Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

Trump prepara o regresso da Operação Wetback, um trocadilho de laivos xenófobos - "e uma vergonha"

18 jul 2024, 18:00
Migrantes fronteira México Califórnia EUA polícia patrulha (Gregory Bull/AP)

O crime violento diminuiu nos EUA e os dados provam que não há relação entre imigração e aumento da criminalidade. Mas a imigração é o tema que une todos os republicanos - e é o tema que mais move os eleitores norte-americanos este ano

Tem sido a nota forte da Convenção Nacional Republicana, que decorre esta semana em Milwaukee, Wisconsin: confirmadas as nomeações do candidato presidencial Donald Trump e do seu vice, JD Vance, os conservadores estão focados em passar a ideia de total união partidária e não há nada que os una tanto como isto - a imigração.

Na semana passada, a comissão organizadora divulgou um comunicado no qual referia que “cidades e comunidades americanas em tempos icónicas tornaram-se pesadelos distópicos e vazios graças às políticas ‘woke’ de Joe Biden e dos democratas, das fronteiras abertas e brandas em relação a criminosos”. (Para os organizadores e os participantes da convenção, não importam os dados que demonstram a ausência de ligação direta entre o aumento da imigração e o aumento da criminalidade e que mostram que a taxa de crimes violentos no país tem estado em queda.)

Foi um prelúdio do que viriam a ser os discursos de inúmeros republicanos ao longo da semana, incluindo do parceiro de corrida de Trump. “Temos de deportar os migrantes [sem documentos]”, defendeu JD Vance no arranque da convenção, horas depois de anunciado para a vice-presidência. “Temos de deportar as pessoas que vieram para aqui violar as nossas leis. E o presidente Trump tem sido muito eficaz a comunicar isto, de tal forma que, agora, a maioria dos americanos acredita que temos de deportar um grande número de pessoas que entraram aqui ilegalmente.”

Segundo uma sondagem da Gallup em junho, mais de metade da população quer menos imigração para os EUA, um valor recorde desde 2005. Um outro inquérito da opinião do mesmo instituto, divulgado no final de fevereiro, mostra que é o assunto que mais mobiliza o eleitorado norte-americano este ano, tendo ultrapassado a economia pela primeira vez desde 2019.

Requerentes de asilo nos EUA aguardam num centro de processamento em Tijuana, no México. Enquanto isso, assistem ao primeiro debate presidencial entre Donald Trump e Joe Biden foto Gregory Bull/AP

As palavras de JD Vance, em tempos um feroz crítico de Trump, estão alinhadas com o que sempre foi a retórica política do empresário tornado presidente desde que anunciou a sua primeira candidatura à Casa Branca em 2016, quando classificou todos os mexicanos como “violadores” e “traficantes”. Desde então, durante o seu mandato presidencial (2016-2020) e depois como figura-maior da oposição ao presidente Biden, a postura de “nós contra eles” alastrou-se a todo o partido.

Isso tem ditado o tom dos discursos de figuras proeminentes como o governador da Flórida, Ron DeSantis – que no ano passado aprovou uma reforma da imigração no seu estado, um dia antes de a administração federal anunciar o plano de acabar com a Title 42, uma política da era da pandemia imposta por Trump que veio facilitar a expulsão de imigrantes dos EUA. 

“Estamos a preparar-nos para tempos turbulentos no futuro [e] quando temos um presidente que faz vista grossa à fronteira é muito provável que as coisas piorem”, disse DeSantis em maio de 2023. “Vamos ser honestos: Biden é só um figurante”, declarou na terça-feira num discurso muito aplaudido na convenção.“Biden é um instrumento para impor uma agenda esquerdista ao povo americano, com fronteiras abertas que permitem que milhões e milhões de estrangeiros ilegais entrem no nosso país e sobrecarreguem as nossas comunidades. Agora, Donald Trump está no caminho deles, em defesa da América. Donald Trump tem sido demonizado, processado, julgado e quase perdeu a vida. Não podemos desiludi-lo e não podemos desiludir a América.”

Um "capítulo vergonhoso" da História americana

Desta vez, Trump está ainda mais investido na ideia de que os imigrantes estão a “envenenar o sangue” dos EUA e que outros países estão a “esvaziar as suas celas, prisões e asilos de loucos” para os enviarem para o território norte-americano. E ao pintar esta paisagem promete liderar a “maior deportação em massa da História” do país se for eleito em novembro – ao estilo da iniciativa da administração Eisenhower, batizada Operação Wetback, um trocadilho de laivos xenófobos com uma palavra que tanto pode significar “húmido” como “clandestino”, em referência ao facto de, à data, muitos imigrantes mexicanos terem de atravessar o Rio Grande a nado para entrar nos EUA.

Dwight D. Eisenhower, o 34.º presidente dos EUA (1953-1961), implementou uma política de deportações em massa batizada Operação Wetback, modelo para o programa de combate à imigração que Trump pretende implementar foto AP

Em 2016, o candidato republicano já tinha prometido a mesma operação em massa inspirada na de Dwight Eisenhower em 1954, com o jornalista da CNN Jake Tapper a recordar na altura, numa entrevista com Trump, que muita gente nos Estados Unidos recorda a Wetback como “um capítulo vergonhoso da História americana”. 

Hoje é difícil quantificar quantos trabalhadores indocumentados foram permanentemente removidos do país por Eisenhower. Os registos da época são incompletos e académicos que se debruçaram ao longo dos anos sobre a Operação Wetback dizem ser impossível verificar se o número comunicado há sete décadas pela guarda fronteiriça (então uma força de apenas 1.079 agentes) se confirma: mais de 1,3 milhões de pessoas detidas e expulsas do país. 

“Eles disseram que tinham resolvido toda a questão da população imigrante indocumentada através desta enorme demonstração de força policial”, indicava há alguns anos a historiadora da UCLA e autora do livro “Migra! A History of the U.S. Border Patrol”, Kelly Lytle Hernandez. “O problema é que isto não é, de todo, verdade. O milhão de deportações frequentemente citado é absolutamente inexato e falso. Um grande número de pessoas que foram detidas no verão de 1954 – e antes disso e depois disso – foram detidas várias vezes não apenas num único ano mas num único dia.”

A América de hoje é bem diferente da América de 1954. Mas Trump mantém que a sua grande chaga são os imigrantes e que, enquanto presidente, será capaz de expulsar entre 15 milhões e 20 milhões de pessoas, nem que para isso tenha de desviar fundos do Pentágono. “Parar a invasão na nossa fronteira sul é uma necessidade urgente de segurança nacional e uma das prioridades do presidente Trump”, garantia em novembro à CNN um porta-voz da campanha republicana. “Por esse motivo, apresentou – em discursos e na Agenda 47 – de longe o programa mais pormenorizado para proteger a fronteira, acabar com a imigração ilegal e afastar aqueles que nunca deveriam ter sido autorizados a entrar no nosso país.”

Trump e JD Vance dizem que os EUA precisam da "maior deportação em massa da História" norte-americana foto Carolyn Kaster/AP

A Agenda 47 e o Projeto 2025

Os planos, como delineados na dita Agenda 47 (se for eleito, será o 47.º presidente dos EUA), passam por reunir imigrantes indocumentados e colocá-los em campos de detenção enquanto aguardam deportação, indicam fontes familiarizadas com o programa de Trump – o que obriga à criação de enormes infraestruturas para albergar famílias inteiras e à mobilização das forças de segurança federais e locais para detenções em larga escala por todo o país. As mesmas fontes dizem que Trump pretende pedir ao Congresso que aprove fundos para financiar toda a operação e que, se os legisladores votarem contra, quer redirecionar fundos do Departamento de Defesa para a concretizar.

Trump também promete reavivar políticas que implementou no seu primeiro mandato para restringir quer a imigração clandestina, quer a que é feita por vias legais, incluindo reinstalar e expandir a dita Title 42 – desta vez sob o argumento de que os imigrantes “transmitem doenças infecciosas” – e proibir a entrada de requerentes de asilo oriundos de países de maioria muçulmana. Quer ainda, nas palavras do próprio, “pôr fim a todos os vistos de trabalho para estrangeiros ilegais e exigir ao Congresso que aprove um projeto-lei para proibir todos os subsídios de assistência social a imigrantes ilegais de qualquer tipo”. 

De armas apontadas ao vizinho a sul, com promessas como a de levar a tribunal quaisquer organizações ou grupos de caridade que apoiem quem atravessa a fronteira mexicana, a agenda do candidato envolve ainda uma outra ameaça. “Ao longo da campanha, Trump tem refletido sobre a possibilidade de recorrer às forças armadas norte-americanas para atacar organizações criminosas no México, uma medida que, se for tentada, será quase de certeza desastrosa para as relações entre os EUA e o México”, apontava à CNN Portugal o analista Henry Ziemer por altura das presidenciais mexicanas, em junho.

Na linha da frente com a fronteira mexicana está o estado do Texas, cujo governador, o republicano Greg Abbott, está desde 2022 a enviar migrantes para as chamadas cidades-santuário – onde o estatuto de cada cidadão imigrante só é avaliado caso seja suspeito de um crime grave – de estados do norte, como Nova Iorque e o Illinois, uma política que já custou aos contribuintes texanos mais de 135 milhões de euros.

O governador do Texas, Greg Abbott, promete continuar a enviar migrantes para cidades-santuário "até finalmente termos segurança na fronteira" foto AP

“Quando Joe Biden e [a vice-presidente] Kamala Harris se recusaram a vir ao Texas ver a crise da fronteira, levei a fronteira até eles”, congratulou-se Abbott num discurso muito aplaudido na convenção desta semana. “Continuamos a meter os migrantes em autocarros rumo a cidades-santuário por todo o país e esses autocarros vão continuar a rolar até finalmente termos segurança na fronteira.”

Menos focado em imigração foi o discurso de JD Vance na quarta-feira à noite, quando aceitou a nomeação para ser vice-presidente de Trump. Mas numa das referências à questão, depois de invocar os sogros indianos, disse que, “quando permitimos a entrada de recém-chegados na família americana, fazemo-lo sob os nossos termos e não sob os deles”. Não precisava de dizer muito mais, até porque há alguns meses já tinha deixado bem claro que aquilo de que os EUA precisam é do “muro na fronteira” e de “deportações em massa”. Porquê? Porque a existência de trabalhadores migrantes “reduz os salários dos trabalhadores americanos”.

Assim que o seu discurso terminou em Milwaukee, a campanha de Biden divulgou um comunicado a classificar o parceiro de corrida de Trump como “o rapaz-propaganda do Projeto 2025”, programa ultraconservador delineado pela Fundação Heritage, tido por muitos como o roteiro da próxima presidência Trump. “Apoiado por Silicon Valley e pelos bilionários que compraram a sua seleção para a vice-presidência, Vance é o Projeto 2025 em forma humana”, disse a equipa do presidente democrata – “uma agenda que põe o extremismo e os super-ricos acima da nossa democracia.”

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

E.U.A.

Mais E.U.A.