nome do seu médico). Mas também é tempo de falar sobre a idade de toda a gente

25 jul 2024, 18:00
Donald Trump Joe Biden debate presidenciais (AP)
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Podemos estar intelectualmente bem aos 90 anos e nem tanto aos 60 - ou vice-versa, não há regra: a ciência tem dificuldades em fazer despistes cognitivos mas sabe-se que há fatores que ajudam as pessoas a proteger-se da perda de faculdades intelectuais. Outro ponto: “Os físicos e os matemáticos parecem atingir o pico cognitivo mais cedo do que os economistas". Contexto da discussão: a idade fez cair um candidato presidencial nos EUA mas sobra outro candidato - Trump - que não tem uma idade tão diferente quanto isso. E metade dos americanos duvida de que o republicano tenha a capacidade cognitiva para cumprir um novo mandato

A idade de alguém “não é um bom critério" para definir, por exemplo, quem está apto a candidatar-se à presidência, "ainda que aceitemos que, com a idade, pode haver maior risco de declínio cognitivo”. É o que defende a neurologista Ana Verdelho, responsável pela consulta de demências no Hospital de Santa Maria. "Uma pessoa com 60, 70 ou 80 anos ou está bem ou percebe-se que perdeu capacidades - ou pode ter uma doença que não foi investigada", adianta a especialista à CNN. "Sabemos que a idade traz alguma fragilidade biológica e que as doenças são mais frequentes com o envelhecimento, mas a idade por si só não deve ser critério de capacidades."

Foi essa perda de capacidades associada à idade avançada de Joe Biden o grande motor das pressões que o levaram a desistir da corrida presidencial há quatro dias - e que agora vira o tema da idade para o próprio Donald Trump, que tem apenas menos três anos do que o presidente cessante.

No seu antecipado discurso de desistência - feito quarta-feira, três dias depois da carta em que confirmava que não vai candidatar-se a um segundo mandato presidencial -, Biden lançou o mote do que os especialistas em política americana dizem que deverá ser um dos argumentos fortes do Partido Democrata nos três meses de campanha que restam até à ida às urnas.

Falando durante 11 minutos com o auxílio de um teleponto a partir da sala oval na Casa Branca, o chefe de Estado explicou à nação porque decidiu desistir da corrida contra Donald Trump, um acontecimento inédito desde 1968, quando o democrata Lyndon B. Johnson abdicou da nomeação.

“Há um tempo e um lugar para novas vozes, vozes frescas – sim, vozes mais jovens – e esse tempo e lugar são agora”, disse na quarta-feira à noite, sem referir mais nenhum motivo para se afastar. “O melhor caminho em frente é passar o testemunho a uma nova geração.”

Tudo aponta que a “voz mais jovem” de uma “nova geração” é a de Kamala Harris, atual vice-presidente, que Biden foi rápido a apoiar formalmente e que conta já com delegados suficientes para conquistar a nomeação do partido na Convenção Nacional Democrata, em meados de agosto. Aos 59 anos (60 completos quando chegar o dia das eleições), tem menos 20 do que o rival republicano, que ao longo da campanha fez da idade de Biden uma das suas principais armas de arremesso. 

Como refere Ron Brownstein, editor de política da CNN Internacional, “apesar de a questão ter sido ofuscada pelas preocupações com Biden, cerca de metade dos americanos tem afirmado em sondagens que duvida de que Trump tenha a capacidade cognitiva (não física) para cumprir um novo mandato”. E com a saída de cena de Biden, isso promete jogar a favor dos democratas.

Kamala Harris, a mais que provável candidata democrata à presidência, tem menos 20 anos do que o rival republicano foto AP Photo/Darron Cummings

“Um triste momento de declínio”

As sondagens – e os dados científicos – não deixam margem para dúvidas. Num artigo publicado há cerca de um mês, um dia depois do debate Trump-Biden em que a fraca prestação do presidente veio reforçar as preocupações com a sua idade e capacidades, Nate Silver repetiu o que muitos diziam então sobre a necessidade de Joe Biden abandonar a corrida.

“O declínio cognitivo é mais difícil de medir [do que o físico] e varia muito em função das competências exatas que cada trabalho exige”, escreveu o analista de dados do site 538. “Os físicos e os matemáticos parecem atingir o pico mais cedo do que os economistas, por exemplo. As tarefas que beneficiam da experiência de vida e da capacidade de estabelecer relações sociais podem atingir o pico mais tarde ainda; um diretor-geral da lista Fortune 500 tem, em média, 58 anos. Mas quase nenhum diretor executivo, à exceção de Warren Buffet, tem a idade de Joe Biden: 81 anos” - a esperança média de vida de um português, como indica Ana Verdelho. 

“O trabalho surge como fator de proteção cognitiva", explica a neurologista do Hospital de Santa Maria. "O facto de a pessoa ter desenvolvido atividades mais complexas é um fator de proteção, aumenta a reserva cognitiva. O que os estudos nos dizem é que o investimento cognitivo, a escolaridade mas também o trabalho e a formação e atividades ao longo da vida, isso à partida protege mais as pessoas – uma pessoa com um trabalho rotineiro, por exemplo a calcetar, que nunca fez nada diferente, que teve sempre um trabalho que não exigiu nenhum desenvolvimento especial de capacidades, não estará tão protegida.”

O ar perdido e confuso de Biden no primeiro (e único) debate contra Trump contribuiu para aumentar as pressões para que desistisse da corrida foto Gerald Herbert/AP

No caso de Biden, a idade avançada ganhou importância face às sucessivas gafes que foi cometendo em público, desde as várias pausas desconfortáveis e olhar perdido durante o debate de há um mês até ter chamado “presidente Putin” ao líder da Ucrânia na cimeira da NATO, em Washington, há poucas semanas. E essas manifestações de aparente declínio cognitivo já vinham acontecendo há largos meses, levando vários nos EUA, incluindo Nate Silver, a manifestar preocupações com a saúde do presidente.

“Nada pôs um certo tipo de democratas mais zangado comigo do que a minha insistência de que os democratas têm de levar a sério as preocupações do eleitorado com a idade de Joe Biden”, escreveu o analista há um mês. “Como sabe qualquer pessoa com um amigo ou familiar que está a envelhecer – que é o mesmo que dizer quase toda a gente –, o final dos 70 anos e o início dos 80 marca frequentemente um triste momento de declínio, um ponto de inflexão a partir do qual as pessoas têm dias bons e dias maus, mas em que não conseguem realizar as tarefas do quotidiano com o mesmo grau de consistência de anteriormente.”

A profecia de Nikki Haley e a gerontocracia dos EUA

Se Joe Biden continuasse na corrida e vencesse, teria 86 anos no final do segundo mandato – e se Trump vencer, vai completar o mandato com a idade que Biden tem agora. “Poucos líderes mundiais estão próximos dessa idade, excetuando em países autoritários”, aponta Silver – “e nenhum deles é o presidente da América, o trabalho mais difícil do mundo”.

“Mais do que a idade, o que importa são as queixas e as falhas, se a pessoa as tem ou não”, destaca Ana Verdelho. “A pessoa de 90 anos sem queixas nem falhas, a funcionar perfeitamente, não tem indicação para ser vista. Mas a pessoa que tem 60 anos e que tem queixas, falhas, erros, coisas que não está a fazer bem e que dantes fazia, que perdeu capacidades, deve ser vista e acompanhada.”

Antes de aceitar a derrota para Donald Trump durante as primárias republicanas, Nikki Haley profetizou que "o partido que vai vencer estas eleições é o partido que retirar primeiro o seu candidato de 80 anos" foto Richard Ellis/EPA)

Quando ainda tentava disputar a nomeação republicana com Donald Trump, no arranque das primárias em janeiro, Nikki Haley também usou a idade de Biden – e a do ex-presidente – para tentar chamar a si o eleitorado do partido. Num vídeo recuperado esta semana, a ex-embaixadora de Trump na ONU antecipava que “o primeiro partido a retirar o seu candidato de 80 anos vai ser o partido que vence as eleições”, já que “a maioria dos americanos não quer uma desforra entre Biden e Trump”.

Ainda é cedo para saber se estava certa – e apesar de entretanto se ter juntado à caravana Trump, o discurso não deixa de ressoar junto de uma larga faixa do eleitorado, à esquerda e à direita. Aos 78 anos, o republicano é agora o candidato mais velho de sempre à presidência dos Estados Unidos. E até hoje, Biden e Trump foram os únicos presidentes na história do país a inaugurar os seus primeiros mandatos com 70 ou mais anos.

A questão da idade tornou-se tão premente neste ciclo eleitoral que tem levado a acesos debates sobre a gerontocracia da sociedade americana - e não apenas em relação à presidência. A atual composição do Congresso faz da atual legislatura uma das mais velhas de sempre. E, nos últimos anos, dois políticos de renome decidiram afastar-se por causa da idade.

Aos 82 anos, a democrata Nancy Pelosi abdicou da liderança da Câmara dos Representantes em 2022. E com a mesma idade, Mitch McConnell deu o mesmo passo quando, no início do ano, anunciou que se ia reformar do Senado, onde liderava a minoria republicana, depois de vários momentos públicos (e publicitados) de claro declínio cognitivo.

Depois de meses de pressão para se retirar da vida política face ao seu aparente declínio cognitivo, o senador Mitch McConnell anunciou que se ia reformar em fevereiro deste ano foto Cliff Owen/AP

O mesmo se passa no Supremo Tribunal dos EUA (SCOTUS). Há um ano, uma sondagem do Pew Research Center demonstrava que 74% dos norte-americanos defendem a imposição de limites à idade dos juízes da mais alta instância judicial federal. Do total de nove juízes do SCOTUS, dois têm agora mais de 70 anos e outros dois seguem logo atrás, com 69 anos; a mais nova, a conservadora Amy Coney Barrett, tem 52 anos. 

O inquérito de opinião do Pew encontrou eco até junto de um ex-juiz do Supremo, Stephen Breyer, que em março disse apoiar limites à idade dos juízes (e à duração dos seus mandatos, para já vitalícios) – se já existisse uma fasquia, disse, isso tê-lo-ia ajudado a evitar “ter de tomar decisões difíceis” como a que anunciou em 2022, quando se reformou aos 83 anos. Era então o mais velho juiz do painel.

“É altura de falar sobre a idade de Trump”

Depois de um claro foco na idade de Biden, mas não na do rival, é Trump que está agora a ser alvo do tema. Nos últimos dias multiplicaram-se as manchetes nos EUA sobre como é o candidato republicano que agora tem de responder pelos seus 78 anos – e os momentos em que, também ele, tem demonstrado uma perda de capacidades cognitivas. “Com a partida de Biden, Trump deverá enfrentar questões sobre a sua idade e acuidade”, escreve o Guardian. “Agora é Trump quem tem um problema de idade”, adianta a Foreign Policy.

Ainda no mês passado, por exemplo, Trump trocou o nome do seu próprio médico, depois de uma série de gafes ao longo desta campanha, como achar que o atual presidente ainda é Barack Obama ou chamar Nancy Pelosi à então rival Nikki Haley. “Gravações do anúncio presidencial de Trump em 2015 comparadas com vídeos do início deste ano mostram que já não é o homem que foi em tempos”, refere o The Hill num artigo intitulado “É altura de falar sobre a idade de Trump”. “O ex-presidente confunde agora nomes de forma rotineira quando fala de improviso e teve dificuldade em completar as próprias frases durante um comício em Nashville no início deste ano. Como pode o povo americano ter a certeza de que os tropeções de Trump não são parte de um padrão sustentado de declínio cognitivo?”

“Repare que há aqui outro fator, que é o que podemos fazer ao longo da vida para prevenir o declínio cognitivo, e aí seria útil citar a Organização Mundial da Saúde, que, a propósito do envelhecimento e do facto de isso levar a que haja mais pessoas com risco superior de demência ou de defeito cognitivo, propôs em 2019 orientações de proteção da reserva cognitiva”, refere a neurologista Ana Verdelho, invocando diretrizes como a prática de exercício físico, uma boa alimentação e vigiar potenciais problemas como a hipertensão, a diabetes e doenças cardíacas.

As recomendações trazem à memória vários dos tópicos que dominaram o primeiro mandato de Trump, então já um homem de 70 e muitos anos com peso a mais, famoso pela prática exclusiva de golfe e que em banquetes oficiais chegou a pedir hambúrgueres para o jantar.

Como indicava Silver há um mês, “a única salvação de ter tido o debate tão cedo foi dar aos democratas a opção de puxar a alavanca de emergência e insistir com Biden para que desistisse antes da convenção se o debate corresse mesmo mal – as alavancas de emergência existem por um motivo”. Questionado pela CNN Portugal sobre se os democratas vão usar a questão da idade de Trump durante os três meses de campanha que restam, Ron Brownstein não tem dúvidas: “Absolutamente. Agora, essas preocupações podem receber mais oxigénio”.

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