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“Tenho de ser honesto contigo, Steve, estou-me nas tintas para o que acontece na Ucrânia”

17 jul 2024, 18:00
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Trump, JD Vance e o “fim dos cheques em branco” dos EUA ao mundo

Vai ser o primeiro discurso oficial de JD Vance enquanto número dois do candidato Donald Trump e, face ao temor (da maioria) dos governos europeus, deverá focar-se em questões de política externa. Esta quarta-feira, o jovem senador republicano do Ohio, de 39 anos, é o cabeça de cartaz do terceiro dia da Convenção Nacional Republicana (NRC), a decorrer em Milwaukee e onde, no início da semana, o ex-presidente foi oficialmente confirmado como o candidato do partido à Casa Branca nas eleições de novembro.

“Os políticos e diplomatas europeus já estavam preparados para alterações na sua relação com os EUA caso Donald Trump conquiste um segundo mandato”, aponta a BBC. “Agora que o candidato republicano escolheu o senador JD Vance como seu parceiro de corrida, essas mudanças parecem vir a ser ainda mais acentuadas no que toca à guerra na Ucrânia e a questões de segurança e trocas comerciais.” Acrescenta a CNN internacional: “A sua nomeação vem pôr fim às esperanças de alguns aliados da América de que Trump pudesse suavizar a sua postura de política externa caso seja reeleito”.

Há razões para preocupação. Quando, a 24 de abril, o Congresso finalmente aprovou à justa um pacote de ajuda à Ucrânia de quase 55 mil milhões de euros, JD Vance não poupou críticas ao escancarar da carteira norte-americana para justificar o seu voto contra. Apesar de não ter conseguido o chumbo que pretendia, garantiu aos jornalistas que “ficou claro para a Europa e para o resto do mundo que a América não pode continuar a passar cheques em branco por tempo indefinido”. 

Mais tarde, no podcast de Steve Bannon, disse considerar “ridículo” o facto de os EUA estarem focados na fronteira da Ucrânia com a Rússia. “Tenho de ser honesto contigo”, disse Vance ao ex-conselheiro e estratego no primeiro mandato de Trump: “Estou-me nas tintas para o que acontece na Ucrânia.”

Meses antes, em meados de fevereiro, Vance tinha marcado presença na Conferência de Segurança de Munique para avisar que a Europa deve “acordar” e preparar-se para o facto de os EUA terem de “virar a sua atenção” para o Sudeste Asiático (ecoando as sucessivas ameaças de Trump, como vir a fazer Taiwan "pagar pela proteção" dos americanos). E acrescentou: “O cobertor de segurança da América tem levado a uma atrofia da segurança europeia.”

Também rejeitou um convite para se encontrar com o presidente e o MNE da Ucrânia à margem dessa conferência. “Achei que não ia aprender nada de novo”, justificou ao Politico. Assim que o seu nome foi anunciado por Trump esta semana, um diplomata europeu disse sob anonimato ao mesmo site: “A nomeação de Vance é um desastre para a Ucrânia e para a União Europeia”.

Em fevereiro, JD Vance recusou reunir-se com o presidente ucraniano (na foto) porque achou que "não ia aprender nada de novo" foto AP

O “fim do consenso republicano desde Reagan”

O grande apoiante da dupla Trump-Vance na UE é Viktor Orbán, o primeiro-ministro da Hungria cujo périplo mundial tem causado nervosismo entre os parceiros do bloco, sobretudo após encontros com Vladimir Putin em Moscovo, com o regime chinês em Pequim e, claro, com Donald Trump nos EUA. 

“Ele tem planos detalhados e bem fundamentados para negociações de paz entre Rússia e Ucrânia”, garante Orbán numa carta enviada aos líderes dos outros 26 Estados-membros esta semana, noticiada um dia depois de o diretor político do governo húngaro ter dito isto: “O plano [de paz] de Orbán já está nas secretárias de todos os primeiros-ministros da UE. A nossa abordagem baseia-se numa avaliação realista da situação, em objetivos realistas e num calendário apropriado”.

Questionado sobre os riscos de uma presidência Trump para o seu país, Volodymyr Zelensky diz não ter “medo de que ele se torne presidente” e assegura que vão “trabalhar em conjunto” e que acredita que grande parte do Partido Republicano apoia a Ucrânia e o seu povo. 

O tom otimista pode ter como motor o facto de Zelensky e Trump manterem ambos uma relação próxima com Boris Johnson, antigo primeiro-ministro britânico que, de forma consistente, tem apoiado Kiev e defendido o reforço do apoio financeiro e militar aos ucranianos.“Não tenho dúvidas de que ele será forte e decisivo no apoio ao país e na defesa da democracia”, escreveu Johnson na rede social X após um encontro com Trump à margem da Convenção Republicana desta semana. 

Contudo, como referem os analistas, ao escolher Vance “Trump reforçou a mão das forças isolacionistas que estão ansiosas por desfazer o consenso beligerante do Partido Republicano que tem perdurado desde a era de Ronald Reagan”. E o otimismo de Boris Johnson até pode ser real, refere a BBC, mas “pode não se aplicar a Vance”, que também já defendeu publicamente que a solução de paz tem de passar por “concessões da parte da Ucrânia”.

Donald Trump encontrou-se com Viktor Orbán. O húngaro diz que o candidato à presidência dos EUA tem "planos bem fundamentados" para sentar Putin e Zelensky à mesa foto Zoltan Fischer/EPA

“Temos de tentar convencê-lo [a apoiar-nos]”, diz ao canal britânico Yevhen Mahda, diretor-executivo do Instituto de Política Mundial, sediado na capital ucraniana. “Um facto a que podemos recorrer é que Vance combateu na guerra do Iraque, pelo que deve ser convidado a visitar a Ucrânia para ver com os próprios olhos o que está a acontecer e como o dinheiro americano está a ser investido.”

O outro foco da convenção republicana deve ser a guerra de Israel na Faixa de Gaza, com o comité organizador a sublinhar num comunicado prévio que, “sob Joe Biden, o mais fraco comandante supremo da história do nosso país, a América tornou-se motivo de chacota a nível mundial”. 

“Posso dizer-vos que os países de todo o mundo, os seus líderes, estão absolutamente desconfortáveis com a imprevisibilidade de Donald Trump”, dizia no arranque da convenção Richard Grenell, ex-embaixador dos EUA na Alemanha nomeado por Trump. “E quando digo que estão desconfortáveis, isso significa que não sabem exatamente o que ele vai fazer a seguir. E isso é positivo para nós.”

Positivo para os isolacionistas da América, fonte de ansiedade para a Europa e o Ocidente. Vai Trump cumprir a promessa de sair da NATO, por exemplo? É procurar as respostas no currículo de JD Vance, que recentemente se referiu às contribuições dos EUA para a aliança como “uma taxa implícita cobrada ao povo americano pela segurança da Europa”.

Comércio mundial? “Temos de ser muito mais agressivos”

JD Vance, para Biden "um clone de Trump", é um isolacionista em termos políticos e económicos foto Jeff Dean/AP

O mote desta terça-feira na convenção é “Tornar a América forte outra vez” e, assim que Vance for apresentado à plateia por Donald Trump Jr., filho do candidato presidencial e grande responsável pela escolha do senador, as armas da retórica política vão estar viradas para o presidente Biden e a sua agenda de política externa nos últimos quatro anos.

Os ataques ao rival democrata, aliás, já começaram quando Nikki Haley, até há alguns meses arqui-inimiga de Trump na disputa pela nomeação republicana, declarou aos presentes: “Quando Donald Trump era presidente, Putin não fez nada. Zero invasões. Zero guerras. Nenhum acidente. Putin não atacou a Ucrânia porque sabia que Donald Trump era duro. Um presidente forte não dá início a guerras, um presidente forte evita guerras.”

Um “presidente forte” também “põe a América em primeiro lugar”, outro slogan do movimento conservador que tem em Trump – e agora em JD Vance – os seus grandes líderes. E isto pode traduzir-se numa guerra comercial com a UE, numa altura em que a UE se encontra fraturada e enfraquecida. (Na Alemanha, um Scholz com pouco carisma pode ser expulso nas urnas no próximo ano, em França Macron está a braços com uma crise política ainda sem fim à vista e na Polónia o presidente, Andrzej Duda, avisava esta semana para os riscos de a Ucrânia perder a guerra – “Aí a potencial guerra da Rússia com o Ocidente ficará extremamente iminente, este voraz monstro russo vai querer atacar-nos e atacar-nos.”)

Os analistas acreditam que a escolha de JD Vance vai ajudar Trump a conquistar estados do Midwest, onde perdeu por pouca diferença de votos em 2020 foto Charles Rex Arbogast/AP

É de esperar que Trump e Vance defendam uma “viragem económica para dentro” e mais pressão sobre a China se forem eleitos em novembro – “mais uma dor de cabeça para Bruxelas numa altura em que a UE está a tentar reparar as relações comerciais anteriormente prejudicadas com Washington”, refere o Politico. 

“Vão assistir a uma abordagem muito mais agressiva para proteger as indústrias domésticas”, assegurava Vance na primavera sobre a possibilidade de Trump ser eleito. “Acho seguramente que temos de ser muito mais agressivos a aplicar tarifas a uma série de indústrias [estrangeiras].”

Foi isso que Trump fez durante o seu primeiro mandato, quando impôs taxas sobre as importações de aço e alumínio fabricados na Europa, e é isso que promete fazer agora para “proteger a indústria norte-americana”. Esta terá sido, aliás, uma das mais fortes razões para escolher ter JD Vance ao seu lado. 

No anúncio, Trump recorreu à sua Truth Social para sublinhar: “O JD tem tido uma carreira empresarial de sucesso em tecnologia e finanças e agora, durante a campanha, vai estar fortemente orientado para as pessoas pelas quais lutou tão brilhantemente - os trabalhadores e agricultores americanos da Pensilvânia, do Michigan, do Wisconsin, do Ohio, do Minnesota e muito mais além”.

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