De "Adoro a inflação" a "Não penso na situação financeira dos americanos": as frases mais controversas de Trump
Na manhã de terça-feira, o presidente Donald Trump respondeu ao abate de um helicóptero Apache do Exército dos EUA pelo Irão durante o cessar-fogo, dizendo ao Wall Street Journal que “não foi nada de especial”. Cerca de 24 horas depois, reagiu ao facto de a inflação ter ultrapassado os 4% pela primeira vez em três anos, afirmando: “Adoro a inflação”.
Esta combinação de comentários levianos exemplifica a abordagem cada vez mais insensível de Trump às preocupações dos americanos sobre a guerra com o Irão e a economia.
Repetidamente, nos últimos meses, Trump respondeu às crescentes preocupações dos americanos não com empatia, mas fingindo que o seu sofrimento não existia — ou que era, na verdade, algo positivo.
E já tem uma lista notável de comentários desastrados.
Seguem-se alguns dos exemplos mais marcantes, classificados de acordo com o grau de insensibilidade e o potencial impacto político negativo para o partido de Trump antes das eleições intercalares de novembro.
9. Os seus comentários sobre as mortes de militares
Trump tem frequentemente dificuldades em falar com tato sobre os sacrifícios das tropas americanas, e isso continua a verificar-se agora que foi ele próprio quem as enviou para a guerra.
Depois de serem reportadas as três primeiras mortes na guerra com o Irão, Trump pareceu imediatamente enquadrá-las numa análise de custo-benefício.
“Temos três, mas esperamos baixas”, disse Trump à NBC News. “Mas, no final, será um grande negócio para o mundo.”
Num vídeo posterior, Trump pareceu improvisar ao falar das mortes, afirmando: “É assim que as coisas são”, e prevendo que haveria mais vítimas.
Os democratas criticaram rapidamente estas declarações.
8. Dizer que a subida dos preços do petróleo é, de certa forma, uma boa notícia
Trump sugeriu ocasionalmente que o aumento dos preços do petróleo é, na verdade, positivo, porque os EUA estão a produzir mais petróleo.
“Os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo, por isso, quando os preços do petróleo sobem, ganhamos muito dinheiro”, escreveu Trump nas redes sociais em março.
Naturalmente, algumas pessoas beneficiam disso. Mas a esmagadora maioria dos americanos não trabalha na indústria petrolífera e, por isso, o aumento dos preços representa um encargo.
7. Os estranhos comentários sobre bonecas e lápis
No ano passado, Trump sugeriu repetidamente que os americanos confrontados com a subida dos preços, em parte devido às tarifas, poderiam simplesmente comprar menos bonecas e/ou lápis para os seus filhos.
“Talvez as crianças tenham duas bonecas em vez de 30 bonecas, sabem”, disse em abril de 2025.
Mais tarde, apresentou um argumento semelhante sobre os lápis.
“Sabem, podem abdicar de certos produtos”, afirmou. “Podem abdicar de lápis, porque, ao abrigo da política em relação à China, todas as crianças podem receber 37 lápis. Só precisam de um ou dois.”
6. Dizer aos ricos em Davos que lhes estava a dar a ganhar muito dinheiro
O movimento político populista de Trump deveria centrar-se em ajudar a classe trabalhadora e enfrentar os interesses instalados, os grandes magnatas e a elite global que se reúne anualmente numa conferência económica em Davos, na Suíça.
Mas, em janeiro, em Davos, num momento de dificuldades económicas significativas nos Estados Unidos, Trump vangloriou-se de que as suas políticas estavam a enriquecer os presentes.
“Já nem pergunto a ninguém como é que está”, disse Trump a um grupo de diretores executivos. “É como se toda a gente estivesse a ganhar muito dinheiro.”
“Criámos uma plataforma onde podem realmente pôr o vosso génio a trabalhar”, acrescentou.
Trump contou ainda histórias sobre pessoas que faziam compras supérfluas graças à riqueza recém-adquirida.
5. Minimizar os ataques iranianos contra forças americanas durante o cessar-fogo
Acredite-se ou não, o incidente com o helicóptero Apache não foi a única vez que Trump desvalorizou, pelo menos em termos retóricos, ações militares do Irão durante o alegado cessar-fogo.
Depois de o Irão ter visado bases norte-americanas no Kuwait e no Bahrein, bem como o aeroporto do Kuwait, na semana passada, Trump classificou o episódio como “nada de especial” e descartou-o como uma retaliação legítima.
(Trump tem frequentemente minimizado potenciais violações iranianas do cessar-fogo, aparentemente na esperança de manter a trégua e alcançar um acordo, embora os EUA tenham atacado o Irão na terça-feira e ele tenha prometido novos ataques.)
4. Os aumentos dos preços dos combustíveis são "uma ninharia"
No mês passado, Trump desvalorizou o aumento dos preços dos combustíveis, classificando-o como “uma ninharia”.
“Isto é uma ninharia”, disse Trump aos jornalistas. “Agradeço a todos por aguentarem isto durante mais algum tempo. Não vai durar muito mais.”
Uma sondagem recente da Reuters/Ipsos revelou que quase dois terços dos americanos afirmaram que o aumento dos preços dos combustíveis afetou as finanças dos seus agregados familiares pelo menos “de alguma forma”.
3. O custo de vida é uma "farsa" ou um "esquema"
Especialmente no ano passado, Trump descreveu repetidamente a questão da acessibilidade económica como uma “farsa” ou um “esquema”.
“É uma vigarice”, disse Trump numa ocasião. “Acho que a acessibilidade económica é a maior vigarice.”
Muitas vezes era difícil perceber exatamente o que queria dizer, mas parecia sugerir que os democratas estavam a exagerar o problema. As sondagens mostram, contudo, que os americanos acreditam esmagadoramente que o custo de vida é um problema — e que Trump tem negligenciado essa questão.
Trump também sugeriu, por vezes, que a acessibilidade económica era um conceito recém-criado ou que nunca tinha ouvido a expressão antes. Isto apesar de ter feito campanha, em 2024, prometendo tornar os bens e serviços mais acessíveis.
Tudo isto traça o retrato de um presidente que não leva o problema a sério. E as sondagens indicam que entre dois terços e três quartos dos americanos partilham dessa perceção.
2. "Adoro a inflação"
Pode apostar que este novo comentário de Trump receberá grande atenção à medida que se aproximam as eleições intercalares de 2026.
Questionado na quarta-feira sobre a inflação mais elevada dos últimos três anos — impulsionada pelo aumento dos custos energéticos devido à guerra com o Irão — Trump respondeu que “os números foram excelentes”.
“Adoro”, disse sobre os novos dados. “Adoro a inflação.”
Trump poderá argumentar que não estava a dizer que a inflação em si é positiva. Parecia antes sustentar que os dados eram, de alguma forma, favoráveis. Defendeu ainda que a inflação cairia rapidamente quando a guerra terminasse.
Mas foi um argumento pouco coerente — e que resultou numa frase amplamente vista como desdenhosa. Poderia ter defendido que a inflação era temporária, mas praticamente ninguém diria que uma inflação de 4,2% é algo positivo ou algo que “adora”.
1. "Não penso na situação financeira dos americanos"
Este comentário continua no topo da lista, pela sua frontalidade e porque ilustra diretamente o afastamento de Trump do seu antigo discurso populista.
No mês passado, Trump foi questionado sobre até que ponto as preocupações dos americanos com o impacto económico da guerra com o Irão influenciavam os seus esforços para alcançar um acordo de paz.
Respondeu que não o influenciavam “nem um pouco”.
“A única coisa que importa quando falo sobre o Irão é que eles não podem ter uma arma nuclear”, disse Trump. “Não penso na situação financeira dos americanos. Não penso em ninguém. Penso numa única coisa: não podemos permitir que o Irão tenha uma arma nuclear. É só isso.”
Pode argumentar-se que esta é a postura negocial correta perante o Irão, pelo menos para alcançar um acordo — que demonstrar falta de determinação enfraquece a capacidade de negociação.
Mas a forma como Trump o disse foi brutal.
