O destacamento de forças europeias para a Gronelândia é apenas o início do que poderá tornar‑se uma resposta mais ampla em ambiente ártico, envolvendo unidades especializadas treinadas em exercícios multinacionais
Jorge III foi o monarca britânico do final do século XVIII que ficou para a história como o Mad King. Sofria de graves perturbações mentais, supondo-se devido à condição de porfiria, que afetavam a sua perceção da realidade, e o tornavam errático, obstinado e incapaz de aceitar limites. Foi durante o seu reinado que o Reino Unido perdeu as colónias americanas e mergulhou numa profunda crise de identidade imperial. Dois séculos depois, o mundo ocidental volta a lidar com um Mad King. Não em Londres, mas em Washington. O temperamento é semelhante: imprevisível, irrealista e caprichoso.
Trump chamou ao Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, um “homem doente” e acusou‑o, sem provas, de produzir cocaína para exportação para os Estados Unidos. Questionado sobre se esse país poderia seguir o caminho da Venezuela, respondeu: “Para mim, parece uma boa ideia”. Em relação ao México, manifestou a intenção de enviar tropas americanas para “limpar” o país. Quando a Presidente Sheinbaum recusou, invocando a soberania mexicana, o Presidente dos Estados Unidos afirmou que “terá de se fazer alguma coisa”, sugerindo que a cooperação deixou de ser uma escolha para passar a ser uma imposição. Quanto a Cuba, a Administração Trump classifica a ilha como uma “ameaça à segurança nacional”, insiste que o regime em Havana está “prestes a cair” e admite que pode ser necessário “fazer explodir o lugar”. Aqui, o principal catalisador não é o próprio Trump, mas Marco Rubio, Secretário de Estado, cujo objetivo ideológico de longa data é o fim do castrismo.
Depois há a Gronelândia, esta mais próxima de nós. Stephen Miller, Deputy Chief of Staff for Policy, declarou na CNN, a Jake Tapper, que “a Gronelândia deveria fazer parte dos EUA” e questionou “com que direito a Dinamarca reivindica o controlo sobre a Gronelândia?”, acrescentando que “ninguém vai lutar militarmente contra os Estados Unidos pelo futuro da Gronelândia”. Num momento particularmente sinistro, Trump afirmou, num post na sua rede social, que a Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia “viajaram até à Gronelândia para fins desconhecidos”, classificando a situação como “muito perigosa para a sobrevivência do nosso planeta” que não é “sustentável nem suportável”.
Tive recentemente a oportunidade de defender, no programa Arena da CNN Portugal, que a Europa, e a União Europeia (UE), precisam de “mudar a bitola” de pensar que Trump é um agente racional dentro da ordem internacional, sob risco de “não termos respostas preparadas”.
O destacamento de forças europeias para a Gronelândia é apenas o início do que poderá tornar‑se uma resposta mais ampla em ambiente ártico, envolvendo unidades especializadas treinadas em exercícios multinacionais como Cold Response, Nordic Response ou Arctic Forge. A Dinamarca pode fazer claro que, em caso de invasão do seu Reinado, o Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte será invocado, o que envolveria Ottawa, e o pedido de disponibilização dos Canadian Rangers e do Canada Arctic Response Groups (também treinados em operações como Arctic Bison ou Nunalivut). Outras opções existem no resto da Europa: restringir o acesso de navios de guerra americanos a portos, denunciar acordos de utilização de bases estratégicas como Ramstein, Nápoles, ou Base das Lajes.
Relativamente à UE, depois de um ano a esforçar-se para tentar manter o status quo da relação transatlântica por quase um ano, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu estão a discutir a reativação de um pacote de contra-tarifas sobre bens americanos no valor de 93 mil milhões de euros. A possível ativação do Instrumento Anticoerção (ACI) que levaria a restrições de acesso ao Mercado Único às grandes empresas tecnológicas americanas e de plataformas digitais.
Já no Parlamento Europeu, com acordo das três grandes famílias políticas no hemiciclo, a ratificação do novo acordo comercial negociado em Turnberry com a Comissão Europeia, está em suspenso, e pode não avançar. Importa ainda notar que a justificação legal usada pela Casa Branca para impor tarifas, invocando uma emergência económica ao abrigo da Lei de Poderes Económicos de Emergência Internacional de 1977, está a ser contestada no Supremo Tribunal dos Estados Unidos e poderá ser considerada inconstitucional.
Outra possível resposta, que traria consequências indesejáveis para as economias europeias devido às receitas com turismo, seria a reintrodução de vistos para cidadãos dos Estados Unidos. Esta medida, defendida pelo Parlamento Europeu sob o princípio da reciprocidade, ganha agora um novo fôlego com a ameaça da Comissão Europeia de uma resposta proporcional à decisão de Washington de interditar a entrada em solo americano de funcionários da UE, ativistas e do antigo Comissário Thierry Breton.
Estas opções causariam ondas de choque nas economias e sociedades europeias. Porém, está na hora de decidir: queremos viver em conforto, mas vassalos de um Mad King? Ou queremos mostrar que não nos iremos sujeitar a caprichos, abusos e extorsão, apelando assim também a aliados à volta do mundo e dentro dos Estados Unidos? Afinal, a Europa já se livrou de vários reis loucos, e podemos fazer o mesmo a mais um.
