Presidente dos Estados Unidos referia-se a um acordo de defesa firmado entre os EUA e a Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial. Só que esse acordo faz várias referências à soberania da Dinamarca sobre a Gronelândia e não conferia aos EUA qualquer controlo sobre a ilha
O presidente norte-americano afirmou esta quarta-feira que os EUA "devolveram a Gronelândia à Dinamarca" e que foram "estúpidos" por isso, mas não foi bem assim. Num fact-check ao discurso de Donald Trump em Davos, o jornal norte-americano New York Times classifica esta declaração como "enganadora".
"Depois da guerra, devolvemos a Gronelândia à Dinamarca. Quão estúpidos fomos por fazê-lo? Mas fizemos. Mas devolvemos", declarou Trump, no seu (longo) discurso no Fórum Económico Mundial, em Davos.
Trump referia-se a um acordo de defesa assinado entre os EUA e a Dinamarca, em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, no qual os norte-americanos se comprometiam a proteger a Gronelândia, após a invasão nazi da Dinamarca, em 1940.
Esse acordo "não conferia aos EUA soberania nem controlo sobre a Gronelândia", destaca o New York Times. Na verdade, o acordo concedia aos EUA o direito de operar bases militares na Gronelândia em troca da proteção da ilha durante a invasão nazi.
No texto, estão salvaguardadas várias referências à soberania da Dinamarca sobre a Gronelândia, considerando o Reino da Dinamarca a "pátria-mãe" da ilha. Aliás, num dos excertos do acordo pode ler-se o seguinte: "O governo dos Estados Unidos da América reitera o seu reconhecimento e respeito pela soberania do Reino da Dinamarca sobre a Gronelândia."
Mais tarde, após a administração Truman ter tentado, sem sucesso, comprar a Gronelândia - em 1946, a Dinamarca recusou uma oferta dos norte-americanos avaliada em 100 milhões de dólares em ouro -, os EUA voltaram a reconhecer a soberania da Dinamarca sobre a ilha num acordo militar que permitiu a continuidade da construção de bases militares dinamarquesas no território.
Hoje, as coisas são diferentes. Os 57 mil habitantes da Gronelândia têm o direito de realizar um referendo sobre a independência da ilha. Mas de acordo com o New York Times, uma sondagem realizada no ano passado mostrou que 85% dos gronelandeses opõem-se à ideia de uma tomada de poder por parte dos EUA.