"JD! JD! JD!", gritaram os filhos de Donald Trump quando sugeriram ao pai que escolhesse JD Vance para candidato a vice-presidente. E foi isso que aconteceu. Mas antes de tudo isto, JD Vance foi um crítico feroz de Trump e até admitiu "tapar o nariz" e votar Hillary. Entretanto Trump e Vance tornaram-se amigos ao ponto de Trump elogiar aspetos como a barba do agora candidato a vice
Eufemismo: JD Vance nem sempre teve a melhor opinião de Donald Trump. Quando o magnata do imobiliário anunciou a sua (primeira) candidatura à Casa Branca, em 2015, o agora senador pelo Ohio chegou a classificar o aspirante republicano à presidência como um “idiota” e um “Hitler americano”, descrevendo-se como “um gajo ‘nunca-Trump’”.
“Meu deus, que idiota”, escreveu num dos vários tweets que acabaria por apagar, quando a relação entre ambos começou a florescer. Isso aconteceu graças a “Hillbilly Elegy”, numa tradução livre "Elegia aos Pacóvios", um livro de memórias que o republicano de 39 anos lançou em 2016, meio ano antes de Trump vencer as presidenciais. Mas já lá vamos.
No sábado passado, quando um jovem de 20 anos tentou matar Trump durante um comício na Pensilvânia, Vance foi rápido a apontar o dedo à retórica de campanha de Joe Biden, a qual, na opinião de Vance, “conduziu diretamente à tentativa de assassínio do presidente Trump” – “a premissa central da campanha de Biden é que o presidente Donald Trump é um fascista autoritário que tem de ser travado a todo o custo”, referiu o agora candidato a vice-presidente como prova da culpa dos democratas.
Os democratas foram igualmente rápidos a recordar as várias mensagens e publicações de Vance ao longo dos anos, incluindo uma mensagem que enviou a um antigo colega da Faculdade de Direito da Universidade de Yale, o agora senador democrata pela Georgia Josh McLaurin, na qual se referia a Trump como “um imbecil igual a Nixon”. Numa resposta direta a Vance, Eric Swalwell, representante democrata da Califórnia, recuperou algumas das mensagens menos abonatórias do agora candidato a vice, escrevendo na rede social X: “Chamou a Trump ‘Hitler americano’ – é melhor voltar para a mesa das crianças”.
"JD! JD! JD!"
Num prelúdio do seu “Hillbilly Elegy”, em abril de 2016, Vance assinou um artigo de opinião no New York Times intitulado “Porque é que a mensagem antiguerra de Trump ressoa junto da América branca”, no qual não escondia a sua reprovação ao empresário: “O sr. Trump é inapto para o mais alto cargo da nossa nação.”
Meses depois, pouco antes das eleições de novembro desse ano, anunciou mesmo que ia votar em Evan McMullin, ex-agente da CIA que se candidatou como independente. E numa entrevista com a NPR logo a seguir, declarou assim: “Não aguento o Trump. Considero-o nocivo e acho que vai conduzir a classe trabalhadora branca para um lugar muito sombrio”. Questionado sobre se ponderava votar em Hillary Clinton, à data rival democrata de Trump na corrida à Casa Branca, para evitar a vitória do republicano, Vance não excluiu a hipótese. “Penso que não é de descartar, se sentir que Trump tem mesmo hipóteses de ganhar, que possa tapar o nariz para votar em Hillary Clinton.”
Não é certo em quem votou há oito anos. O que se sabe é que a postura de JD Vance em relação a Trump mudou radicalmente após a eleição do empresário. Segundo a Associated Press, o livro de memórias que o lançou para o estrelato político e que o levou numa tour publicitária pelos EUA, durante a qual teceu várias destas críticas a Trump, é o mesmo livro que o aproximou da família do magnata. Donald Trump Jr. gostou tanto de ler sobre a América rural branca que apoiava o seu pai, incluindo sobre o subúrbio de Middletown, no Ohio, onde o senador nasceu e cresceu, que contactou o autor para travar amizade – uma que dura até hoje.
Como relata a NBC News, Trump Jr. foi decisivo para a escolha de JD Vance como candidato a vice-presidente. “Com o relógio a dar tique taque a uma semana da Convenção Nacional Republicana, Donald Trump teve um encontro privado com dois dos seus conselheiros mais próximos para discutir a escolha do seu parceiro de corrida: os seus filhos”, escreve o canal num artigo publicado esta terça-feira. “A conversa ficou rapidamente tensa quando o ex-presidente disse que estava a pender para Doug Burgum – até há pouco tempo o desconhecido governador da Dakota do Norte, cuja personalidade de baixa manutenção e sem dramas nunca ameaçaria ofuscar Trump. Foi aí que Donald Trump Jr. e Eric Trump se meteram na conversa.”
Uma fonte republicana diz que Don Jr. e Eric “enlouqueceram completamente” ao ouvir a sugestão do pai. “Porque é que farias algo assim tão estúpido? Ele não tem nada para nos oferecer!” Os dois irmãos sugeriram uma alternativa ao estilo de cheerleaders, repetindo “JD! JD! JD!”, relata a mesma fonte. A sugestão foi confirmada esta segunda-feira, no primeiro dia da Convenção Republicana que viu Trump conquistar o aval do partido para se candidatar à Casa Branca – tendo JD Vance como seu parceiro. “Trump ligou a Vance com a notícia 20 minutos antes de fazer o anúncio nas redes sociais”, escreve a NBC. “E ao escolher Vance, Trump fez um cálculo diferente do de 2016, encostando-se totalmente à sua base MAGA [Make America Great Again].”
Como escrevia a "Economist" na segunda-feira, no rescaldo da nomeação, "JD Vance é agora o herdeiro aparente do movimento MAGA". E no antetítulo: "Energia pacóvia".
"Estou-me nas tintas para o que acontece na Ucrânia"
Militar do Corpo de Marines e veterano de guerra no Iraque, Vance já tinha contado com o apoio formal de Donald Trump quando se candidatou pela primeira vez ao Senado, em 2021, tendo sido eleito pelo Ohio nas intercalares do ano seguinte. Antes disso, e após ter lançado o seu livro de memórias, tornou-se presença assídua em jantares organizados pelo Partido Republicano no estado-natal, onde fundou uma organização de caridade de apoio a vítimas da crise dos opióides, conquistando simpatias com a história da sua dura infância com uma mãe toxicodependente.
Segundo a AP, a relação de Trump com Vance foi-se aprofundando ao longo dos últimos três anos. Após ter conquistado um assento no Senado, as chamadas telefónicas entre ambos tornaram-se regulares. E “Trump também elogiou a barba de Vance, dizendo que o fazia ‘parecer um jovem Abraham Lincoln’.”
Casado com a advogada Usha Chilukuri Vance, a ascendência indiana da mulher foi um dos motores das anteriores críticas do republicano à “retórica racista” do presidente. Mas essas críticas acabaram por dar lugar a elogios ao primeiro mandato de Trump, com os dois a desvalorizarem o que foi dito no passado.
Para os democratas, JD Vance é um extremista que, durante a sua candidatura ao Senado, apoiou, entre outras, a ideia de uma proibição federal do aborto até às 15 semanas (uma postura que parece ter suavizado depois de, no ano passado, uma maioria esmagadora dos eleitores do seu estado ter apoiado uma emenda constitucional para proteger o direito das mulheres à intervenção voluntária da gravidez).
Coqueluche da Fundação Heritage, responsável por redigir o famigerado Projeto 2025 - que estabelece as bases do que muitos dizem que será a presidência Trump 2.0 caso vença em novembro -, Vance é descrito pelo presidente da organização conservadora como um farol da "cultura americana em geral" e “uma voz de liderança” do movimento em questões-chave como o extremo liberalismo económico e o fim da política intervencionista dos EUA no resto do mundo. "Penso que é ridículo estarmos focados na fronteira da Ucrânia", disse Vance em entrevista a Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump, depois de ter votado contra um pacote de apoio a Kiev no Congresso. "Tenho de ser honesto contigo: estou-me nas tintas para o que acontece na Ucrânia."
Outra visão de política externa: a de que o Reino Unido é "o primeiro país islamita na posse de armas nucleares". A afirmação é mais recente, remonta à semana passada, quando durante uma conferência do Conservadorismo Nacional, em Washington DC, no rescaldo da vitória de Keir Starmer, teve isto a dizer: "Estava a falar com um amigo recentemente, sobre como um dos grandes riscos para o mundo é, claro, a proliferação nuclear, e claro que a administração Biden não quer saber disso. E estava a dizer: 'qual é o primeiro país verdadeiramente islamita que vai ter uma arma nuclear?' E estávamos a dizer 'talvez o Irão, talvez o Paquistão, que de certa forma já conta' e depois finalmente acabámos por decidir que na verdade é talvez o Reino Unido, já que os trabalhistas acabaram de ganhar."
"Roubaram a eleição a Trump"
Em mais uma nota de aproximação a Trump, Vance disse que, se fosse vice-presidente em 2020, nunca teria certificado os resultados das eleições que deram a vitória ao democrata Joe Biden e que, na sua opinião, levaram o derrotado a “fazer uma queixa muito legítima” – a mesma que levou milhares de apoiantes de Trump a invadir o Congresso norte-americano a 6 de janeiro de 2021. Nas suas palavras: “A eleição foi roubada a Trump”.
Se antes das eleições de 2016 Trump dava sobretudo ouvidos a Ivanka e Jared Kushner, a sua filha e o seu genro, mais inclinados para o status quo político, pende agora para os dois filhos, confessos apoiantes e incitadores do movimento MAGA – e a escolha para a vice-presidência prova-o. “Desta vez, em vez de optar por um tradicional republicano de longa data como Mike Pence, Trump escolheu o guerrilheiro MAGA Vance”, escreve a NBC.
Pessoas familiarizadas com o processo de escolha de JD Vance citadas pela AP dizem que o jovem senador de 39 anos traz para a candidatura republicana “dotes de debate e a capacidade de articular a visão de Trump”. À agência, Charlie Kirk, fundador do grupo de ativistas conservadores Turning Point USA, diz que Vance articula de uma forma convincente a visão América Primeiro e pode ajudar Trump a conquistar estados que perdeu por uma unha negra em 2020, como o Michigan e o Wisconsin, que partilham dos valores e da demografia do seu Ohio-natal.
Sob crescente pressão para desistir na sequência de uma série de gafes que ameaçam a hipótese de vir a derrotar Trump, Biden põe a coisa noutros termos. Ao saber da nomeação de Vance como parceiro de corrida do rival, e antes de embarcar rumo ao Nevada para uma série de eventos de campanha nos próximos dias, o presidente democrata disse simplesmente: “É um clone de Trump”.