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A América de Trump, onde os ricos e influentes podem pagar milhões para obter um indulto presidencial

CNN Portugal , JAV
27 dez 2025, 12:51
Donald Trump (Alex Brandon/AP via CNN Newsource)
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Wall Street Journal noticiou esta semana como uma rede de lobistas tem exercido pressão junto de pessoas próximas do presidente, a troco de milhões, para conseguir perdões presidenciais para empresários e políticos condenados. Desde que regressou à Casa Branca em janeiro, Donald Trump já concedeu quase 1.600 indultos a personalidades e empresas, incluindo ao empresário chinês Changpeng Zhao e ao ex-presidente das Honduras, Juan Orlando Hernández, que tinha sido condenado por conspirar para traficar 400 toneladas de cocaína para os EUA

Outubro de 2025, Donald Trump Jr, o filho mais velho do atual presidente dos Estados Unidos, aproxima-se do pai ladeado por Ches McDowell, um conhecido lobista de Washington DC. A dada altura, Trump Jr. puxa McDowell para que cumprimente o presidente, e conduz ambos para um canto. Segundo pessoas familiarizadas com o sucedido, o assunto é algo urgente: um dos clientes de McDowell estava em busca de um perdão presidencial.

O episódio foi relatado esta semana pelo Wall Street Journal, numa peça que promete gerar controvérsia sobre como uma rede de lobistas está a usar o seu poder de influência para, em troca de milhões de dólares, assegurar indultos a clientes junto do Presidente Trump.

O cliente de Ches McDowell era Changpeng Zhao, o fundador da Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo. Logo naquela tarde de outubro, dizem as fontes ouvidas sob anonimato pelo jornal, o presidente concorda em assinar o perdão de Zhao, “um dos beneficiários de uma nova rota informal para indultos presidenciais que se tornou uma característica do segundo mandato de Trump, permitindo que alguns requerentes de perdão com muitos recursos financeiros ou lobistas com conexões políticas contornem o processo tradicional de indulto”.

Ouvido pelo Wall Street Journal, o lobista que representa Zhao diz que Trump Jr. não o ajudou a buscar o indulto e que já não estava na sala com pai e filho quando Zhao foi mencionado, até porque, adianta McDowell, partiu com Trump Jr. naquela mesma tarde para uma viagem de caça no Utah. Contactado pelo jornal, um porta-voz de Trump Jr. recusou-se a comentar o assunto.

O indulto a Zhao foi formalmente assinado por Trump uma semana depois, gerando grande alvoroço em Washington. Invocando como a Binance impulsionou a empresa de criptomoedas que Trump Jr. cofundou com o pai e os irmãos, a World Liberty Financial, os democratas criticaram duramente o perdão presidencial ao empresário chinês, falando em “corrupção descarada”. As críticas não se limitaram à barricada da oposição, com vários republicanos –incluindo o senador da Carolina do Norte Thom Tillis, e o doador de campanha de Trump, Joe Lonsdale – a dizerem-se alarmados com o indulto – “uma ideia terrível”, nas palavras de Laura Loomer, outra apoiante da atual administração.

A Binance declarou-se culpada, em 2023, de violar as leis de combate à lavagem de dinheiro dos EUA, tendo pagado uma multa de 4,3 mil milhões de dólares; o seu fundador e CEO, Changpeng Zhao, foi então condenado a uma pena de quatro meses de prisão em abril de 2024. foto AP

Exercer influência

Para a Binance, adianta o Wall Street Journal, o perdão de Trump completou um processo de quase um ano para garantir um indulto ao seu fundador – ao todo, a empresa de cripto pagou cerca de 800 mil dólares a lobistas para o conseguir, a par de mudanças nas políticas dos EUA, de acordo com registos federais. A Binance também ofereceu até 5 milhões de dólares a outros lobistas que não Ches McDowell, para ajudarem no processo, dizem pessoas familiarizadas com a estratégia e as abordagens.

Trata-se da empresa que, em 2023, se declarou culpada de violar as leis de combate à lavagem de dinheiro, tendo pagado uma multa de 4,3 mil milhões de dólares, com Zhao a cumprir uma pena de prisão de quatro meses por uma acusação relacionada com isso, em abril de 2024. O indulto tinha um objetivo: facilitar o retorno da empresa ao mercado americano.

“O perdão concedido a Zhao foi um de uma série de indultos concedidos nos últimos meses que surpreenderam até mesmo alguns dos assessores mais próximos do presidente”, adianta o Wall Street Journal.

Entre as clemências mais surpreendentes conta-se o indulto ao ex-presidente das Honduras, Juan Orlando Hernández, que foi condenado por conspirar com cartéis de droga para enviar 400 toneladas de cocaína para os EUA – vindo de um presidente que já lançou 28 ataques ilegais contra embarcações privadas nas Caraíbas, matando 108 pessoas, sob o argumento de estar a combater o tráfico de droga para o território norte-americano.

O indulto a Hernández foi decidido tão rapidamente que a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, e outros altos funcionários não foram previamente avisados – e até mesmo Roger Stone, um aliado de longa data de Trump que vinha exercendo pressões nesse sentido, disse a pessoas próximas que ficou surpreendido com a rapidez. (Stone garante que não recebeu dinheiro para garantir que o indulto era assinado pelo presidente.)

Ainda no decorrer deste mês, Trump também indultou o texano Henry Cuellar, acusado de receber quase 600 mil dólares em subornos estrangeiros, e o empresário de desporto Tim Leiweke, que havia sido indiciado pelo próprio Departamento de Justiça de Trump.

Trump diz que os filhos é que estiveram envolvidos na clemência que ele próprio concedeu a Zhao; "fico feliz que estejam envolvidos, porque provavelmente é um ótimo setor, o das criptomoedas", adiantou o presidente em entrevista ao programa 60 Minutos. foto Alex Brandon/AP

Quanto custa um perdão

No primeiro ano de seu primeiro mandato, Trump concedeu um único indulto e comutou uma sentença de prisão – e esperou até ao último dia no cargo para emitir cerca de 140 perdões adicionais. Ainda sem ter completado um ano deste segundo mandato, pelo contrário, já indultou mais de 1.500 pessoas, logo no primeiro dia no cargo, e desde então concedeu clemência a outras 87 pessoas e empresas.

“A nova abordagem — impulsionada em parte pela própria experiência de Trump como réu criminal, dizem pessoas que lhe próximas — gerou uma indústria de busca por indultos, onde os lobistas dizem que sua taxa de negociação tem o valor base de 1 milhão de dólares”, noticia o Wall Street Journal. “Os solicitantes de indulto ofereceram a alguns lobistas próximos ao presidente taxas de até 6 milhões de dólares caso conseguissem fechar o negócio, de acordo com pessoas familiarizadas com as ofertas.”

No primeiro trimestre do ano, uma empresa de lobby administrada pelo ex-guarda-costas de Trump, Keith Schiller, e pelo ex-executivo da Organização Trump, George Sorial, recebeu 1 milhão de dólares para conseguir um indulto para um agente imobiliário condenado por subornar o ex-senador Robert Menendez com centenas de milhares de dólares em dinheiro e barras de ouro. Mas esse perdão nunca chegou. Contactada pelo jornal, a empresa de Schiller e Sorial recusou-se a comentar o assunto.

O advogado do rapper Sean ‘Diddy’ Combs, que foi condenado a mais de quatro anos de prisão em outubro por acusações relacionadas com prostituição, também terá tentado contactar lobistas e pessoas próximas de Trump para conseguir um indulto que ainda não chegou, embora já tenha confirmado que lhe foi endereçado um pedido nesse sentido.

No caso de Zhao, a Binance pagou a McDowell 450 mil dólares no terceiro trimestre, período em que ele esteve registado como lobista por apenas 10 dias; segundo o próprio, não houve direito ao pagamento de qualquer taxa de sucesso.

“O que encarece os serviços de lobistas e advogados bem relacionados é a perceção de que só podem buscar alguns indultos cada, dado o capital político que precisam investir para acelerar um caso” junto do presidente, adianta o jornal. “O próprio Trump ficou surpreendido com a repercussão do seu indulto a Zhao, da Binance, em outubro, que ele não esperava que fosse tão controverso, disseram funcionários do governo.”

Em entrevista ao programa "60 Minutos" da CBS no mesmo mês, Trump foi questionado sobre o indulto a Zhao e o que, à primeira vista, pareceu ser uma troca de favores – uma alegação que não rejeitou nem aceitou. “Não sei nada sobre isso porque estou muito ocupado”, respondeu o presidente. “Só posso dizer o seguinte: os meus filhos estão envolvidos nisso. Fico feliz que estejam, porque provavelmente é um ótimo setor, o das criptomoedas." No site da World Liberty, a Binance surge referenciada como sendo propriedade de uma entidade da família Trump em cerca de 40%.

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