Nos mercados de ações começa a não haver para onde fugir
Em 2024 foi desativada a montanha-russa Kindga Ka, no parque Six Flags Great Adventure, em Nova Jersey, EUA. Kindga Ka atingia os 139 metros de altura e conseguia alcançar os 206 km/h em apenas 3,5 segundos. Foi assim durante 19 anos e espera-se que a nova versão - que entrará em operação em 2026 - venha a bater novos recordes.
Até lá, quem quer viver emoções similares, ou talvez ainda mais radicais, pode sempre recorrer ao mercado de capitais, nomeadamente o mercado americano. Se para mover a Kindga Ka eram precisos uns estonteantes 20.800 cavalos de potência, agora basta um post de não mais do que 100 caracteres para dar início a descidas vertiginosas, subidas alucinantes e a uma série de "loopings" consecutivos.
Esta segunda feira foi o dia do “loop” Jerome Powell, presidente da reserva federal norte americana.
"As minhas recordações dizem-me que sempre que Jerome Powell fala, vou perder dinheiro algures"
Não tenho dados científicos, mas as minhas recordações dizem-me que sempre que Jerome Powell fala, vou perder dinheiro algures. Tem sido assim em quase todas, se não todas, as conferências de imprensa oferecidas pela Reserva Federal, na pessoa do Jerome Powell. Pode não ser culpa do presidente da Fed. Pode ser apenas falta de perspicácia minha no posicionamento pré-anúncios de taxas de juro, mas tem sido absolutamente sintomático.
Donald Trump deixou escapar que a sua equipa estaria a estudar uma forma de destituir Jerome, e os mercados abriram ontem em conformidade, ou seja, em baixa. Não se pode confiar num mercado no qual não podemos confiar. Ou seja, os mercados podem oscilar tal qual uma montanha russa, mas uma coisa é não confiar no estado do mercado, outra coisa é não se confiar o mercado em si.
Só a hipótese de um Presidente poder destituir o presidente da Reserva Federal já é em si suficientemente grave. Quando isso acontece, a meio de um completo turbilhão de acontecimentos com impacto brutal no comércio internacional, é como atirar uma extensão elétrica para dentro de uma banheira cheia de água: Quem lá estiver, e quem lá entrar, vai chamuscar-se.
A política económica do país é definida pelo Presidente dos Estados Unidos. A política monetária é definida pela Reserva Federal, que tem também como missão fazer a supervisão das instituições financeiras, tomar iniciativas para garantir a estabilidade financeira do país, assim como promover a proteção do consumidor.
Não é por acaso que tais instituições são independentes uma da outra em quase todos os países democráticos, já que o desejável é que trabalhem de forma independente e, de certa forma, cooperativa, a fim de manter um elo de ligação entre passado e futuro e impossibilitando que, de um qualquer dos lados, haja excessos que possam condicionar a estabilidade dos países.
Neste momento, há quem pense que este braço de ferro Trump-Powell, motivado por Trump, tem como único intuito a criação de um bode expiatório que possa arcar com as consequências da política de tarifas que a equipa de Trump diz que está a correr bem, mas todos os outros acham que está a correr muitíssimo mal.
Trump alega que as taxas de juro têm que descer imediatamente até porque a inflação está baixa. Powell responde que as tarifas poderão originar aumentos da inflação a curto prazo e que, fruto dessa legítima incógnita, a Reserva Federal vai manter-se a observar a evolução do mercado antes de alterar a sua política monetária.
Na realidade, ambos têm razão. Aqui, trata-se de perceber quem tem um bocadinho mais de razão do que o outro - e sobretudo compreender as razões que levam cada um deles a fazer o oposto do outro.
É um facto que as tarifas, que fazem parte do modelo económico, poderão pressionar a inflação, mas também é um facto de que se a presidência dos EUA está a desenhar uma solução disruptiva, a Reserva Federal deveria, de certa forma, colaborar na abordagem. As taxas de juro sempre foram parte do plano de Trump: baixar o dólar, baixar a inflação, baixar as taxas de juro e baixar os custos com a dívida.
As tarifas não estão a fazer mais do que reorganizar o comércio internacional de uma forma que deixe os EUA de fora. E a venda de títulos de dívida americana e uma falta de confiança generalizada estão a tornar a dívida americana mais cara, ao mesmo tempo que atira com o dólar para o chão, criando uma espécie de uma tarifa cambial às importações americanas."
Certo é que, com o bater de pé chinês, aliado a reações de inúmeros outros países, parece que as tarifas não estão a fazer mais do que reorganizar o comércio internacional de uma forma que deixe os EUA de fora. Em cima disso, a venda de títulos de dívida americana e uma falta de confiança generalizada estão a tornar a dívida americana mais cara, ao mesmo tempo que atira com o dólar para o chão, criando uma espécie de uma tarifa cambial às importações americanas.
Ou seja, Powell também tem razão ao não ceder de forma imediata, pois se Powell é um daqueles que acha que esta política económica está a devastar os Estados Unidos da América, é natural que não queira fazer parte do plano - e é igualmente natural que queira manter alguma capacidade de resposta do seu lado, para o caso do pior vir a ser mesmo o pior.
Uma coisa é certa: nos EUA, parece que as pessoas cada vez menos se entendem, e se já existem riscos enormes quando um país não se entende com mais nenhum outro, pior é quando, em cima disso, as instituições desse país não se entendem entre elas.
Pelo caminho, as bolsas Americanas regressaram do fim de semana prolongado a cair cerca de 2.5% ontem acompanhados por um dólar a desvalorizar mais de 1%. Já hoje, em pré-abertura e já com os mercados Europeus abertos, a pré abertura Americana aponta para uma recuperação das quebras de ontem, mas mantém-se o espírito da montanha-russa mal desenhada em que as descidas são maiores do que as subidas.
O ouro parece mesmo ser o grande refúgio dos investidores. Ontem escalou 3% e hoje leva mais 1,5% de ganhos, acompanhado de muito perto pela bitcoin que também parece estar a ganhar o seu espaço de ativo resiliente. Não parece haver muito por onde fugir destas oscilações abruptas e permanentes.