As perguntas que Trump tem de fazer antes de atacar o Irão

CNN , Análise de Stephen Collinson
14 jan, 10:44
Donald Trump, presidente dos EUA, na Casa Branca a 12 de janeiro. EPA/SHAWN THEW / POOL

A audaciosa operação das forças especiais na Venezuela, que depôs Maduro, dificilmente poderá ser repetida no Irão, onde os riscos de infiltrar militares norte-americanos numa operação de decapitação do regime parecem proibitivos

O presidente Donald Trump parece estar a convencer-se a si próprio a entrar num novo e decisivo capítulo do amargo confronto dos Estados Unidos com a República Islâmica do Irão.

A justificação para ataques militares norte-americanos com o objetivo de ajudar os manifestantes iranianos, num momento de crise para o regime teocrático, torna-se a cada hora mais urgente e mais convincente.

Trump continua a criar novas linhas vermelhas depois de os líderes iranianos terem desafiado o seu aviso anterior de que, se começassem a disparar, ele também o faria. O presidente alertou, numa entrevista à CBS News, na terça-feira, que se o Irão avançasse com a execução de manifestantes, como estava previsto, tomaria “medidas fortes”. Isto não implica automaticamente uma resposta militar dos EUA. Mas quaisquer operações de combate que pareçam meramente simbólicas podem minar a sua autoridade para dissuadir Teerão no futuro.

“O presidente disse ao povo iraniano que a ajuda está a caminho. E, por isso, penso que cabe ao presidente tomar alguma ação”, afirmou Leon Panetta à CNN News Central, na terça-feira. O antigo secretário da Defesa e diretor da CIA não especificou a necessidade de um ataque militar em grande escala. Mas acrescentou: “Acho que a credibilidade dos Estados Unidos, neste momento, exige que o país faça alguma coisa para mostrar apoio aos manifestantes.”

O argumento humanitário para uma intervenção também está a ganhar força. Um apagão da internet continua a ocultar a verdadeira dimensão de uma repressão autoritária. Mas as imagens que começam a surgir sugerem um cenário de carnificina. Estima-se que cerca de 2.400 pessoas tenham morrido. Se o regime sobreviver, muitos irão questionar-se sobre o papel de potências externas que assistiram de braços cruzados.

Os avisos repetidos de Trump podem também ter elevado as expectativas entre manifestantes que arriscam a vida nas ruas. Um presidente que recentemente afirmou que o único limite ao seu poder no estrangeiro era a sua “moralidade” poderá sentir uma obrigação moral de agir.

“Contei hoje que, em sete ocasiões nas últimas duas semanas, o presidente Trump ameaçou tomar medidas militares contra o Irão se este matasse manifestantes pacíficos”, disse Karim Sadjadpour, um dos mais proeminentes especialistas em Irão radicados nos EUA, à CNN, em declarações a Erin Burnett. “Isso foi há mais de 2.000 mortes… Acho que muitos levaram as suas palavras a sério e esperam, no mínimo, um escudo americano que os ajude a protegê-los deste regime extremamente brutal”, acrescentou Sadjadpour, do Carnegie Endowment for International Peace.

Manifestantes durante protesto em Teerão, 9 de janeiro de 2026 (MAHSA/Middle East Images/AFP/Getty Images)

Uma oportunidade para pôr fim a um regime repressivo

Existem razões estratégicas tentadoras para Trump querer empurrar a História numa nova direção.

  • A ditadura clerical iraniana raramente esteve tão fraca, interna e externamente. A grave crise económica dificulta até a tarefa básica de alimentar a população. O desespero é uma poderosa força mobilizadora para os protestos.

  • O líder supremo, o aiatola Ali Khamenei, tem 86 anos, e está em curso um processo de sucessão potencialmente desestabilizador, à margem da atual vaga de contestação, que abre a possibilidade de um novo amanhecer político.

  • Um número significativo de líderes de topo do Irão, bem como responsáveis militares e dos serviços de informações, foi eliminado durante a guerra de 12 dias entre Israel e o Irão, no ano passado.

  • E uma guerra em várias frentes, na sequência dos ataques do Hamas a Israel, a 7 de outubro de 2023, enfraqueceu a influência regional do Irão e a sua capacidade de retaliar contra Israel ou bases norte-americanas na região, em resposta a uma ação militar dos EUA.

Então porque não haveria os Estados Unidos de aproveitar a oportunidade para derrubar um regime responsável pela morte de milhares de americanos — incluindo no atentado à embaixada dos EUA em Beirute, em 1983, levado a cabo por aliados do Irão — e por milícias que durante anos atacaram tropas norte-americanas no Iraque?

Um Médio Oriente livre da influência desestabilizadora do regime islâmico tornaria Israel mais seguro e promoveria a visão de Trump de uma região rica, pacífica e integrada, que apresentou no ano passado na Arábia Saudita.

Um presidente que se orgulha da audácia e de ignorar os limites impostos por antecessores deve sentir-se fortemente tentado a avançar.

Até porque Trump está numa fase vitoriosa e parece cada vez mais inclinado para a ação. Vem de uma ousada operação militar dos EUA que retirou o ditador venezuelano Nicolás Maduro da sua cama, sem mortes em combate do lado americano. E gosta de recordar o ataque furtivo, à escala global, que causou danos severos às instalações nucleares iranianas no ano passado.

Trump também ouve os elogios dos seus aliados mais belicistas. “Este é o momento Ronald Reagan de Trump, elevado à potência máxima”, escreveu o senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, na rede social X. “(O Irão) será o seu momento Muro de Berlim, multiplicado por mil.”

Não será tão fácil como na Venezuela

Trump reuniu-se com os principais responsáveis de segurança nacional da administração na terça-feira, depois de uma viagem ao Michigan. Questionado sobre o que faria em relação ao Irão, o presidente, com um boné branco com a inscrição “USA”, manteve o mistério. “Não posso dizer-lhe isso. Sei exatamente o que faria.”

Mas, mais cedo ou mais tarde, as ameaças presidenciais têm de ser sustentadas pelo uso da força, se quiserem manter qualquer credibilidade dissuasora. Muitos antigos responsáveis e diplomatas estrangeiros concluíram que a decisão do presidente Barack Obama de não fazer cumprir a sua linha vermelha contra o uso de armas químicas pela Síria, em 2013, encorajou adversários dos EUA, incluindo a Rússia, na sua agressão na Ucrânia e na própria Síria.

Ainda assim, a História está cheia de maus presságios.

As justificações para intervenções militares norte-americanas, do Vietname ao Iraque, do Afeganistão à Líbia, muitas vezes pareceram sólidas em Washington. Mas o mundo e os inimigos dos EUA também têm uma palavra a dizer. E as consequências do uso da força raramente são tão limpas como os presidentes esperam. Trump sabe isso melhor do que ninguém — provavelmente nunca teria chegado à Casa Branca sem o cansaço dos americanos face às guerras intermináveis no Iraque e no Afeganistão.

Fuzileiros navais dos EUA do 2.º Batalhão do 8.º Regimento entram na cidade iraquiana de Nassíria, onde as forças aliadas encontraram forte resistência no avanço para Bagdade, a 23 de março de 2003 (Eric Feferberg/AFP/Getty Images)

Esta história maldita remete para duas perguntas que quase não estão a ser debatidas em Washington, que volta a viver um clima de febre guerreira.

  • Há boas razões para acreditar que novos ataques dos EUA ao Irão ajudariam os manifestantes e reforçariam as suas esperanças de derrubar o regime?

  • Ou poderiam, pelo contrário, intensificar a reação do regime contra a contestação?

Administrações anteriores debateram-se com este dilema.

Durante os protestos do Movimento Verde, em 2009, o então presidente Obama agiu com cautela — irritando críticos republicanos — porque queria evitar dar às autoridades iranianas um pretexto para a repressão. Defendeu a liberdade de expressão, a dissidência e um processo democrático, mas afirmou também: “Cabe aos iranianos decidir quem serão os seus líderes.” Acrescentou que queria “evitar que os Estados Unidos fossem o tema central dentro do Irão” e se tornassem um “alvo político conveniente”.

Os presidentes, como todos nós, não conseguem prever exatamente como as suas decisões se vão desenrolar. Em retrospetiva, Obama admite arrependimentos. Disse em 2022, no podcast Pod Save America, que “sempre que vemos um lampejo, uma centelha de esperança, de pessoas a ansear por liberdade, temos de o assinalar. Temos de lançar luz sobre isso. Temos de expressar alguma solidariedade”.

O 44.º presidente não estava a sugerir ataques militares — algo impensável quando os EUA estavam atolados no Iraque e no Afeganistão. Mas os presidentes dispõem de muitas outras opções.

"Nunca se sabe"

Trump, com a sua linguagem direta, gosto por ameaças e aversão ao detalhe, muitas vezes agrava a superficialidade do debate em Washington.

A situação no Irão é profundamente complexa. Não é possível bombardear o país até à democracia. Talvez nem sequer seja possível causar danos suficientes para proteger os manifestantes. Ciberataques poderiam comprometer a capacidade de comando e controlo das forças de segurança do regime. Mas será que o poder aéreo dos EUA consegue realmente salvar pessoas que estão a ser abatidas nas ruas pelas forças paramilitares Basij, encarregadas de impor o domínio teocrático?

A audaciosa operação das forças especiais na Venezuela, que depôs Maduro, dificilmente poderá ser repetida no Irão, onde os riscos de infiltrar militares norte-americanos numa operação de decapitação do regime parecem proibitivos. Ataques com mísseis ou drones dos EUA ou de Israel poderiam cumprir esse objetivo. Mas eliminar os líderes religiosos do Irão pode simplesmente abrir caminho a um homem forte secular ainda mais duro.

Apesar da súbita projeção mediática do dissidente exilado Reza Pahlavi — filho do último xá do Irão, deposto na Revolução Islâmica de 1979 — há poucos sinais de forças de oposição credíveis no terreno capazes de liderar uma transição. E gerações de interferência de potências imperialistas como o Reino Unido, a Rússia e os EUA demonstram que atores externos não conseguem traçar o futuro do Irão.

Centenas de pessoas participam numa manifestação contra o governo iraniano e apelam à mudança de regime em Sydney, Austrália, a 11 de janeiro de 2026 (Norvik Alaverdian/NurPhoto/Getty Images)

O Irão, ao contrário de muitos Estados do Médio Oriente, não é uma criação colonial. A sua duradoura civilização persa e identidade nacional podem poupá-lo à fragmentação vivida pela Síria. Ainda assim, um colapso da autoridade é possível se um regime que governa de forma repressiva desde 1979 for derrubado. Quaisquer fluxos de refugiados e instabilidade subsequentes não seriam bem-vindos para os aliados regionais dos EUA, por muito que celebrassem o fim do regime revolucionário xiita.

Há ainda a questão da capacidade dos Estados Unidos. As forças navais estão sobrecarregadas com a enorme armada que Trump posicionou ao largo da Venezuela. Muitos aviões militares estão estacionados em bases dos EUA por todo o Médio Oriente. Mas, segundo o instituto sem fins lucrativos US Naval Institute, o grupo de ataque de porta-aviões mais próximo é o do USS Abraham Lincoln, que se encontra no Mar do Sul da China.

Também é legítimo questionar até onde pode ir uma só administração. Trump acabou de capturar Maduro, um ditador no Hemisfério Ocidental; está a exigir que os EUA assumam o controlo da Gronelândia; e deveria estar a gerir Gaza ao abrigo do seu plano de paz entre Israel e o Hamas. A Casa Branca aprecia vitórias espetaculares em política externa, mas parece revelar fragilidades na fase de acompanhamento.

Existe ainda uma contradição vertiginosa no facto de Trump aparentemente promover a democracia no Irão enquanto marginaliza a oposição democrática em Caracas, depois de afastar Maduro. Ainda assim, a história recente e o peso da sua retórica sugerem que lhe poderá ser impossível resistir ao apelo da ação.

Mas estaria a assumir mais um enorme risco.

Um jornalista perguntou ao presidente, na terça-feira, se podia garantir que os ataques aéreos dos EUA protegeriam os manifestantes. “Bem, nunca se sabe, pois não?”, respondeu Trump.

“Até agora, o meu historial tem sido excelente, mas nunca se sabe.”

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